quarta-feira, 9 de abril de 2014

Agruras de um idiota (2)

- Quer saber? Ando preocupado, pensativo; ando vendo muita coisa da vida agora que abri uma conta no Facebook. E quer realmente saber? É tudo assim uma coisa de doido. Explico: ando vendo uma necessidade assim desesperada em se mostrar feliz, realizado; vejo uma liberdade medonha de expressão e de lamentos que beiram à insanidade ou à carência por amizades. Tá todo mundo querendo se mostrar feliz ou à beira da felicidade plena. Bobagem. Quem aí me lê sabe que a felicidade não é suficiente. A tristeza faz parte da gente assim como o ar preenche nossas veias e pulmões. Ok. Pareço um chato dizendo essas coisas, mas há certas coisas que precisam ser ditas, revistas, e cabe ao chato a dura tarefa de arauto. Acho bacana ver o pessoal do Face postando livremente o que pensam, o distanciamento físico da Internet possibilitou isso, todos aí sabem bem. O que me preocupa são os mal-entendidos que a liberdade de expressão acaba causando. Gente, é sério. Não falo aqui de erros ortográficos, na net isso é normal, até aceitável, pois, quem digita, digita com pressa. Falo aqui dá má leitura da pessoa que lê aquilo que outra pessoa posta. Eu mesmo sofri com isso. Isso mesmo, meu amigo, sofri. Foi um verdadeiro martírio se explicar a alguém que eu nunca vi mais colorido e/ou photochapado; é complicado... Fiquei espantado também com a quantidade de fotos pessoais e de piadinhas que circulam pela rede social. Ok. Uma piadinha ou outra faz bem, mas tem vez que enche o saco, sério. E, quanto às fotos pessoais, cara, tem coisas que não precisam vir a público, sério mesmo. A rede social é que nem o mundo real, tem muita gente boa, bem intencionada, mas também tem muita gente má, que pode se aproveitar daquilo lá que você mostra descaradamente. Outra coisa: tudo que vi achei interessante, tem muita coisa lá estimulante, e broxante também, faz parte, mas o mais curioso, o que mesmo me marcou, foi perceber que a vida segue, e pra todo mundo. Vi gente que era magra, do tipo bem fininha mesmo, agora mais carnuda, de bucho farto; vi gente gordinha mais sequinha; vi gente que se casou e que teve filhos; vi gente na batalha diária por um trampo melhor remunerado; enfim, vi gente vivendo, e vivendo bem de certa forma, apesar da ostentação e dos excessos de uns e outros aí. Contudo, vendo essas coisas, acabei fazendo aquela comparação idiota com a minha vida. Eh, a inveja, ou sei lá como posso chamar essa atividade neurológica natural comparativa, se manifestou em mim, e de uma forma meio que incômoda. Vendo os outros felizes, satisfeitos e realizados, me vi infeliz, insatisfeito e preocupado. Aquilo lá que eles me mostram não é o que eu vejo aqui no meu colo, junto a mim, entende? Não? Pois eu entendo bem. A infelicidade não é atrativa, não vende, por isso, tampouco ti trará mais “amigos” para serem adicionados, como se fossem uma posse assim contratual do acaso virtual. Quem se mostra feliz é praticamente garantido o sucesso na rede social. Admito que eu estava, quero dizer, admito que estou usando o Face para “espalhar felicidade”. Faço gracinhas com os meus queridos amigos, posto conteúdo que acho relevante, troco informações, divulgo atividades, sugiro músicas e músicos de boa qualidade, porém, como já disse, isso não é suficiente. Acho que posso, e devo, fazer bem mais coisas nesta minha vida, durante esta minha curta existência finita, mas tudo isso fora dessa rede. A vida ainda é bem mais interessante por fora do sistema propagandatório dito social. Ainda prefiro o anonimato. Ainda prefiro fazer o que faço sem ninguém aí saber disso. Isso é bem mais arriscado, sem nenhum amparo, bem sei, mas já estou acostumado, calejado. A vida é dura, injusta até, mas, ainda sim, vale muito á pena, principalmente quando você a tem para si, e só para si.