domingo, 24 de junho de 2012

A lua minguante

Tem dias que ao fim do dia concluímos que o dia não foi tão bom assim: o chefe deu uma bronca desnecessária ou negligenciou uma informação importante dada por você logo cedo; algum colega ou vários colegas de trabalho avacalharam o seu trabalho; um negou ajuda mesmo quando você a solicitou cordialmente e diretamente a ele... Tu sabes bem como é difícil quando o seu serviço depende de outros; qualquer trabalho em grupo, em rede é sujeito a essas chateações. E, sinceramente, todo chefe é um tremendo de um idiota, cê já sabe bem disso.

Além disso, voltar pra casa após um longo dia assim também pode ser um adendo a esse dia. Encarar o trânsito, andar apertado e suado no transporte público pode até ter virado rotina, mas poucos, como eu, não conseguem se acostumar a isso. Podemos até entender, mas aceitar não aceitamos; a nossa revolta não permite esse ato de covardia.

E quando saímos andando disso tudo, já na rua e em direção a nossa casa, podemos sim andar mais devagar, desanimados e exaustos. É direito nosso e consequência direta do péssimo dia que tivemos.

Mas quer saber de uma coisa? Você aceita uma singela sugestão?

Olhe para cima.

Está vendo a lua lá no céu? Mesmo minguante ela está sorrindo para você. Sério. Parece até aquele popular smile que conhecemos bem no mundo tecnológico de hoje, porém, sem aquela cor amarela de fome e os furinhos negros dos olhos.

A lua minguante sorri para você.

Só para você.

E aquele sorriso é solarmente sincero. Você pode até interpretá-lo de uma outra forma - também é um direito seu -, mas para mim, aquele sorriso, aquela demonstração celeste e solene de apreço é o fortificante e/ou a vitamina espiritual da qual eu estava carecendo. É ela que me faz continuar andando para casa, e é ela que me fará encarar o dia seguinte, e o seguinte, e o seguinte...

Nem tudo que mingua fenece.


E nisso eu acredito, pois ela, a lua, está comigo; hoje e sempre.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Meus vigias

Meu trabalho é complicado. Prefiro nem comentar sobre.

Contudo, umas coisas eu posso compartilhar com você. Mesmo você sendo suspeito.

Meu trabalho exige atenção, concentração máxima. Nunca, jamais eu posso se quer pensar em falhar. Meu trabalho é de extrema importância. E de caráter sigiloso, por isso não posso aqui dizer muita coisa.

Sim, ele é confidencial. Tão confidencial que há até vigias de olhos e ouvidos muito bem atentos por aqui. Explico: essa vigilância é necessária; ela espia, monitora tudo o que eu aqui faço ou deixo de fazer. Não! Peraí. Eu sempre faço tudo. Nunca deixo de fazer nada. É isso. Entendeu??

Certo.

Eu fico aqui praticamente o dia inteiro. Só saio quando eles decidem que eu posso sair. É assim: existem três tipos de luzes.

A vermelha significa que eu estou autorizado a deixar o meu ramal e beber um pouco d’água ou ir ao banheiro, por exemplo. Eles têm muitos sensores por aqui. Eles sabem melhor que eu quando eu realmente necessito de alguma coisa desse tipo.

A amarela significa que eu estou fazendo o meu trabalho lento demais e que eu preciso agilizar esse meu serviço imediatamente. Modéstia a parte, poucas vezes essa luz se acendeu para mim. Sempre faço direitinho o que eles me mandam.

A luz azul significa fim de expediente. Bem, quer dizer, quando ela surge é pra gente ficar sabendo que ele está próximo do fim. Às vezes ela pisca, só pra gente ter certeza que o trabalho do dia está quase no fim. Entretanto, só podemos deixar os nossos cubículos quando ela se apaga por inteiro.

Sim, como podes ver, há dezenas de colaboradores trabalhando aqui, neste andar. Acho que somos quase duzentos. Em cada cubículo que você vê há um colaborador apenas. Aqui há tanto homens quanto mulheres. Temos transgêneros também. Aqui só prezamos a realização eficaz do trabalho, outras coisas são outras coisas.

Espere.

Viu só? Os vigias estão de olho na gente... Calma. Estamos trabalhando, certo? Fique tranquilo. Reparou que eles fazem um barulhinho estranho quando direcionam seus olhos brilhantes para a gente??

Você reparou que quando um vigia foca, por exemplo, na gente, os outros o imitam? Já reparou que há vários nos observando com curiosidade??

Isso.

Continue olhando fixamente pro monitor LED.

Isso.

Continue focado nessa telinha brilhante e colorida. Não desvie os olhos! Jamais faça isso. Seus interesses agora estão todos aí, à sua frente.

Muito bem.

Continue olhando. Você está sendo observado. E não sorria, pois os nossos vigias, os pombos, não gostam de gracinhas.


...


Ah! Omiti uma informação importante. Há outra luz que rege cá o nosso sistema operacional. É a verde. Essa, dizem que quando acende é fim na certa. Já era.


Isso.


Muito bem.


