segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Bar Noir

Ele não tinha outros planos.

Era véspera de feriado e ele já tinha se decidido: iria sair. Já estava com um bar em mente. A Banda iria tocar lá.


E ele curtia A Banda. Eles tocavam um blues bacana, as letras eram diretas, sem frescura, e faziam rir, gritar; eram músicas para almas velhas dessossegadas.

Mas ele era jovem, só não tinha um par pra noite. Resolveu ir sozinho mesmo. Estava nessa fase agora. Não tendo companhia disponível, ia pra noite com ele mesmo.

Saiu de casa lá pras nove. Pegou a lotação. Pegou o metrô e fez duas baldeações. Cruzou a cidade rumo ao centro da cidade. Destino: Rua Augusta. Nessa rua ele se sentia bem, dava pra ver na cara dele. Caminhava pela calçada estreita e lotada de gente com um sorrisinho de satisfação nos lábios finos.

Eram dez e pouco, ainda estava cedo pra ir pro bar d’A Banda. Resolveu parar umas quadras antes, noutro bar.

E lá, de pé mesmo, decapitou uma, duas, três garrafas de cerveja. Estava matando o tempo e o seu fígado, lentamente. Aproveitou que estava ali, de boa, e tentou paquerar um pouco. Ficou um bom tempo de olho na mina de corselete preta do balcão, mas logo viu que não era correspondido. Ainda ficou olhando as gurias que passavam em pelo pela rua, mas também não teve sorte. Essas passavam acompanhadas ou distraidinhas com latinhas de cerveja na mão. Desistiu de flertar e matou o último americano numa virada só. Pagou e saiu pra rua.

Eram quase onze e meia, e A Banda sempre começava a tocar lá pras onze e meia. Chegou ao bar junto com A Banda. Entrou, deu o nome completo e pegou a comanda. Conseguiu um lugarzinho, nos fundos, e no balcão. Pediu uma cerveja. E ficou lá, bebendo, olhando seus colegas de bar daquela noite. Gostou da bartender. Uma loirinha branquinha dos olhos castanhos claros, bem claros, e alargadores discretos nas orelhas. Os olhos dela tinham um contorno negro bem feito e os lábios vermelho-sangue exigiam atenção. Devia ter a mesma faixa etária dele, uns vinte e poucos aparentava. Uma graça. Não a cantou por respeito ao seu trabalho, afinal, ele estava lá curtindo e ela estava trampando.

A Banda tocou seus sucessos, antigos e novos. O ambiente era pequeno, intimista. Gente ainda entrava, a casa estava enchendo. E ele lá tomando mais uma cerveja e secando o leitoso par de pernas ao seu lado. Algumas mulheres realmente não têm misericórdia.

A Banda mandava uma atrás da outra, tomavam whisky e detonavam. Viam-se pessoas dançando, umas timidamente, outras freneticamente. Era bonito de ver, e ouvir. Ele resolveu dançar também.

Balançava o corpo, a cabeça e tocava uma guitarra imaginária. Ou seria um baixo imaginário? Não dava pra saber direito, movimentos espasmódicos ele fazia. Era meio engraçado de ver. E já pegava outra cerveja com a loirinha.

O banheiro do bar era legal. Comunitário. Homens e mulheres lá entravam. Paquera e sexo, muito sexo, lá deve ter rolado, e ralado. Mas ele só fazia uso primário dele. Ele já estava tonto, meio alto, andava cambaleante entre as pessoas, mas continuava cantando as músicas d’A Banda. Viu um assento vago e se enterrou lá.

Ele provavelmente delirava, era visível, estava encarando fundo as almas dos outros e dedilhando as paredes de vidro ao redor. De lá sentado, chamou, com o dedinho indicador, uma loiraça que estava de pé no balcão.

E ela veio em sua direção, abaixou-se e lhe falou algo no ouvido. Não dava pra ouvir direito, A Banda continuava detonando alto, bem alto. Os dois sorriam um pro outro, trocavam confidências ou demências ao pé do ouvido.

A loira era do tipo muito atraente. Estava de bota preta, calça legging azul e regata preta bem justa ao seu corpo. Essa tinha a língua vermelha dos Stones estampada na frente, o que só sugeria o que deveria ser feito com aquele generoso par de seios alvos...

De repente, ela se levantou. E ele, sentado ainda, apertou, por trás, a coxa direita dela. Esfregou a cara na perna dela, e foi subindo, deslizando até a barriguinha seca da menina. Ela voltou a se abaixar. Cochichou algo em seu ouvido e tascou um beijo nele.

Na boca.

Levantou-se e foi dançar.

Ele continuou sentado, delirando. Foi ao banheiro. Pediu mais uma cerveja pra loirinha das orelhas alargadas. Dançou mais um pouco. E despencou mais uma vez numa das poltronas do fundão. Na do lado, havia uma mina.

Papearam um bocadinho sobre o show. E esta apresentou a amiga. Disse-lhe que era a primeira vez dela, da amiga, num show d’A Banda. Ele e a amiga da mina bateram um papo. A mina foi dançar. E, do nada, os dois recém-conhecidos começaram a se agarrar ali mesmo, sem vergonha ou preocupação.

Essa tal amiga era magrinha. Tinha uma boa cabeleira. Um castanho escuro até os ombros. Eram deliciosamente naturais.

Ele e ela se beijaram muito. Ambos agarravam a cabeça um do outro. Era selvagem a cena. Ele enfiou a mão esquerda entre as pernas dela. Ela a segurou, reteve-a, estava muito próxima da...

A mão direita dele apalpava a bunda dela. E que bunda! Rabinho lindo, e molhadinho de cerveja. Ela tinha sofrido um pequeno acidente. Não conseguia explica-lo direito. Os dois amantes do acaso ficaram se agarrando por um bom tempo. Era fascinante vê-los.

Ela acabou indo embora, sem o casaco. Este, ele usou como cobertor antes de ir embora também. Parecia uma criança no fim de festa dos adultos.

Ele foi embora sozinho, do mesmo jeito que havia chegado. Foi subindo a Augusta trôpego, mas atento. Estava amanhecendo e ainda havia muita gente na rua. Conseguiu chegar à estação do metrô sem ser atropelado nem ter esbarrado em alguém no mesmo estado etílico que ele. Estava cansado o menino. Deu várias pescadas durante o caminho de volta pra casa. E ainda perdeu o ponto de descida, desceu quatro pontos depois do seu.

Chegou em casa lá pras sete. Morava só. Foi se despindo até o quarto. Deixou uma trilha de roupas suadas pelo chão da casa. Diante da cama de solteiro, apenas de cueca, capotou de bruços.

E dormiu até sei lá que horas.

Era feriado.