sábado, 27 de outubro de 2012

SSMS (78)

Minha mãe diria que você daria uma boa nora. Meu pai discutiria tua doutrina na cara dura. Sem usura minha vó ti aceitaria numa boa. Minha rola já fez sua escolha. Cabe a mim obedecê-la, então aceito tua buceta como única e derradeira companheira!!

Nego Santo Antônio

Ao
Jaderson, 
colega do trampo e amigo


O Nego Santo Antônio (Foto: Bruno Oliveira)



Para as desesperadas presentes que almejam se casar, tenho uma boa-nova digna de nota: o Nego Santo Antônio existe! Ele, diferente daquele pequenino de madeira entalhada, que fica geralmente afogado de cabeça para baixo, consegue matrimônio em menos de um ano; é fato. E, para que o fato de fato seja definitivamente consumado, não é necessário interpelá-lo ou castigá-lo, basta encostar nele; tocá-lo mesmo, sem receio ou afetação. Com o Nego Santo Antônio é assim: encostou, casou. Para você que não me acredita, mencionarei coisinhas sobre sua vida peregrina. Nego Santo Antônio é pai. Tem dois filhos o digníssimo. O primeiro foi um menino, rechonchudinha criatura. O segundo foi menina, espevitada que só vendo. Porém, curiosamente, essa é mais velha que aquele. E como se explica esse atentado à lógica do tempo? Bem, digo apenas que o Nego Santo Antônio é arteiro, artilheiro dos bons ele é; sempre mete um gol nos jogos carnais dos quais participa – fértil goleador esse devoto. Este Nego Santo Antônio não tem relações com peixes, mas as sereias o ouvem bem. Nego Santo Antônio é rei dos xavecos; entretêm e diverte nos botecos da cidade sem o menor alarde. Pode não ser lá tão eloquente aparentemente, mas carisma ele tem de sobra, isso lá ele tem mesmo. Este meu santo, que vos apresento, não carrega Menino Jesus junto ao peito esquerdo; não carrega livro ou cruz de baixo do braço, nem ramo de açucena como referência, mas traz consigo a humildade no coração; ele é palhaço da turma por vocação, e entrega a ti, sempre que lhe convier, uma rosa branca, umazinha apenas – pura demonstração de inocência! Cidade alguma o tem como padroeiro, mas isso é questão de tempo e dar-se-á um jeito. Pegue aqui o seu santinho do Nego Santo Antônio! E por favor, minha gente, não o jogue na rua displicente, pois santinho em grande quantidade mata; mata muita gente de vergonha e desgraça. Venham! Venham todo mundo que quer casar num minuto!! Encostem nele e, num segundo, o sonho casamenteiro é certeiro. Se no próximo Carnaval tu te divorciarás, no Natal casada já estarás. Não é enganação ou promoção de fachada, é a graça de graça do Nego Santo Antônio. Você que está aí encalhada, que é zica do pântano, coisa mui ruim, se não me engano, saia dessa neste instante. Nego Santo Antônio se garante. Vocês ouvirão por aí que ele é corno. Mas, vocês estão ligados, nem santo novo e forte tem a sorte de fugir desse quebranto. Mesmo assim, Nego Santo Antônio é um encanto, que canta as mazelas da vida numa boa – desafinado sim, canta mal pra caralho esse aí, mas ultrapassa o esperado, você sempre se surpreende com o danado, podes crer. De casório marcado ele já está, mas disso eu não vou comentar porra nenhuma, a vá!!!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

SSMS (77)

E lá se vai mais uma semana, e você nenhum telegrama. Mensagem alguma recebi, e assim me perdi em atacado. De bom-grado me ressenti, mas insisto em ti ter aqui!!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

carência sua, minha Solidão

De boa na lagoa... (photo by: @cutewildbaby / @havenearth)


estava eu à toa
de boa
na lagoa
de papo pro ar eu estava
quando a descarada apareceu
apareceu assim do nada
não me pediu licença coisa nenhuma
e foi logo entrando
no meu isolamento,
nadando ao meu encontro
visita indesejada era ela
ela era a carência se apresentando,
invadindo a Solidão do eremita aqui
aqui fiquei perplexo:

carência não se faz presente, é falta
Solidão sim é aquilo que a gente sente, é presença
carência é ausência
Solidão é presente
carência é passado, passa
carência vêm em doses homeopáticas
Solidão é superdosagem,
e mata,
se você não tiver cuidado
carência é que nem cárie, dói, incomoda,
pois descuidado foi outrora,
quem sente carência agora
carência sente quem deixa da amar
Solidão é que nem a imensidão do mar,
é azul,
é profundo
e escuro,
quem sabe mui bem disso é Epicuro

essa carência que vejo se aproximar,
escorre pobre e sinuosa,
nada gostosa
até a minha Solidão eminente
Solidão é constante, permanente
é um estado latente, entende?
Solidão fica em Pernambuco - 
carência em estado bruto!
quem nasce em Solidão,
como eu,
é solidãoense,
quem nasce sem afeto,
na privação,
é carente

assim, querida amiga,
quando tua carência se revelou
só me mostrou
o quão solitário agora eu sou

metafísica alguma me adianta se
o sapo-rei aqui não tem
perereca nenhuma pra sorver
ou ao menos uma mosquinha sequer
pra belisquete
a carência profanou a minha quitinete
meu reino por uma periguete!!!


Nota:

O germe do poema acima veio de um bate-papo despretensioso com minha amiga Bruna Rafaella, por isso este poema é para ela.

