sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Charm da Augusta

Não adianta, ainda tenho a pachorra de ficar observando as pessoas ao meu redor. Vício desgraçado esse, mas inocente, meio insano, e até que idílico. Ultimamente, sabe, ando reparando numas pessoas da rua Augusta. Bem, tá certo que essa rua daria, dá mote inesgotável para diversas produções literárias. Crônicas, Contos, Poesias, Romances incontáveis, impagáveis poderiam, podem ser escritos inspirados nessa rua tão instigante de São Paulo, mas vou me contentar, me expressar apenas com este post mesmo. Trabalho nessa rua há poucos meses, e bem próximo donde labuto há um estabelecimento, um restaurante-lanchonete-bar. Ou seria bar-lanchonete-restaurante? Bem, algo assim, sabe. O nome do recinto num preciso nem dizer, tá na cara. O paulista já sacou. E você, que não sabe, depois me pergunta, certo? Pois bem, estou nesse estabelecimento de segunda a sexta-feira, entre às 7h30 e às 8h. Pode conferir. Tô lá no balcão saboreando meu gostinho matutino de felicidade: cappuccino médio e um pão francês na chapa no capricho. Coisa essa de verdadeiro paulista: tomar café-da-manhã fora de casa em lousas brancas. E sempre a mesma coisa. Todos os dias. Enfim, é um bocadinho da nossa própria singularidade. E lá, sentado no balcão, fico bisbilhotando de soslaio os demais fregueses. Por lá aparece, quase sempre, o Casal de Motoqueiros. Os dois adentram o estabelecimento trajando preto, sempre, e com os capacetes pendurados no antebraço esquerdo de cada um. Capacetes estes estilizados, multicolores, lembram os típicos de competição na lama. Costumam sentar na mesma mesa, sempre. Pedem dois expressos e dois na chapa. Assim mesmo, desse jeito, antes de se sentarem. E quando sentam, próximos à televisão de tela plana, ficam papeando, de olho no aparelho e de olhos sonolentos entre si. É um casal jovem e que curte conversar sobre os problemas de seus respectivos trabalhos ali mesmo. Cada um parece realmente interessado no que acontece com o outro quando estão separados. E quando o café-da-manhã é servido, os dois começam a se animar. Ganham um vigor avermelhado em suas faces. Sorrisos cúmplices surgem. Dá gosto vê-los. Outra figura curiosa e o Cara da Coca. Cara, o cara toma uma latinha de Coca-Cola logo de manhã! E, pra acompanhar, uma esfiha gorda de carne, daquelas fechadas, sabe, regada afoitamente com catchup. Mostarda nem pensar! O Cara da Coca detesta. Pimenta idem. Apenas o molho vermelho e mais nada. Café-da-manhã encorpado, né não? Outro típico paulistano. Eh, São Paulo é assim mesmo: surpreendente. Mas o melhor, ou a melhor, deixei cá pro final. O verdadeiro Charme da Augusta é a Negra Fashion. Às vezes quando chego, ela já está lá, às vezes não, chega pouco depois de mim. O que ela toma de manhã? Surpreenda-se: Toddynho gelado e um pãozinho na chapa amassado. E todo dia. Ela eu não olho de soslaio, não. Eu olho pra ela descaradamente e, sendo deusa, isso ela é, sem dúvida, não me dá bola. Totalmente indiferente fica. Prefere tomar seu café-da-manhã com a mão direita, e com a esquerda fuça seu aparelhinho celular. Deve ter dezenas de admiradores lá salvos no aparelho portátil. É uma deusa fashion! O corpão negro dela é coberto por roupas descoladas, dá última moda, entende? Tendências ela segue. E meus olhos a devora. Uma graça. Não entendo de moda, por isso não vou entrar em detalhes quanto à vestimenta dela, ok? Mas acho que você aí, leitor camarada, já a visualizou. Não? Bem, aí vai umas informações adicionais: ela mede quase um metro e oitenta, sempre usa bota ou sapato com salto médio, raramente a vi de tênis, mas os tem e os usa, pode crer. Pele negra, dum negro mais pro chocolate ao leite do que pro chocolate amargo. Cabelos lisos, compridos até mais ou menos no meio das costas largas, não muito largas, mas atlética. O cabelo ela sempre o prende, feito rabo empinadinho de cavalo, sabe. Quanto ao rabo mesmo, quanto ao bumbum, ai, ai, como eu posso lhe dizer? Uau!!! Empinado, redondinho, um pouquinho largo e muito, mais muito atraente. E fica mais atraente quando ela o cobre com aquelas calças legging! Puta-que-o-pariu!! Essas calças me fazem sofrer diariamente. É uma louca tentação. Mas, enfim, onde eu estava mesmo? Ah, então, ela, essa deusa, pra mim, é o verdadeiro Charm da Augusta, pois, tamanha divindade, mesmo se apresentando voluptuosa, pomposa, cheia de garbo em suas vestis citadinas, tem a santidade, a peculiaridade de alimentar-se simploriamente, infantilmente, digamos. É um tipo de charme, vai, admita. Encantador e instigante como a rua Augusta é.