sexta-feira, 15 de março de 2013

Recordações do Jovem Alzheimer


Ainda me lembro daquele tempo...

Um tempo onde o próprio tempo deixou de passar.

Eu ainda me lembro daquele lugar.

Um lugar distante, alto e revigorante – paragens etéreas subindo a serra.

Para se achegar lá, só de carro, ou de qualquer veículo aí motorizado. De a pé até dá, mas poucos são os valentes de pés calosos que fazem tamanho esforço. De bicicleta dá sim pra subir, mas quem aí se aventura nas inúmeras curvas que se apresentarão pra si??

Quem for verá a pista de asfalto negro posta recentemente.

Quem for verá, logo à direita de quem sobe, o caminho de terra em tons rochosos (não calculo os séculos que ele há de ter). É por esse caminho que adentramos no vilarejo. É um caminho de solavancos, tremedeiras, equilíbrio aqui é fundamental, mas a vista é certeira e compensa o terreno desigual! Vislumbramos a cidadela bem lá em baixo, num buraco, lembrando uma célula num microscópio, mas bem mais assustadora.

Neste caminho de tons terrosos, de manhãzinha, é cheio de alunos sonolentos uniformizados indo para a escola próxima, esses vão e se deixam ver a pé; os que vão de ônibus ou outro veículo de gente, aguardam sentados e juntinhos em pequenos grupinhos, na pracinha central, até que este passe e os carreguem até a escola distante, que fica no meio da cidade de baixo, horizontalizante.

Todos, porém, só retornam à tarde, à tardinha, e nesse ínterim, neste lugar, há pouca coisa pra se ver.

As bodegas ficam abertas até certo horário. Na hora do almoço fecham, e seus proprietários só voltam a abri-las depois que a quentinha se esfriou no bucho inchado.

Aqui, criança pequenina há. Mas poucas, muito poucas, arriscam a pele a brincar debaixo deste sol de lascar.

Se não vos disse antes, digo agorinha mesmo, aqui o sol castiga, queima de doer, mas acima da serra o clima suaviza, torna-se mais ameno e fresquinho, pois cá em cima há muito verde em volta, a brisa aqui é visita constante.

E ela é dessas visitas que chega e vai ficando, demorando-se um bocadinho; às vezes é bem rapidinho, tira mó prosa e vai se embora, de mansinho, satisfeita e sorridente, essa indecente...

Aliás, todos por aqui se conhecem.

Fulana que é filha de beltrana prima de cicrana é muito conhecida!

Fulaninho irmão de tal que é neto do tal-tal passou por aqui ontem mesmo pela manhã.

Aqui, neste lugar, as pessoas são bem-vindas.

Se você der as caras por aqui no finzinho da tarde, verá os vizinhos papeando livres, leves e soltos à porta de casa. Uns sentam na calçada mesmo, outros ficam de pé, encostados no portão; têm outros que preferem plantar cadeira, uma ao lado da outra, na varanda de casa ou bem em frente desta, na calçada mesmo. Fazem isso enquanto aguardam os filhos, os que não trabalham fora.

O assunto dos papos é variado; planos, desilusões e frustrações entram em pauta com frequência, mas é dos outros vizinhos, ou dos parentes próximos, que as línguas e ouvidos torcem e quebram com mais eloquência.

Mesmo assim, esse lugar, não deixa de ser aprazível.

Ainda me lembro dos sorvetes de tapioca sorvidos nesses finzinhos de tarde acalorados, lembro-me dos pedacinhos de goma em cada bola branca sobre a casquinha crocante e moreninha desta típica sobremesa. Ainda me lembro da bruaca feita na folha de bananeira e do gosto marcante, simples e bom, que só ela tem. Lembro dos pãezinhos franceses, que lá são chamados de carioquinha, ainda quentes com manteiga derretida no seu miolo ralo e quase oco... Essas coisas eram degustadas logo de manhã ou no lanche da tarde, jantar comida isso lá a gente não fazia.

Ah! Lembro-me ainda das menininhas tímidas, mas curiosas da presença masculina em terra invadida. Eu me lembro dos olhares maliciosos, dos sorrisinhos sapecas e dos segredos compartilhados num ouvido de conchinha...

Eu me lembro da noite em que a Igreja do Cristo-Rei estava em festa!

Eu me lembro que fui forçado a pôr a minha melhor roupa, pois na Igreja de Cristo, e Ele sendo Rei, não se aceita visitas desleixadas de bermudão e chinelo nem ao pé de sua alta morada, atapetada por íngremes e traiçoeiros paralelepípedos.

Eu me lembro da missa, das oferendas; eu me lembro do puxão de orelha!

Padre também dá bronca. Padre dá toquinhos, umas cutucadas, mas logo em seguida afaga o coração nosso de sinceros criminosos.

Eu me alembro dos festejos logo despois. Eu me alembro do leilão de quitutes e de arroz!!

Lembro-me das danças na pracinha anexa e das meninas lá vistas. Eu me recordo muito bem dos braços nus avistados, das perninhas finas de amostra, das coxas grossas e dos rebolados generosos...

Ah!

Eu me lembro de tanta coisa ainda...

Ai, que saudades qu’eu sinto dessas coisas todas qu’eu nunca tive.