terça-feira, 24 de abril de 2012

O reflexo da sombra

Hoje, vi o meu reflexo e não gostei. Não gostei das saliências bem ali visíveis. Não gostei dos exageros possíveis que ali eu permiti depositar. Também não gostei das marcas ali ocultas, não marcas da idade, sabe, essas são bem escrachadas, falo das marcas de intimidade, entende? Pois bem, dessas também me desagradou ver ali naquele meu reflexo, pois essas marcas são indícios, são provas de um crime físico. Um crime donde eu sou a única inocente. E inocentes há poucos por aí soltos; sou uma das últimas que ainda persiste, e não resiste à apaixonante perdição. Entreguei os sentidos ao carrasco, não disfarcei, nem deixei de decapitá-lo. Meu querido animal me entendia, sabia satisfazer a minha fome, sabia sapecar como ninguém. E ele refletia em mim aquilo que me agradava, aquilo que me fazia ser uma mulher melhor; eu era outra quando estava com ele, só com ele. Mas ele também exagerou. Não gosto do que eu estou vendo ali naquele reflexo. Não gosto daquela imagem. Não gosto daquilo que há ali e daquilo que vai ser. Ele, meu animal, não se deixa mais ver. Ele sabe bem o que me fez, sabe o que arranjou pra si. Ele teve ciência da mágoa, dos hematomas, da farsa e da criada. O animal não mais verei e a criatura não vou querer ver. Definitivamente não gosto daquele reflexo e das idéias que ele tem.