segunda-feira, 5 de setembro de 2011

DOE A QUEM DOER

Num pequenino corpo feminino vemos a síntese de duas paixões passadas. Seu rostinho redondo lembra bem duas meninas já conhecidas. Uma foi paixão à distância, a primeira dita platônica, a outra foi paixonite, já mais próxima, mas só porque lembrava a primeira. Essas duas não se concretizaram, à vista ficaram. Quanto a este corpinho feminino de agora, não sabemos bem. Talvez seja obra do Dr. Frankenstein. Parece que essas paixões do passado foram fundidas, e quem está cá no presente é outra coisa indecente. Seja quem for seu autor ou criador, o trabalho foi bem feito. Não há cicatrizes. Porém, há uma certa bicoloração. O que é até compreensível, pois dois corpos foram unidos. É um trabalho de qualidade, não dá pra precisar a idade. E o frágil corpinho parece um pouco inchado; resultado natural da utilização de alguns membros dos cadáveres já mencionados. Sim, pois tudo ali usado estava morto, enterrado. A procedência até sabemos, mas não vimos, nem cobramos laudos técnicos. Não acionamos a perícia especializada em paixões passadas. Não achamos necessário. O que vemos é realmente algo único, incomum e estranho... Foi difícil encontrar uma coisa tão boa quanto esta que temos aqui conosco. Trabalhos assim são raros, muito raros. No entanto, não descobrimos ainda o que fazer exatamente com este corpo que nos foi inteiramente entregue e, por isso mesmo, não imaginamos sua utilidade prática ou possíveis satisfações empíricas. Realmente é um bom mistério. Talvez, se fosse mais magro, saberíamos melhor ou mais facilmente onde armazená-lo. Não temos experiência quanto a doações voluntárias inesperadas.