quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Rua Augusta à Noite

Não conheço rua igual a esta que lhe vou apresentar.

Esta rua tem personalidade, mas se modifica por inteiro quando o sol se despede da gente em sinal de solidariedade.

À noite ela é outra rua, outro mundo, diversos universos, todos juntos, em choque, num embate, um verdadeiro caos que dá gosto ver, ao menos pra mim, é claro.

A Rua Augusta à noite é muito diferente daquela de manhã, a essa eu mesmo já dediquei aqui outro post, mas essa outra, a de noite, é coisa bem diferenciada.

À noite ela dá lugar aos baladeiros de plantão, aos festeiros de coração. Aqui, sim, há muito amor, por favor, mas é mais o desejo que se vê explícito a cada esquina que você desce em direção ao centro. O desejo que se vê, cê sabe bem, não é inteiramente pelos corpos que você vê lá expostos. Não, paixão. O desejo visto é pelo dinheiro vivo ou, em muitos casos do acaso, pelo crédito à vista debitado.

A noite na Augusta não é pra qualquer um, não. Lá, só os mais fortes sobrevivem, só os que têm garra, e estômago firme, batem perna, coxa e copo nos vários bares e casas noturnas lá expostos. Sim, meu amigo, expostos. Tudo lá é para se ver, se mostrar, você não necessariamente os entende, mas os curte, os aprecia e vai s’embora.

A rua é atraente, estimulante, excitante, mas também nociva, perigosa, suicida. E isso não tem nada a ver com as putas, com os travestis, com os gays e coisas do tipo convencionalmente rotuladas de “ralé”, “submundanos”, não.

Meu amigo, a rua ganha essa máscara porque justamente ela dificilmente dá as caras. Explico: o babaca aqui, por meio deste texto, tenta dar uma imagem definitiva à rua que ele vê todos os dias, mas essa empreitada é impossível!

Mesmo que a rua, à noite, é lotada de gente do tipo moderninha, descolada, roqueira, baladeira e depravada, a rua em si sempre nos surpreende. Não há nela rotina, cantina ou ciranda-cirandinha. Ela é fixa e constante; ela é uma mutação bizarra, bizantina, lúdica e promiscua a cada dia em citadina.

Já disse e repito: aqui tem de tudo e mais um pouco. A fauna e a flora locais só perdem pra Amazônia em número de bichos-grilos e flores angelicais. Ela não é um escopo, talvez nunca venha a ser, ela é um corpo ambulante que cresce, encolhe a cada instante – ela é algo assim pulsante, sabe? Instável, imprevisível...

Você quer beber e ficar apenas de boa? Ótimo! Pode vir. Quer farrear, curtir a vida adoidado? Chega junto e sem frescura! Você quer relaxar, comer um bom prato? Só aparecer. Quer cheirar, fumar, trepar e gozar gostoso? Dêmoro, só não se esqueça de me convidar, beleza?

A rua é de todos e de todo mundo, por isso, antes de adentrá-la, não se esqueça disso tudo aí dito e, mais uma dica: leve dinheiro trocado, isso às vezes é muito necessário e quebra mó galho em situações descabidas. Bote fé. Então, fique esperto. Aproveite bem.

A noite na Rua Augusta não tem hora pra acabar.

2 comentários:

  1. Pois é, fui pra lá nesta sexta, lembrei de vc, mas estava sem internet pra mandar um recado, então agora tenho o telefone que vc postou, vou anotar e na próxima vez (vai demorar), dou um toque.
    beijo

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    1. Pré-combinado, Lu!! E obrigado pela visita. Beijo!

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