quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Fragmentos do cotidiano (6)

Não é todo dia que temos o privilégio de pôr os olhos sobre uma beleza áurea e rara, ainda mais numa lotação lotada. Pois bem, ontem à noite ganhei essa graça. Lá estava eu, entre uma senhora de vestido juvenil e alegre e uma pré-adolescente de trajes soturnos, quando ela apareceu. Foi se aproximando de ladinho, o corredor da condução estava cheio, e parou frente à porta de saída traseira, eu estava no fundão da lotação. Ficou lá de pé olhando para o nada, distraída e aparentemente triste. Pensavas em que, meu bem? Fiquei de lá do meu canto admirando-a, da cintura pra cima, é verdade, não podia ver seus membros inferiores. O que vi, aqui comento: vestia um vestido todo estampado, colorido, desses que estão na moda, algo deveras agradável de se ver, percebia-se que ela estava fresquinha. Seus seios estavam muito bem alojados, simétricos, e tinham um generoso volume, o seu pulsar me causava um casto frenesi. Braços delicados ela tinha, e o tom de pele, levemente tostado, davam-lhes uma maciez saudável e sincera. O pescocinho era convidativo, lisinho, lisinho, notava-se que sua respiração estava um pouquinho acelerada. Seus lábios carnudos e rosados não se contorciam, estavam quietos, sérios, aguardando os meus talvez. O narizinho era uma graça, as narinas não eram largas e a ponta não era fina, era arredondada, digamos. Os olhos, ah, os olhos, bem, castanhos eram, mas de um castanho bem claro e brilhante, graças, eu acho, à iluminação artificial da lotação. As sobrancelhas não eram muito finas, mas bem feitas eram e negras, dum negro quase que grafite. A testa dava pra ver bem, lisinha, lisinha, sem intervenções cirúrgicas ou orgânicas. Bochechas coradas e salientes, dois outros convites. E as orelhinhas ora se escondiam entre aquela cabeleira loira e lisa. Era de um loiro escuro muito sedutor, lembrou-me logo um café-com-leite do bom e requintado. Bem, não era uma loira natural, mas era uma loira, uma bela loira, um loirão. Lá do meu canto, pude ver tudo isso, sentado e mui admirado, encantado. Só me espantei quando ela olhou direto pra mim. Eh, as mulheres percebem quando estão sendo vistas. Depois, num segundo olhar, olhou-me com mais calma, pra ver com mais detalhes o cara, eu, que a estava observando. Acho que queria me avaliar, ver se eu valia a pena ou não. Nisso ela sorriu, aí eu pude ver aquele sorriso metálico e ofuscante. Será que eu fui aprovado? Terá ela gostado de seu olheiro inusitado? Enfim, não sei, só sei que ela, logo após me lançar aquele sorrisinho sapeca, enfiou o dedo indicador esquerdo na narina esquerda! E o ficou enfiando, girando um bom tempo... Seu rostinho agora fazia umas caretas medonhas. Os olhos se fechavam, se espremiam. A boca e o nariz se contorciam. A testa apresentou-se cheia de dobras. Até o cabelo, aquela linda moldura de outrora, ficou um pouco bagunçado, descabelado, pude ver, juro, pontas duplas! Ela estava em gozo, óbvio. Eh, nem tudo nessa vida dá pra romantizar. Decepção, cadê a Ilusão?!?