terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Status: inexistente

Pensar é surpreendente, principalmente se você alimenta, constantemente, esse hábito. Mas pensar, também, pode ser inconveniente, incômodo mesmo, dependendo daquilo que você pensou.

Por exemplo: às vezes me pego pensando em como minha simples existência não encaixa na vida que levo, ou carrego. Intuo que por existir aqui e agora acabo não agradando aquelas pessoas que me rondam. Parece que, por existir, essa minha presença física é algo desagradável a quem a presencia.

Para ser mais preciso quanto ao que estou tentando discutir aqui, assim, o negócio é o seguinte: não sou normal. Quer dizer, não sou um brasileiro típico. Não curto futebol, não curto telenovela e não tenho interesse pelas desgraças alheias – fofocas não me agradam. Digo isso porque o interesse da maioria dos concidadãos, donde vivo, versa sobre essas coisas. Por isso, quando me apresento logo com um assunto diferente, meus compatriotas me olham torto. Vai ver me acham um doido, sei lá, ou um puta dum chato, vai saber...

O fato é: sinto-me deslocado. Como se a vida que levo não fosse minha. Como se a vida que tenho, que é minha, foi de outro que me deu sem eu poder escolher. A gente realmente escolhe a vida que tem?

Esse papo me lembra do pouco que sei sobre Jesus Cristo. Não sei lá muita coisa, reafirmo. Porém, o pouco que sei, talvez, me ajude como exemplo. Ah! E já vou dizendo, sou ateu (como se isso fosse importante...).

Jesus não foi concebido, foi encarnado, no sentido de encarnar mesmo, tornado carne. Seu pai, mesmo onipresente, não se demonstrou presente fisicamente para ele. Deus é um pai ausente. Como o meu é (talvez isso sim seja importante...). E, mesmo que ele, Jesus, tenha seguido fielmente os preceitos desse pai distante, ele só foi junto dele na morte. Talvez, quando eu falecer, encontre o meu verdadeiro pai, ou outra coisa... Está lá, no meu registro de nascimento, mãe, fulana de tal, pai, inexistente.

Se Jesus, mesmo conhecendo seu destino, afinal, tinha lá suas relações com o divino, escolheu a vida que teve, e até a morte que acabou tendo, como eu devo proceder já que fui contemplado com a dádiva da vida? O que isso significa??

Certo, tu dirás, me falta um propósito, um objetivo; falta-me um algo pra me apegar de vez e não desagarrar jamais! Pergunto: mas isso é obrigatório? Isso faz parte do pacote ou eu posso combinar de outra forma isso aí??

Se eu estou vendo o incômodo que minha simples existência desencadeia, devo eu mesmo dá-la por encerrado? Papo estranho esse aí... Suicídio não combina com quem é vivo. Certo. Devo eu então eliminar os incomodados? Esse papo aí já é mais sinistro... Matar também não combina com os seres vivos. Quer dizer, minha existência não depende da morte de outro humanoide; não é questão de instinto de sobrevivência, é de simples convivência mesmo. E isso é igualmente complexo.

Se o incômodo que vejo nos outros é o fato de eu estar aqui, presente neste mundo, devo então agradá-los de alguma forma? Tipo: demonstrar interesse pelas coisas que esses curtem? Hum... Sei não. Aí estarei indo contra a mim mesmo. E mim mesmo não é lá tão amigável com quem deixa de ser a si mesmo pra satisfazer outrem.

Conviver é foda!

Conviver com as diferenças é difícil, mas possível quando se tem respeito, tolerância e discernimento. E eu tenho isso tudo! O problema é que os outros não têm. O que fazer então? Ignorar? Não se preocupar tanto? Difícil. A vida que há em mim clama por mais vida que vem dos demais.

Vai ver estou ruminando bobagens. Dirão: viva a sua vida e que se dane o resto; não se importe com que os outros pensam de ti, se é que pensam alguma coisa; a vida é sua, ora, não deles! Aí direi: certo, certo, está bem, mas a vida que tenho não me satisfaz; a vida dos demais também não me agrada em nada.

Vai ver a vida vivida é um nada perpétuo que se perde no além; é um arquivo inexistente depois da busca implacável no inconsciente...

Ah! Não adianta, eu não consigo!! Penso que se eu não estiver vivo, um aqui e agora inexistente, os outros seriam mais felizes, até mesmo eu.

Pensar coisas assim realmente (me) incomoda.