sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Saramago para sempre

Bem sei que faz quase dois meses que o grande escritor português faleceu, contudo, nunca é tarde demais pra prestar, e deixar aqui registrado, uma singela homenagem a ele, não é verdade? Pois bem, ele conseguiu a proeza de ser (e ainda é) o meu escritor predileto. Todos têm um ou mais, assim como eu tenho mais uns, mas, por ele, e só por ele, sinto certa estima, sabe? E isso não foi logo de cara não! Lembro-me que o primeiro livro que li dele foi História do Cerco de Lisboa. Leitura da adolescência. Leitura difícil, a princípio. Todos acham isso quando o lêem, acho. Curioso. Seu estilo é inconfundivelmente confuso na primeira passadela de olhos. Um estilo mais apegado à oralidade do que à sintaxe. Por isso, depois de certo tempo dedicado às suas páginas, consegui, conseguimos compreende-lo muito bem! Aliás, taí um livro que merece ser relido. Não me alembro direito das duas estórias que nele há... Enfim, o segundo livro que li foi Memorial do Convento. Leitura de amadurecimento. Leitura acadêmica - li na faculdade. Leitura obrigatória, mas de particular deleite, e de fôlego! Às vezes inda vislumbro Blimunda mi bisbilhotando... Depois me caiu na mão As Intermitências da Morte. Livrinho de uma poética sinistra, mas graciosa. Foi a porta de entrada para sua suma característica literária: a alegoria. E esse é, segundo o amigo que o me recomendou, segundo o livreiro que o me vendeu, segundo outros leitores aí e segundo críticos acolá, o seu melhor livro. Dá pra acreditar? Considero o Ensaio Sobre a Cegueira um dos melhores. Saramago só tem bons livros! Saramago não tem o melhor livro, tem os melhores. Nesse, tive até que pausar, várias vezes, a minha leitura voraz. A cena das mulheres, em fila indiana, seguindo rumo a seus algozes, pra conseguir comida pra si e seus maridos, doía-me constantemente cá nas entranhas... Até hoje nenhum livro me provocou tamanho mal-estar. Li Ensaio Sobre a Lucidez, continuação desse, e também fiquei incomodado, mas mais com o final. Pobre mulher. Daí li A Viagem do Elefante. Livro engraçadinho. E triste: temos o nosso auge, mas acabamos sendo esquecidos, acabamos sozinhos a passos curtos rumo ao cemitério - a derradeira viagem. Depois vieram as leituras, seguidas, d’O Evangelho Segundo Jesus Cristo e do Caim. Jesus é outro cara pra mim! Tenho mais apreço por ele, e por Caim também, graças a Saramago! Um ateu convertendo outro!! Curioso. Deus e o Diabo são faces da mesma moeda. E, por fim, li O Conto da Ilha Desconhecida... O que dizer? Alegorias, humor, amor, Amor, tudo concentrado. Leitura de poucos minutos. Leitura prazerosa que fica pra vida inteira. Logo, para sempre Saramago.

Eh, tomei gosto pelo estilo e pela temática do Saramago. Devo ler os outros livros dele que ainda não li? Devo comprar esses livros? Devo agir feito aproveitador afoito, que nem umas bibliotecas e livrarias aí?!? Sim. Sim. Não. Devo manifestar aqui a minha admiração, o meu respeito; devo recomendá-lo sempre, como fiz e faço, e não devido à sua morte, pois Saramago é.