sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Poetando

- Na verdade, não sei bem ainda o que é um poeta, o que é SER um poeta. Não sei se é profissão ou um bico de verão. Sei apenas que cada poeta canta sua própria voz, e quando essa sua voz única ressoa na gente, pobres mortais, é sinal de que o poeta alcançou o universal. Vai ver poeta é meio filósofo. Se esse ama o saber, aquele não só ama a mesma musa como apela pro sentimental. Mas não falo aqui de joguetes de caráter emotivo, falo daquilo mesmo que a gente sente a flor da pele ou aparentemente, entende? Entretanto, ser poeta também é ser meio picareta. Nem sempre o que ele canta é aquilo mesmo que a gente ouve. Poeta é fingidor, finge até a dor que deveras sente, como já muito bem disseram. Poeta também pode ser trambiqueiro. Ele pode nos dar algo que não é verdadeiro. Nem sempre o que ele sente é realmente o que ele sente. Aliás, hoje em dia, os poetas bancam os dissimulados. Nem sempre fica claro o que eles estão entoando. A arte de poetar ficou oculta, praticamente restrita a um determinado grupo. E esse grupo é quem consome esse tipo de poesia. Se hoje o verso é livre ou metrificado, quem o lê é abastado. Tá certo, o poema de antigamente, dos tempos áureos, era cultivo de cidadãos, não era cultura pra qualquer um, não. E o que lemos atualmente é corrente desse pensar. E desse pensar eu não concordo. Poesia, pra mim, tem que ter uma pegada popular. Poeta que usa é abusa de vocábulos rebuscados, extravagantes ou específicos demais, mais encuca do que educa. Tá certo, poeta que preza o conhecimento insere preciosismos no poema esquelético. Claro, assim, quem sabe, quem o lê fica curioso e procura o ditoso num dicionário próximo. Mas, às vezes, meu caro, isso não acontece, não rola, e o leitor frustrado, meio amuado, chateado pra valer, põe de lado o poema segregado. Poesia, pra mim, tem que libertar! E não só quem a escreve, mas quem a lê também. Certo, aí estaremos entrando em assuntos de ordem sócio-econômica. Mas o popular é área fértil, área transitável por muitos intelectos. Taí um caminho essencial pra poesia atual. Mas aí, tu dirás que estou me contradizendo. Ora, meu querido, se o poeta canta a sua própria voz, quem és tu pra palpitar na voz alheia? Direi apenas, meu camarada, que a individualidade aqui não deve ser almejada, mas sim a nata, mesmo desgastada ou reajustada, deve ser conquistada. A poesia salva! E o poema feito é oração, às vezes imaginado, às vezes do coração. O poeta é apenas um instrumento do divino, e o divino pode ser do fogo ou do fogão. Não importa o credo, mas o crédito é bem-vindo! Poesia não dá dinheiro, a gente tá ligado, mas enriquece quem a lê, produz e canta aí mundo afora, isso é fato! O poeta brinca com o óbvio, e é desse óbvio que ele se alimenta, mas ele vai além, do óbvio, e alcança o inimaginável, o imagético, o suprassumo da ideia. Assim, o poeta, vira gênio ou mais um atrevido bancando o engraçadinho. E isso não lhe tira o mérito, pois poeta é ousado, quebra a perna, se necessário for, mas não perde a inspiração fugaz. Poeta é párea da sociedade. Mas ele não liga. A poesia o consola. Amém!!