sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O desempregado desesperado

Não teve jeito. Tinha que acordar cedo e encarar a maratona estafante urbana. Levantou-se da cama às sete e quinze da manhã de sexta. Aprumou-se, engoliu um cafezinho amargo e saiu de casa apressado. Chegou ao ponto de ônibus pingando suor – prova de seu orgulho ferido, da sua juventude sedentária. A lotação (espécie de micro-ônibus) estava lotada - nada mais condizente com o nome de batismo. Sua pasta plástica cutucava os demais passageiros, o mau humor dos demais arranhava sua paciência masculina. Ficou em pé, não tinha lugar pra se sentar, nem pra se mexer direito, só à esquerda mesmo. O trajeto costumava levar meia hora, no máximo; nesse dia, levou quase uma. O transito local estava mau, véspera de carnaval, sabes como é. Ao descer da condução, quase tropeçou, digo quase porque conseguiu se recompor. Na rua, do ponto ao seu destino, esbarrou em três pessoas: numa senhora distraída, numa moça apresada e num senhor mal humorado. Da senhora teve pena, da moça um comichão e do senhor indignação. Adentrando no seu destino, esqueceu-se de tudo. Havia muitos como ele, haviam mais de duzentos na sua frente. Não teve jeito. Teve que aguardar a sua vez, pacientemente, maliciosamente, criativamente. A troca de cadeiras era constante, parecia uma dança humilhante e despudorada. E os “dançarinos” só conseguiam sorrir sorrisos amarelos. O destino flertava com o desemprego emergente. Era horrível. Era real? O devaneio era persistente, não queria se desanuviar de lá... Após duas horas de espera, foi atendido – até que foi rápido! Atualizou seu cadastro, aguardou mais alguns minutinhos e saiu de lá com uma cartinha de indicação – objetivo de todos, sorte de poucos. Não poderia comparecer ao local no mesmo dia, já passava das doze horas, ficaria pra segunda então, fazer o quê? Com a cartinha na pasta, estava mais tranqüilo, o Clima escaldante já não o incomodava tanto. Resolveu ir a outro posto de encaminhamento, um mais longe, lá pros lados do centro. Arranjaria coisa melhor? Não queria perder mais tempo. Foi. O tal posto ficava dentro duma estação de metrô, pegou outra lotação, não tinha opção. Nessa, também foi em pé... No metrô, conseguiu se sentar, num lugar especial - não havia outros para reclamá-lo. Aproveitou a pequena viajem como melhor pode: pescando... Na estação de destino, fez baldeação, sem balde, claro, mas com uma rede na mão. No posto, não demorou tanto pra ser atendido, não havia tantos como ele, apenas uns dez na sua frente. Esperou de barriga vazia, mas com a Esperança do seu lado. Ela não alimenta o corpo, apenas a alma. Dessa vez não recebeu uma cartinha, apenas uma palmadinha. Não teve jeito, voltar pra casa era a única opção. Pegou o trem dessa vez, era mais rápido e mais barato – o dinheirinho estava escasso. Não queria gastar mais do que já tinha gastado, e era muito!

Em casa, trocou de roupa, pôs uma mais confortável, odiava se paparicar pra sair. Não almoçou, estava sem fome. Estava sem ânimo, só queria deitar-se. Segunda-feira então era o dia, mais um dia! Passaria mais um fim-de-semana se iludindo. Não tinha escolha. Não teve jeito.