sábado, 18 de dezembro de 2010

Ponto de convergência

- Não sei ao certo o que anda acontecendo comigo ultimamente. Só sei que não me sinto bem, não como antes. Estou diferente, isso é certo. Estou mais pensativo, mais melancólico; ando sofrendo de pequenos lapsos de saudosismos. Espero que, ao ti revelar certas coisas, caro amigo, eu finalmente possa me sentir melhor e resignado. Vamos lá então. Bem, sabe, ando pensando em como eu vim parar aqui, ou seja, em como sobrevivi até este presente momento. Como cheguei até aqui? O que fiz ou deixei de fazer até agora? Por que sou quem sou? Ou por quem sou que sou? Às vezes me pego pensando em quando eu era garoto e Mamãe me arrastava pelo braço, pelas lojas do centro da cidade. Sou filho único, tu sabes, e não é nada fácil de criar um quando se é mãe-solteira. Mamãe deve de ter sofrido horrores. E, percebo hoje, que eu sofri também. Eu não gostava nada de ser arrastado, de ser obrigado a ir com ela pra tudo quanto é lugar. Ela entrava numa loja e eu tinha que segui-la, pra cima e pra baixo, até próximo aos provadores (!), só pra não me perder dela. E eu carregava sacolas, e entrava em outras lojas, e ficava de canto, esperando até que ela voltasse. Era um saco. Ou eu era um saco. Na escola até que eu era um bom aluno. Desses quietinhos, sabe, que toda professora adora e que todo colega acha inteligente, ou um puta dum CDF. Eu freqüentava a escola por freqüentar mesmo, cresci indo pra lá, então, não achava estranho acordar cedo pra ir pra lá. Apesar dos pesares, agüentei. Duro mesmo foi quando eu fazia o Ensino Médio. Cara, de repente você começa a ouvir que tem que ir à escola pra arranjar um trabalho bom, um emprego decente – o que seria isso? -, pois um bom salário mensal é o que importa, mas, claro, sem esquecer que tu deves fazer o que gosta. Pergunto: quê?! Como? Se nem eu mesmo sei ao certo o que gosto. Então, qualquer coisa aí que pague bem serve, né? Certo. Aí me vi procurando emprego. Estudava e consultava classificados, imprimia currículos e mais currículos apáticos, pois não tinha a tal da “experiência profissional”. Preenchia fichas de cadastro esdrúxulas. Participava de entrevistas e dinâmicas desconfortáveis, vexatórias, estranhíssimas... Os trabalhos feitos na escola não serviam – têm coisa errada aí, dizia a mim mesmo. Mas era obrigado a procurar, Mamãe exigia isso de mim. Consegui uns aí, mas não foram lá muito duradouros não, um que fiquei mesmo um bom tempo foi quando eu já estava na faculdade. Sim, consegui fazer uma. Uma licenciatura, é verdade, mas não deixa de ser um Ensino Superior, né? Entrei numa universidade particular graças há um programa social – posso dizer isso? – do Governo Federal. Antes fiz um cursinho comunitário, durante um ano (2004), prestei vestibulinhos e vestibulares públicos, mas não passei em nenhum... Ah, o curso universitário que fiz não era a minha primeira opção, era a quinta e última (!), mas foi o único em que passei, então, resolvi faze-lo mesmo assim. Não me arrependi, até curti o curso. Logo em seguida emendei uma pós, mas até hoje, quase dois anos depois, não produzi a tal da Monografia. Estou com ela cá empacada. Mó vergonhoso isso, né? Por que fiz essa pós? Por que tinha que fazer uma ou, sei lá, vi seu currículo e gostei, taí, vou fazê-la? Ou por que muitos colegas de graduação já estavam fazendo uma? Não sei bem... Também não me arrependi, curti igualmente. Enfim, naquele emprego fiquei mais de quatro anos – um bom tempo mesmo, vai. Não cresci lá profissionalmente, hierarquicamente, não tinha isso lá. Depois fiquei uns meses desempregado, fazendo a pós e mais nada, ou melhor, procurando também trabalho na minha área de formação. Tentei, tentei, tentei, mas não deu certo. Não consegui nada atraente, só experiências estranhas e suspeitas. Hoje, faz quase sete meses, estou trabalhando numa pequena empresa. Ganho bem, um pouco a mais do que na anterior, tenho vários benefícios, fiz alguns colegas, mas, sei lá, sabe, não estou empolgado, entusiasmado. Estou lá só de passagem, por necessidade, digo isso a mim mesmo sempre. Não sei bem até quando ficarei lá. Uns dois anos? Talvez. Mas e depois? E agora? Fazer o quê da minha vida? Gosto de ler, de escrever, de curtir programas culturais, do tipo cinema, teatro, exposição, essas coisas, não sou lá de baladas mais frenéticas, mas as freqüento, quando há convites e disponibilidade. Sei bem hoje em dia o que me faz bem. Contudo, ando negligente. Minha leitura anda atrasada. Meus textos, cada vez mais, ou melhor, menos. E os tais programas culturais, mais raros. Ando cansado. O trabalho obrigatório diário me cansa, me desgasta e o transporte público de ida e de volta também. Sinto que estou perdendo tempo, sei lá. É estranho, meio que incômodo isso tudo. Quero ficar sozinho, mas não posso, não consigo. Quero companhia, mas não a tenho, não a encontro mesmo insistindo inconsequentemente. Sozinho na multidão? Eh, vai ver é isso mesmo. Preciso definir certas coisas, ser mais descarado, sem esquecer o respeito, claro, ser mais espontâneo, mais atraente, mais eloqüente, mais misterioso, mais sereno, mais e mais eu mesmo, mesmo não sabendo muito bem quem eu sou deveras. Preciso de planos. Preciso de um rumo! Careço de sonhos... Agradecido por me ouvir, meu velho, mais uma vez.