Toma um aí pra você, sua doida!!

domingo, 14 de outubro de 2012

o amor: outro causo

do quem não ama a pessoa
do quem vos ama
do quem não amachuca
do quem não amais a pessoa
do quem não é amada
do quem não ama a pessoa
do quem não ama a pessoa
do quem não ama a pessoa
do quem nãodemais pessoa
e
essa pessoa
essa pessoaaquém
magoada
fica -
mácula desamada
- mais uma
desgraça

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Poetando

- Na verdade, não sei bem ainda o que é um poeta, o que é SER um poeta. Não sei se é profissão ou um bico de verão. Sei apenas que cada poeta canta sua própria voz, e quando essa sua voz única ressoa na gente, pobres mortais, é sinal de que o poeta alcançou o universal. Vai ver poeta é meio filósofo. Se esse ama o saber, aquele não só ama a mesma musa como apela pro sentimental. Mas não falo aqui de joguetes de caráter emotivo, falo daquilo mesmo que a gente sente a flor da pele ou aparentemente, entende? Entretanto, ser poeta também é ser meio picareta. Nem sempre o que ele canta é aquilo mesmo que a gente ouve. Poeta é fingidor, finge até a dor que deveras sente, como já muito bem disseram. Poeta também pode ser trambiqueiro. Ele pode nos dar algo que não é verdadeiro. Nem sempre o que ele sente é realmente o que ele sente. Aliás, hoje em dia, os poetas bancam os dissimulados. Nem sempre fica claro o que eles estão entoando. A arte de poetar ficou oculta, praticamente restrita a um determinado grupo. E esse grupo é quem consome esse tipo de poesia. Se hoje o verso é livre ou metrificado, quem o lê é abastado. Tá certo, o poema de antigamente, dos tempos áureos, era cultivo de cidadãos, não era cultura pra qualquer um, não. E o que lemos atualmente é corrente desse pensar. E desse pensar eu não concordo. Poesia, pra mim, tem que ter uma pegada popular. Poeta que usa é abusa de vocábulos rebuscados, extravagantes ou específicos demais, mais encuca do que educa. Tá certo, poeta que preza o conhecimento insere preciosismos no poema esquelético. Claro, assim, quem sabe, quem o lê fica curioso e procura o ditoso num dicionário próximo. Mas, às vezes, meu caro, isso não acontece, não rola, e o leitor frustrado, meio amuado, chateado pra valer, põe de lado o poema segregado. Poesia, pra mim, tem que libertar! E não só quem a escreve, mas quem a lê também. Certo, aí estaremos entrando em assuntos de ordem sócio-econômica. Mas o popular é área fértil, área transitável por muitos intelectos. Taí um caminho essencial pra poesia atual. Mas aí, tu dirás que estou me contradizendo. Ora, meu querido, se o poeta canta a sua própria voz, quem és tu pra palpitar na voz alheia? Direi apenas, meu camarada, que a individualidade aqui não deve ser almejada, mas sim a nata, mesmo desgastada ou reajustada, deve ser conquistada. A poesia salva! E o poema feito é oração, às vezes imaginado, às vezes do coração. O poeta é apenas um instrumento do divino, e o divino pode ser do fogo ou do fogão. Não importa o credo, mas o crédito é bem-vindo! Poesia não dá dinheiro, a gente tá ligado, mas enriquece quem a lê, produz e canta aí mundo afora, isso é fato! O poeta brinca com o óbvio, e é desse óbvio que ele se alimenta, mas ele vai além, do óbvio, e alcança o inimaginável, o imagético, o suprassumo da ideia. Assim, o poeta, vira gênio ou mais um atrevido bancando o engraçadinho. E isso não lhe tira o mérito, pois poeta é ousado, quebra a perna, se necessário for, mas não perde a inspiração fugaz. Poeta é párea da sociedade. Mas ele não liga. A poesia o consola. Amém!!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O último dia de setembro

No último dia de setembro,
se bem me lembro,
não teve chuva
nem insolação.

No último dia de setembro,
encontrei um par de olhos verdes na Consolação.

Num bar noir eles me avistaram:
eu estava dançando, assim meio quebrado
não era break ou algo empalhado.
Era o meu corpo mesmo, desengonçado,
mas nada envergonhado.
Corado sim –
eu estava meio alterado...
Enfim, era realmente engraçado
de se ver.
O par de olhos verdes me viu,
sorriu
e chegou junto.
Todo delicado –
estava igualmente chapado.
Não me paquerou descaradamente,
mas puxou papo
e eu, puxei-o pro meu lado.
Conversávamos coisas
sem pé
nem cabeça
ao pé
do ouvido.
O barulho do recinto
era o nosso melhor aliado.
O par de olhos verdes se sentiu ameaçado,
quando eu o encarei – despudoradamente –
com minhas sinceras e maliciosas intenções,
ali refletidas no meu par de olhos castanhos reluzentes.

No último dia de setembro,
se bem me alembro,
línguas atrozes foram conquistadas,
saliva fresca foi, finalmente, comercializada
e o embargo, de muitos meses atrás,
foi anulado,
descabido e
reajustado
quando os pares se fecharam
em comum acordo acordado.
Mas sem medidas de austeridade –
os dois já tinham idade.

No último dia de setembro,
ambos saíram satisfeitos,
mesmo com os limites impostos
e importados.
A aliança, mesmo provisória,
foi um sucesso inesperado.
E quando a cúpula se findou,
durante o ato democrático,
já era amanhecer...
E nesse céu bem claro,
a ressaca não foi suficiente
pra esquecer aquele par
de olhos verdes:
outrora presente,
agora ausente,
no último dia de setembro.