quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ainda remoendo coisas numa manhã fria de inverno

Pensava eu nas coisas feitas
Feitas de improviso
ou sem aviso prévio

Pensava eu nas coisas da carne
nas costelinhas dedilhadas
nas coxas apalpadas –
sobrecoxas degustadas –
no beiço de boi mordido e
nos coraçõezinhos de galinha fritos!!

Pensava eu na mandioca
na piroca dolorida
na macaxeira mexida e remexida
no aipim mordido e mordiscado
no troço felpudo abusado
no pilão em que ele foi socado –
pobre coitado!

Pensava eu nos temperos misturados
no sal exagerado
no açúcar delicado, refinado
na pimenta malagueta salpicada na pica fresca do diabo
no quento de puteiro
no manjericão do rabo e
na noz moscada ralada
sobre os lábios inchados...

Pensava eu no calor da receita

Pensava eu em como fazíamos tudo juntos
no trabalho árduo compartilhado
na bagunça leguminosa arrumada
no prazer em provar teu prato
na cozinha mesmo, de vez em quando,
ou na sala, de quatro,
de lado
no sofá e
sobre a mesa de estar
Esta posta e
resistente ao nosso desvairado desejo
por um outro ingrediente, mais fresco
e indecente

Pensava eu antes
Penso eu agora
tomando um chá preto,
ouvindo um blues taciturno
Sozinho
no escuro.