sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Escritório

A vontade faz a necessidade.

E quando a vontade é muito grande, coisa doida fora deste mundo, a gente têm mesmo é que aplacá-la de uma vez, mesmo que tenhamos de desembolsar uns bons trocados para isso.

Assim, não deu outra, pro negócio rolar gostoso, tivemos que abrir um escritório.

Ela e eu tínhamos um caso antigo, do tipo rolo, sabe? Nossa sociedade era bem instável. Ficávamos bem durante uns meses, do tipo bem intenso mesmo e, logo em seguida, nosso ritmo caia drasticamente. Nossas ações desvalorizavam rápido demais.

Contudo, éramos teimosos, ou uns apaixonados não assumidos, e reatávamos donde tínhamos parado - talvez na esperança boba de que o negócio, dessa uma vez mais, desse certo enfim.

Pois bem, dessa última mais uma vez, concordamos em montar um escritório fixo, uma lugar concreto e definitivo, uma primeira sede. Optamos por um lugar bem discreto, depois de muito pesquisar nos classificados aí à mão; a região parecia tranqüila e, o mais importante, era bem distante de nossas respectivas moradas oficiais.

Nós dois tínhamos outros casos. Nós dois éramos complicados: ela, dois filhos pequenos, eu, uma ex-esposa encrenqueira e nós dois, um e outro parente e vizinho xeretas.

Lugar escolhido faltava mobiliá-lo adequadamente Levamos um bom tempo nisso, mas foi até divertido fazer esse projeto juntos, sabe? O escritório estava ficando com a nossa cara. Um lugar elegante, prático e com tudo que precisávamos para realizar os despachos diários numa boa.

O dia da inauguração foi inesquecível. O escritório de arrumadinho ficou bem bagunçado, mas acho que é sempre assim quando dois sócios ficam deveras empolgados com o negócio enfim ganhando forma, corpo por meio do nosso próprio suor e esforço físico. Nossas progressões iam muito bem durante vários meses. O escritório estava nos dando bons lucros e satisfações visíveis. Estava tudo indo bem e certinho.

Porém, sempre um porém, minha sócia me apareceu um dia com umas idéias estranhas...

Nós dois sempre fomos transparentes um com o outro, nunca escondemos nada de ninguém, sempre jogávamos o jogo seguindo as regras e criando as nossas entre a gente mesmo, um bom negócio só dá certo dessa maneira, com respeito, intimidade e sinceridade sobre a mesa.

Mas, nesse dia, a sinceridade me bateu na cara duma forma inesperada e implacável: minha sócia sugeriu terceirizar os serviços do escritório.

Aquela idéia dela me abalou geral. Seria até compreensível essa idéia dela se estivéssemos enfrentando alguma crise e tal. Mas, ao contrário, estava tudo indo bem, as contas fechavam direitinho, algumas surpresinhas aí desagradáveis no meio do processo apareciam, porém tudo dentro da nossa estimativa traçada e discutida. Aquela idéia dela foi muito descabida e inoportuna.

O argumento dela era de que precisávamos expandir nossas relações, nossos departamentos; ela me dizia que eu estava muito sobrecarregado e que não estava mais dando conta de tudo como deveria estar.

Fiquei puto com aquilo, lógico.

Como assim não dando conta?!

Porra, eu estava administrando tudo e todos muito bem!!

Pelo menos, era o que eu achava.

Contra-argumentei, mas não adiantou muito. Minha sócia é foda, quando põe algo na cabeça, dificilmente dá pra arrancar, nem a força dá, já tentei isso uma vez e deu merda, deu um processo do caralho.

Enfim, pedi a ela um tempo pra pensar direitinho nas implicações dessa fusão surpresa sugerida, mas, óbvio, eu já tinha uma resposta pronta, eu já tinha uma decisão definida na mente, só não queria ali expô-la para ela: eu ia quebrar aquela empresa.

Mas não dando prejuízo, pedindo falência, veja bem, eu estava pensando num esquema de superfaturação.

Explico: se a minha sócia queria terceirizar, incluir um terceiro elemento nessa nossa transação paralela, eu ia triplicar a oferta.

