sexta-feira, 28 de maio de 2010

Tormentos diários

Às vezes gostaria de ser cego, literalmente. Com meus vinte e poucos anos, sou atormentado diariamente por desejos libidinosos. Basta passar um rabinho feminino bonitinho, empinadinho e redondinho diante dos meus olhos, pra eu ficar todo eriçado, animadinho e sorridente. Não consigo evitar, sabe? É automático. Capto um corpo curvilíneo e vistoso próximo ou à distância e pronto, fico lá, parado, que nem besta, babando, vidrado nas características típicas do Segundo Sexo. E por acreditar que toda mulher tem uma beleza que lhe é peculiar, fico atordoado. Atento-me nas particularidades de cada fêmea que me aparece. Aprecio seios generosos e modestos. Deleito-me com uma arcada dentária alva e fácil – exibindo-se espontaneamente na rua. Entorpeço-me envolto de xampus, cremes e perfumes afrodisíacos no transporte público – o contato, a proximidade é inevitável. Fico embriagado. Não conseguiria escapar, ignorar mesmo se eu quisesse. Pensar em outra coisa? Impossível! Estou cercado, encurralado, acuado, impossibilitado de esboçar alguma reação viril. Sinto-me a caça, não mais o caçador. Ainda tenho a “lança”, ferramenta pra espetar, perfurar, penetrar... Contudo, o receio existe, persiste. Sinto que vou ser capado, castrado assim que decidir agir. Sinto-me impotente, em constante convalescença... Ah! Como eu gostaria de ser cego, literalmente, pra não mais cobiçar, me apaixonar.