sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Tentações sobre a mesa

Ah, a rotina no escritório! Coisa vulgar, torpe, mas ao mesmo tempo instigante e até deliciosa. Coisa curiosa é perceber o que cada colega de sala, o que cada colega ao lado põe, deposita sobre sua mesinha de trabalho diário. Além, é claro, da papelada obrigatória, do trabalhinho burocrático, há coisinhas particulares que merecem uns minutinhos de boa observação. Cada colega têm um porta-treco diferente, e cada um o enfeita a seu gosto. Marcação de território, talvez. Exposição da própria identidade. Fora os adesivos e os recadinhos pra si mesmos que eles colam em derredor do monitor led. Cá pra nós, tem umas telas aí que mais parecem girassóis de tantos papeizinhos aí colados. E, ao longo do dia, a pobre “flor” é desfolhada, mutilada paulatinamente pra no dia seguinte ser recomposta, logo de manhãzinha; e assim é todo o dia, toda semana, todo mês, todo ano. Fotografias ainda são comuns ver sobre as mesas de escritório, é clássico, algo saudosista, digamos, pois, nesta Era do Cristal-Líquido, onde fotos são vistas graças à energia elétrica, porta-retratos de madeira (ou mesmo de acrílico) são artigos antigos, praticamente coisa pra colecionadores esquisitos. Geralmente são fotos da família – da(o) esposa / esposo e dos filhos, ou da filha, ou do filho. Raro é ver fotos da namorada ou do namorado, dependendo do caso, ou do acaso. Por que será? O dono ou dona da mesa não quer olhos cobiçosos sobre o que lhe é tão estimado, querido e imprescindível? Talvez. Provavelmente. Mas, tais olhos, são inevitáveis. Ainda mais inevitáveis quando há, sobre a mesa de trabalho, um singelo e transparente potinho cheio de balas coloridas. Quem, em sã consciência, é capaz de tamanha maldade? Bem, o meu colega do cubículo ao lado é. E por que ele é mau? Veja bem, entenda, a porra do potinho é transparente! Comé que o cara tem a moral de colocar cá ao meu lado um potinho transparente cheio de balas?! É uma tentação constante. E se eu fosse diabético, hein? Seria uma tortura diária. E o pior é que todo dia quando chego, e todo dia quando vou-me embora, o potinho tá cheio! O desgraçado o reabastece todo dia. Assim num dá. E ele, o cara cá do meu lado, nunca, nesses cinco anos, nunca ofereceu as balinhas a mim. Pra ninguém, pô! E o potinho fica lá, sobre a mesa, e sempre no mesmo lugar, entre a caixa dos documentos pra dar entrada e a caixa dos documentos pra dar saída. E como brilha aquele recipiente! É de cristal, sem dúvida. E tal material manufaturado certamente intensifica as cores das guloseimas lá abrigadas. Consigo, à boa distância, vislumbrar aquele brilho doce. Parece até um farol. De perto é possível focar o granulado alvo, os torrões cristalizados do açúcar usado naquelas bolotas aglutinativas... Vou pegar aquele potinho. Agora. Já! Não tem ninguém aqui na sala. Os cubículos estão vazios. Todos foram almoçar. Fui mais cedo. Acabei de chegar. E o potinho lá brilhando, reluzindo doces possibilidades... Peguei-o. É meu! Meu precioso. Desrosqueio a tampa lentamente; não faço barulho. O silêncio da sala é prazeroso e frio – o ar-condicionado, meu cúmplice, me refrigera os nervos. O pote está aberto, finalmente. Aromas almiscarados são, enfim, libertados. Tremo discretamente de ansiedade. Respiração agitada. Gemo de prazer, mesmo tentando contê-lo. Delicadamente apanho uma bala vermelha. Sua maciez é delirante, sua porosidade sacarídea me lembra o meu toque gentil dado recentemente nas coxas da estagiária novata... Delícia! Prazer concretizado. Sabor saboroso na minha saliva. Ah, como é bom atender minhas vontades. Ah, como é bom sair da rotina!