quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Entre a Antônio Carlos e a Haddock Lobo

Sempre tive o hábito de reparar nas pessoas ao meu redor que degustam a digna refeição do meio dia. E, neste humilde restaurante, não poderia ser diferente. O ambiente tá cheio! O horário atrai os famintos por bons pratos e fartura. Foi difícil arranjar lugar pra um, pra mim. Enquanto cá me alimento e me hidrato, observo os demais almoçantes. Só vejo assalariados, funcionários das empresas adjacentes aproveitando a uma hora obrigatória para almoçar. Não vislumbro casais, apenas pequenos grupos mastigando apressadamente a comida escolhida. O papo deles é animado! E o movimento dos funcionários, que aqui trabalham, os garçons e as garçonetes, é frenético! Só param pra anotar o pedido do freguês. Somem-se na cozinha e só aparecem novamente com o prato fumegando aromas caseiros em suas mãos. É quase a visão do paraíso. Enquanto mastigo bem o meu pedido, o prato do dia, bife à role (delicioso!), vou bisbilhotando discretamente, às vezes descaradamente, essa gente. E, de repente, uma figura masculina ganha meu foco. É um senhor. Deve ter lá seu quase meio século. E está sozinho, como eu. Curioso. Curioso o jeito como ele come. Tá quase com a cara enfiada no prato, como Mamãe costuma dizer. E seus antebraços apoiados sobre a mesa; com a mão esquerda segura o prato, pela borda, e com a direita segura o garfo. Enquanto realiza o movimento do garfo pro prato, do prato o garfo cheio pra boca, fica olhando para os lados, assim, meio que desconfiado. Será que ele acha que tomar-lhe-ão a comida? Que a retirarão bem antes dele dar cabo dela? Estranho, mas os garçons e as garçonetes de cá costumam retirar a louça assim que a vêem vazia. Com isso parecem dizer, indiretamente (ou descaradamente?), pra tu ir embora logo, afinal, há mais gente faminta por aí que pode pagar pra se alimentar, e que necessitam se sentar. Não sei bem ao certo se é isso mesmo, contudo, continuo de olho no senhor, pois ele é mui parecido comigo! Como do mesmo jeito. Só que mantenho a postura, às vezes, pra não ficar com dor nas costas após a refeição, e não olho os demais com desconfiança não, e sim com curiosidade, interesse discreto e inocente. Continuo focado no figura, pois é quase como se estivesse olhando pra mim mesmo num futuro próximo, e possível. Ele é meio gordinho e simpático. Todo gordinho é simpático. E como já fui gordinho, mas mantive a simpatia intacta, suspeito que, mais velho, beirando o meio século, minha barriga recuperará destaque; infelizmente, é natural. Enquanto retorno de mais esse devaneio, percebo que o figura tá com os olhos fixos em mim. Ele não está mais mastigando, parece que já terminou. Fico surpreso e até um pouco desconcertado, pois ele tá me encarando; ninguém, até hoje, me encarou do jeito que ele está me encarando. Não quero confusão; assim, desvio meu olhar, mas, antes disso, percebo que seu olhar vai de desconfiado pra surpreso, de espantado pra enternecido em poucos segundos. Muito estranho. Tento me concentrar no meu prato. Contudo, tenho a impressão que ele se levantou, e vem em minha direção! Tento manter a calma. Expresso em meu rosto a serenidade forçada. De pé, bem à minha frente, ele pára. Olho-o de baixo, afinal, estou sentado. Enquanto levanto minha cabeça, lentamente, pra questioná-lo, fica perceptível um sorriso amigável em seus lábios. E ele diz, com voz grave e límpida: - Oi, meu filho. Baque.