Continue olhando fixamente pro monitor LED.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Cordeiro em pele de lobo

- Não, não. Tem coisas que a gente tem de modificar. Ficar, prender-se só a uma ideia não dá mais pé. Hoje, o mundo é diferente. Hoje, há no mundo certas coisas que temos que aceitar. Temos sim que ser mais tolerantes; temos sim que exercer mais a nossa cidadania e a nossa empatia. Não dá, não rola mais certos preceitos, certos conceitos e preconceitos. O mundo parece perdido? Que nada! É a gente que não se encontra. Perdido é a gente mesmo que tá. Tolerância não é coisa inata, é coisa empírica, coisa que se aprende e se desenvolve. Enfim, é coisa relevante e preciosa hoje em dia - poucos são realmente assim. E se ainda assim nos surpreendemos com o que vemos aí afora, falando pra ti com sinceridade, tá bom demais pra mim! Parece incômodo, meio estranho, mas é curiosamente interessante nos abdicarmos de nossas certezas. Quer um exemplo? Pois bem: Parada Gay!! Não ria. É sério. Domingo agora rolou a danada. E, cara, foi demais. E digo-lhe isso mesmo não tendo ido. O que foi demais foram as gurias que vi soltinhas e assanhadinhas por aí. Vi cada broto tentador... Parece até que as mulheres se soltam mais quando rola esse tipo de manifestação em prol da liberdade, do respeito e do progresso. Coisa linda demais! Contudo, estou fugindo do exemplo que lhe prometi. Bem, lá estava eu numa lotação a caminho da biblioteca. Eh, cê sabe bem, eu frequento biblioteca aos domingos. E da janelinha da lotação vi a meliante: loira danada de boa. Trajava um vestidinho de oncinha ou leopardo (desconheço a diferença); um cinto daqueles grandões que estão usando agora pra marcar bem a cinturinha; uma calça legging preta e botas de cano alto. Figurinha maravilhosa. No frio algumas mulheres capricham mais na indumentária, né não? Pois então, deduzi, ao vê-la, que ela estava toda montada pra curtir, pra soltar de vez a franga lá na Parada Gay. Meu amigo, aí é que nossas certezas caem por terra. Pré-conceito é realmente algo detestável. Véio, né que ela entrou numa igreja?!? Sério... A tipa adentrou a casa de deus e não o templo da perdição. Fiquei assim mesmo, que nem tu, admirado, olhos esbugalhados e com um sorrisinho sacana nos lábios. Tá vendo? Mesmo assim, é algo bacana de se saber, né verdade? Vivemos em outros tempos; vivemos em outros mundos. Não é estranho que queiram acabar com eles??

terça-feira, 5 de junho de 2012

Não era meu

Eu o via, pelo menos, umas duas vezes por semana; às vezes três, às vezes quatro, quando eu tinha sorte. Tínhamos um relacionamento amigável; enchia ele de carinhos e beijinhos. Era gostoso agradá-lo. Mais gostoso ainda era provocá-lo; eu dava-lhe umas lambidinhas e umas mordidinhas sempre quando me dava vontade. Ele não curtia, óbvio, mas era uma brincadeirinha saudável, típica da intimidade. Ele ficava meio chateado, meio retraído com isso, mas depois relaxava, ficava de boa. Ele era uma graça, bonitinho mesmo. Por mais que ele fosse assim sossegado e um pouquinho desconfiado, o que era bem justificável, pois admito sim que minhas traquinagens tinham um objetivo sacana. Sacanagem sempre é bom. Dependendo, claro, das intenções e, as minhas intenções, veja bem, eram as melhores possíveis: queria preenchê-lo. Eu queria invadi-lo sem dó nem piedade, eu estava super afim de arrombá-lo pra valer. Não que isso seja ruim, funesto ou indecente. Não. Isso é só mais uma forma de satisfazê-lo, de contribuir honestamente para sua felicidade. Ele era meu. Ou eu me iludia tolamente pensando que era. Tive oportunidades concretas para realizar essas atrevidas, mas boas intenções, só que sem proteção não rolava, mesmo insistindo contra mim mesmo. Assim, passou semanas, passou meses e o que era lindo se acabou. Ele hoje me evita. Não o vejo já faz um bom tempo. Não sei como ele anda ou como ele está ou com quem está. Eh, definitivamente, ele não era meu. Aquele cuzinho nunca foi meu afinal.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Juno

Ela veio a mim
grafitada em pelo
e sem cabelo

pediu um misto-quente
e um cappuccino pequeno

olhou pouco para os lados
enquanto aguardava
preferiu se curvar sobre seu celular
parecia não sonhar
queria apenas ali se alimentar
ou se enganar
usava um shortinho preto
e uma regatinha branca que deixava ver mamilos

cílios postiços
boca trêmula
e olhar vazio...

olhei-a de soslaio
não sou gaiato
ou um puta d’um tarado
apenas apreciei a pequena do meu lado

carequinha
sem calcinha
e aviamentos

apenas uma transeunte
ou mais uma amante
de quem nem sei o nome.