quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ela ligou às 21h. Queria saber se eu estava livre pra poder acompanhá-la. Não estava. Já tinha um compromisso marcado, um encontro familiar. Ela insistiu, tentando me convencer a mudar os meus planos. Dessa vez, não caí na arapuca. Rejeitei sua isca, com muita polidez, claro, e lancei a minha. Convidei-a a virar o ano comigo e minha prole. Ela ficou surpresa, acho, pois tentou dissimular sua alegria, ou, em outras palavras, se fez de difícil. Começou a vislumbrar pequenas peias: disse que onde eu moro é contramão, disse que não era esperada e disse, pra minha felicidade, que não tinha onde dormir depois... Argumentei: em uma hora estaria comigo; em casa de boa família há comida de sobra; e, que poderia dormir em minha casa mesmo, afinal, já dividiu comigo, numa outra ocasião, a mesma cama – sempre fui acolhedor. Ela soltou uma gargalhada, ou seja, ela se soltou, se desvencilhou da minha teia. Disse, pro meu desespero, não. Não queria dividir comigo a mesma cama, mas que poderia dormir em outra cama... Deixou isso bem claro. Nessa altura da conversa, percebi que ela ainda estava brincando comigo. Fingiu que ia cair na minha armadilha ardilosa e me deu um bote no ego. Me vi perdido, sem reação possível; não tive escolha, disse: tudo bem então. Ela, pra me humilhar, disse que ainda não estava certa se vinha me ver; receou ser tarde demais. Repeti o argumento anterior: disse-lhe que em uma hora estaria comigo, ou seja, daria tempo de virarmos o ano juntos, não era tarde demais. Ela disse que iria pensar mais um pouquinho a respeito; disse que iria tomar banho e lá pras 22h ligaria para mim novamente. Eu, ainda atordoado, boboca, repeti: tudo bem então. Ao desligar o telefone, percebi que ainda estava no jogo, não o tinha perdido de todo, acreditei. Resolvi também me arrumar: escovei os dentes, tomei banho, cobri o corpo todo de branco, mas deixei um pedaço dele coberto de vermelho. Eh; admito, ainda alimentava uma ilusão amorosa, uma esperança sem fundamentos concretos. Enquanto me aprontava, ficava a imaginando chegando próximo de mim - em câmera lenta -, me abraçando, me beijando nas bochechas coradas. Depois, já em casa, me via com ela vendo a programação especial na televisão, papeando de pertinho sobre isso e outras coisas avulsas, sem vergonha, sem preconceito. Aproveitávamos as últimas horas do ano pra relaxar, se divertir, descansar na presença de conhecidos íntimos. Eu nos via comemorar a chegada do Ano Novo: abraçados, pulando, gritando, sorrindo diante de todos e das explosões coloridas! Tinha, diante dos meus olhos castanhos, a imagem nítida de nós dois, lado a lado, degustando a primeira refeição do ano, brindando com as primeiras bebidas alcoólicas. Fantasiava a primeira madrugada (de insônia). As confissões ao pé do ouvido, as carícias inocentes, o primeiro beijo, a primeira mordidinha no lábio inferior, a primeira pegada, os primeiros amasos... os primeiros orgasmos!

Às 22h ela não ligou.

Não me agüentando de expectativa, às 22h05 liguei. Ela atendeu. Disse que já era muito tarde, não daria tempo. Decidiu virar o ano com o seu único parente presente: o pai. Lamentei. Ela também.

Ela ainda prometeu vir me ver na hora do almoço, às 14h. Não veio e nem ligou avisando que não vinha.

Terminei um ano com uma desilusão, comecei outro com outra. Seja bem-vindo 2010!!!