Rodei atrás dessa gente farta. Enfiei-me nesse negócio sujo do submundo corporativo e, após muitas negociações sinistras, consegui arranjar dezessete cacetes pra satisfazê-la, todos saudáveis e bem dotados de porte – sempre faço bons negócios.

Numa sexta-feira, fim de expediente, soltei-lhe o memorando. Quero dizer, comuniquei-lhe que na segunda já lhe entregaria a papelada para acertarmos de vez a nossa expansão no organograma.

Minha sócia se mostrou satisfeita enfim, eu a enrolei por muito tempo mesmo, bem mais do que o de costume.

E ela se despediu de mim toda eufórica, dizendo que eu estava sendo muito inteligente e profissional em admitir mais um homem no nosso negócio. Ela me deu um beijo na testa quando terminou de me dizer essas coisas.

No dia dito e no horário de sempre, ela foi pontual. Vestia um vestido novo todo vermelho e vinha acompanhada de um cara bem mais novo de terno todo branco do seu lado esquerdo. Sorri o sorriso mais amarelo que eu tinha quando ela o apresentou a mim.

Em seguida, eu disse a minha sócia para ela ir subindo na frente, pois precisava trocar umas palavrinhas com esse novo funcionário; acertar detalhes, limites e tal. Também lhe instiguei a curiosidade dizendo que tinha dezessete grandes surpresas lhe aguardando no escritório.

Minha sócia me olhou intrigada, mas sorriu pra mim quando lhe pisquei um olho.

Quando ela sumiu de vista, interrompi o que sei lá o que o camarada ia começar a me dizer o estrangulando ali mesmo. O rapaz era forte, vale aqui mencionar, mas o fator surpresa sempre se sobressai quando a vítima não espera o inesperado. E eu tava puto, então, já sabe.

Deixei o corpo inerte daquele traste ali mesmo e, conforme o elevador subia, eu ia me ajeitando e montando o arsenal que eu trouxera numa pasta preta executiva.

Quando o elevador parou e abriu as portas, pude de cara ver a cena grotesca por mim orquestrada: minha sócia estava rodeada por dezessete homens nus. Seu vestido não mais existia. Só havia farrapos pelo chão e umas tiras do ex-vestido vermelho grudados no seu corpo em pelo.

Ela estava de quatro sobre a grande mesa de vidro. Tinha um cara debaixo dela. Outro a enrabava sem dó, todo agressivo. Mais dois eram chupados por ela de forma revezada, primeiro engolia um, depois engolia o outro, sempre afoita, na fome do cio. E mais um cara em cada mão era agraciado com uma bela punhetinha. Os demais estavam por ali também. Ora eles a enrabavam, iam pra de baixo dela, ora eram chupados, ora recebiam uma punheta, ora lhe puxava os cabelos, ora a batia, a esganava; era um rodízio muito organizado, pode-se dizer. Contudo, não era uma coisa muito agradável de se ver.

Ninguém deu por mim quando sai do elevador e caminhei bem em direção deles, o negócio lá estava frenético!! Uma horrenda orgia do caralho!!

Vi o quadro e não gostei: saquei logo as armas quando me vi num ângulo e numa posição favoráveis para eliminar a todos.

Desembestei a disparar sem parar.

Teve sim uns caras que conseguiram correr ao ouvir os primeiros disparos, mas não se distanciaram muito de mim, fuzilei a todos, sem dó, misericórdia ou pena.

Descarreguei toda a munição que tinha levado. Certifiquei-me que todos estavam mortos: dei mais cinco tiros em cada crânio estatelado nu no chão de sangue.

No corpo da minha ex-sócia, não fiz essa barbaridade. Não tive coragem de deformar aquele rostinho de puta.

Então, enquanto eu me ajoelhava em direção a seu corpo inerte, eu ia desabrigando do meu bolso a minha faca nova recém adquirida.

Com essa faca, acariciei-lhe a face, o rosto empapado de sangue sujo. Fiquei bons minutos fazendo isso... Para, em seguida, cravá-la no seio esquerdo e arrancar-lhe o coração morto.

Admirado fiquei quando o removi, ele ainda estava quente! E ele era lindo. Todo lisinho e brilhante... Não resisti: devorei-o ali mesmo.

Demitir por justa causa nunca foi tão saboroso para mim.