domingo, 7 de março de 2010

Fragmentos do cotidiano (4)

Ontem de madrugada, Mamãe me pegou no flagra: masturbando meu flácido cerebelo – estava gozando da companhia de textos cibernéticos! Achei mui curioso Ela me repreender, sonambulamente; suspeitando que eu estivesse curtindo a bizarra pornografia virtual. Achei curioso porque, meu caro, tenho mais de vinte anos cá nas costas, e Ela teima em me vigiar, em bisbilhotar minhas atividades íntimas, nada ilícitas ou pecaminosas, como tu bem sabes. Tu achas suspeito um jovem como eu ainda estar online às quatro da matina duma sexta-feira banal? Nada mais normal hoje em dia, né verdade? Pois então, Mamãe desconfiou... Por que será, hein? Estou tentando cá descobrir... Será que Ela ainda me vê feito um garotinho mirrado e vagabundo? Hummm... Provavelmente minhas espinhas retardatárias contribuem para que Ela crie essa miragem de mim. É o que eu acho, sabe? Ah, sim, meu caro, como vês, estou com o semblante todo salpicado de vistosas acnes maduras. Um verdadeiro tormento pra minha vaidade masculina citadina. Caso curioso e desagradável, convenhamos. Parece até que tô com catapora, pô! Os transeuntes olham para mim com os olhinhos puxados, espremidos... Parecem reprovarem; outros parecem desconfiar de algo, feito Mamãe... Muito estranho tudo isso. Não me agrada àqueles olhares alheios. Sinto-me tão incomodado, amigo. Mas, enfim, por que será que Mamãe suspeitou de mim, seu único filho? Hummm... Talvez... Talvez por ignorância. Eh! Calma, calma não me reprove você também com essas sobrancelhas, explico: Mamãe não sabe que quem acessa discado a Internet não goza de certos privilégios – velocidade de conexão é uma delas. Tu sabes bem, não dá pra baixar conteúdo adulto de qualidade numa conexão discada, de banda estreitinha. O negócio arromba mesmo quando a conexão é de BANDA LARGA! E como minha conexão é estreita num dá pra se animar tanto. O melhor é navegar virtuosamente mesmo, não há “Ilha dos Amores” (dos Prazeres!) nesse meu caminho manhoso em que fico à deriva durante as madrugadas... Assim, mesmo que eu quisesse, não daria pra me deleitar sozinho comigo mesmo diante da telinha de cristal líquido. E Mamãe não conhece essas coisas. Mamãe só vê a carranca confeitada, não vê o leme fálico. Eh isso, meu velho. Sanei essa suspeita materna, acho. Agradecido por me ouvir, mais uma vez. Bora tomar mais uma então?