sábado, 17 de setembro de 2011

Ciabatta matutina

Ela foi embora inesperadamente. Nem pelo almoço esperou, não deu tempo. Foi-se e foi chorando, ou tentando não chorar – tentou engolir as próprias lágrimas antes mesmo delas escorrerem. Ela estava irritada, decepcionada. E uma decepção muda tudo! Não sei para onde foi. Uma vez na rua outra pessoa se torna, transmuta-se. Quando retornou – surpresa! – ainda conseguia sorrir mesmo com aqueles enormes óculos escuros. E aquele seu perfume ainda era o mesmo. Por onde ela passava, ele sempre ficava pelo ar um bom tempo. Ficava impregnado na gente mesmo sem ela ter nos tocado. E isso era bom, muito bom. Não sei que perfume ou creme era, mas me lembrava ciabatta saidinha do forno. Coisa gostosa, aprazível e apreciável. Contudo, ficou pouco tempo, já estava de partida e desiludida. Dei-lhe um beijo casto na face e um forte e demorado abraço. Pude sentir a fragilidade daquele corpinho e a intensidade de sua essência. Ela foi embora, novamente, mas pra nunca mais voltar; de vez se foi. E o meu jaleco encardido ficou e ficará por um bom tempo. Sem receios. A eutanásia, dessa vez, me trouxe até a padaria.