quarta-feira, 12 de março de 2014

Agruras de um idiota (1)

Desde de sempre não ando bem, ando mal. Minha vida inteira daria uma única página, se eu, ou outro idiota, se metesse a escrever biografia. O caso é: ando torto. E não é por causa dos meus pés tortos de nascença. Não é bem isso. É que ando me corrompendo, corrompido. Sou homem e, todo homem, sofre de baixa autoestima – coisa essa bem natural nesses tempos de cão. Não me dou bem comigo mesmo. Odeio me ver todos os dias no espelho. Eu sempre vejo aquele cara com aquela cara! Coisa odiosa essa. Pode acreditar. Aquele reflexo me dá nojo, asco mesmo. Ele é bem diferente do que se vê por aí ultimamente. Não é limpinho, bronzeadinho; é sujo, feio de doer. Aquela barda desgrenhada, aquelas espinhas esmagadas, aquelas cicatrizes deformosas afastam qualquer um aí à vista. Porém, não é só da imagem - que vejo todo o dia - que eu sinto aversão, não, as atitudes por mim executadas também me deixam enfezado comigo mesmo. Eu sou chato. Eu sou o famoso filho-da-puta do bairro, do trampo e de outros lugares aí por mim frequentados. Trampo num emprego medíocre, ganho míseros três salários mínimos, que não acompanham a inflação mensal do mercado dito financeiro. Moro sozinho num cubículo sujo, escuro e frio. Não tenho amigos. Tenho hemorroidas, gangrena e hematomas pelo corpo todo; não sou o que chamam aí de gostoso; sou um fodido, fodidão. Sou aquele cara que não se encaixa em nenhum lugar, nem mesmo na sarjeta do bairro mais pobre da cidade, tampouco na cobertura vigiada dum apartamento de luxo. Sou pária. Sou podre. Sou um idiota aí qualquer. Não tenho ambição. Me contento com o pouco que eu consigo pra sobreviver neste mundo cão, violento e de culto às aparências. Não tenho sonhos; desisto vagabundentemente dos poucos projetos aí por mim iniciados, nunca terminados. Não trabalho na minha área, trampo na zona; zona portuária que não dá em lugar algum nem nada. Não tô na rede; eu tô por um triz. Não sou desses caras que fazem propaganda do próprio corpo. Não compartilho a felicidade qualquer e raquítica que tenho durante os dias anti-suicidas. Eu não sou homem de sorrir. Aliás, nem me lembro da última vez que isso se manifestou no meu rosto detonado. Sou um homem amargo, desgostoso. Sou tipo aquele peixe bobo e idiota que insiste em nadar contra a corrente incessante. Sim, sou aquele peixe que tromba constantemente com outros peixes, com outras coisas, na contramão; sou aquele trouxa que se machuca, se fere, se esfola todo pra desovar sua prole em águas mais brandas, límpidas e etéreas... pra enfim fenecer em paz.