segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Agruras de um solteiro


Quando a Solidão me aborrece e a minha presença já não apetece a mim mesmo, evoco meus queridos mortos. Mas não é qualquer assombração, não, meu senhor leitor. As almas que clamo são almas despenadas, almas nuas para aplacar a minha desgraça, a minha sina maldita e carnívora. Assim, deitado no meu quarto úmido e frio, eu as chamo sussurrando, uma por uma em fila, quase um purgatórinho exclusivo do gênero feminino. E o Fantasma da Primeira Namorada surge, o da última transa também e os das conquistas dos fins-de-semanas passados aos bocados. A orgia é sinistra. No meu harém espectral, sou o sultão que remói estórias, mas na verdade, ou na dura realidade, sou mais um eunuco da Classe C. E nesse devaneio em que me enfio, definho feio horas a fio, até que Hypnos me reclame. Meus queridos mortos não me assombram nos meus sonhos, infelizmente. Não tenho sonhos nem pesadelos. Esses eu vejo quando estou bem acordado mesmo. Quando adormeço, após esse coito nulo, o que meu inconsciente me apresenta mais parece uma cegueira branca, só isso. Meu inconsciente me abandonou, somente a consciência - maldita! – cá floresce na cachola desolada, suja e mal-amada. E por ser consciente assim minha infelicidade é uma certeza, é uma constante irritante nesta vidinha ordinária, e assombrada, de solteiro.