quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

SEREIA TROPICAL

É verão! São férias!! Estão todos aí já e se esfregando na tua cara. E você, o que vai fazer?? Cai pra praia, ué. Fica aí não, José. Desce a serra e vira farofeiro. Todo mundo, sem exceção, que corre pra praia nesta época do ano é farofeiro. E farofeiro pode ser batuta ou filho da puta. O batuta divide o rango, já o filho da puta regula. Então, fique esperto, fique ligeiro, quem se assa na areia à lá milanesa tá melhor do que a Calabresa! Bota aí o sungão, bota aí o biquininho de bolinha amarelinha, a onda agora é curtição. NO STRESS. Finca o guarda-sol na areia, põe as cadeiras ou as esteiras em baixo, se unta de protetor solar e mira a cara ou a bunda em direção ao mar. Relaxe e goze... Descanse bem, meu bem. Curta esse prazer anal. Opa! Melhor dizendo, anual, anual!! Gente, desculpa aí a empolgação. Liga não. Enfim, neste verão 50 graus, fique esperto aí no litoral, pois tão fofocando muito sobre uma tal de Sereia Tropical. Dizem que é uma lenda litorânea atual, mas, assim como a brincadeira, que parece ser mais uma besteira, tem lá sua verdade verdadeira. A Sereia Tropical tá de onda! Tá na areia e nos luaus bem pertinho dos casais. Ela não é que nem a Iara, toda recatada e bonitinha. A Tropical é mais radical, porra-louca e suicida!!! A tipa passa o rodo geral mesmo com aquele rabão de peixe escamado. Ela devora homens bem mais do que a Cicarelli!! Ela canta e encanta os mauricinhos de plantão. Aliás, ela adora esses tipos no seu vasto cardápio, pois são esses os mais facinhos e que berram mais alto quando estão sendo esfolados e revirados vivos. A Sereia Tropical dá mole e é letal! Acredite. Vai por mim. Em toda orla deste brasilzão só vai dá ela, os pentelhos e os chupões. Dica importante: se você aí, mesmo depois d’eu ter te alertado sobre a tipa e seus riscos de flerte e, ainda assim, querer se entrosar com ela, encape bem o seu arpão, meu filho!! Falo sério. Cu de peixe não é flor que se cheire. O cuidado deve ser redobrado quando se adentra por esses mundos – mundos fantásticos de rito retais. Quem copula e se protege tem mais chance de sobreviver. Geralmente, quase todos morrem. A Sereia Tropical não quer saber de namorado, noivo e coisa e tal; ela quer um pau amigo pra se divertir e nada mais. Depois do treme-treme, ela decepa o meliante e consome a carne tenra pós-coito alucinante. A Sereia Tropical só se alimenta nesta época do ano. E vai nesse ritmo até o Carnaval!! Depois disso tudo, hiberna em pele de freira e ninguém - ninguém mesmo – dá pau na pequena. Bora então, cambada! O verão urge e pede desconto!! Bora lá!! Deixe seu encosto e vem pra costa!! É chegada a hora.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

"Eu vou morder a sua bunda"

O mundo já não é o mesmo. Neste século em que vivemos muita coisa acontece e sequer sabemos o porquê acontece, mesmo tentando a todo custo compreender. Observamos as coisas, nós as analisamos, discutimos, compartilhamos e, ainda assim, o que descobrimos é muito pouco diante do mistério que ainda sobra e nos assola. Vai ver tem coisas que não tem explicação. Vai saber. Talvez a não-resposta seja a resposta que muitos aí desejam e ainda não perceberam, ou, sei lá, preferiram ignorá-la, na esperança cega de que um dia, ela, a resposta, virá, e virá pra aliviar. Enfim, o mundo anda estranho, muito estranho, aliás. Até os seres sobrenaturais andam se comportando de forma inusitada. Tem muito lobisomem por aí que virou gogo boy! E nem de Chapeuzinho Vermelho querem saber mais. Só babam pelos Três Porquinhos mesmo... Os mortos-vivos então, nem se fala! Preferem ser chamados de zumbis e, só porque tão fazendo sucesso numas séries norte-americanas aí de televisão, tão porque tão andando de narizinho em pé cheio de sangue podre. As bruxas também tão na moda. Todo mundo, hoje em dia, tem como amiga ao menos uma dessas criaturas. Se não sabias, já lhe digo: é aquela amiga moderninha que curte baladinhas GLS e do tipo pop rock independente à lá hipster e que frequenta essas feirinhas ripongas estilo Mundo Mix. Tem muita bruxa solta por aí! Contudo, são os vampiros que me preocupam. Os vampiros, deste século, andam numa boa durante o dia. Até aí, tudo bem! Dá até pra relevar. Vai ver é coisa dá evolução ou de um bom protetor solar e tal. Porém, tem uns aí que brilham, ou melhor, cintilam feito diamante quando expostos à luz do sol. Vampiro virou uma espécie de fada Sininho. Tá. Ok. Isso aí é um caso isolado, mas é fato, por isso aqui o comentário. Os vampiros ainda são uns baitas sedutores. Eles continuam e sempre continuarão a fazer sucesso entre as pessoas de sangue quente. Sexo e sedução nunca sairão de moda. E ainda mais nesta sociedade de consumo, de aparência e de diversão sem começo, meio e fim. Tudo é farra, trollagem e desbunde. Os vampiros estão no topo dessa sociedade e não só da cadeia alimentar. Exemplo vivo disso é uma vampirinha que eu conheci este ano. Seu nome de guerra é Val Clamp. Aparenta menos de trinta, mas tem mais de três séculos, a garotinha. Ela é baixinha feita Annabelle e branca muito branca que nem a Branca de Neve. Seu poder de atração emana daqueles lábios carnudos e vermelho-sangue que ela chama de boca. Essa lembra muito aquela da atriz gostosona de Hollywood - essa mesma que tu tá pensando. Aquela boca é fora de série mesmo... Continuando, a Val é vampira das boas. Ela joga o jogo e joga muito bem. Difícil vê-la triste, cabisbaixa; ela tá sempre sorrindo e gargalhando pra caralho, aquela desgraçada! Ninguém, mesmo morto, fica moribundo perto dela. Val tem muitos amigos e amigas. Entre esses é a mais querida. Val tem muitas vítimas também. Porém, ela é sacana, ela é uma provocadora nata e filha da puta. Val Clamp não é vampira de morder pescocinhos, não. Val Clamp morde bundas! Mas isso é coisa recente, disse-me ela dia desses. Ela só começou a cravar seus dentinhos nas bundas roliças de suas vítimas à apenas cinquenta anos atrás. E mesmo que, pra ela, isso seja meio que manjado já, ela o faz e continua se divertindo um bocado. “Eu vou morder a sua bunda.”, diz ela a suas vítimas nas noites mais escuras. Quem a ouve assim, de surpresa, leva susto, mas não bota fé. Acham que é tiração e tal. Pobres coitados! Basta ela abrir aquele bocão num sorriso sinistro e mal-intencionado para ela derrubar sua vítima num segundo e tirar-lhe as calças, ou qualquer coisa aí que cubra suas nádegas, noutro e enterrar seus caninos de prata nas partes baixas... Val Clamp morde e morde com gosto!! Não desperdiça uma gota sequer do líquido escarlate vital e sai saltitando, satisfeita e cruel, pelas ruas escuras da cidade grande. A trollagem não tem fim, não tem limites, nem mesmo entre os seres sem alma. Então, cuidado! Muito cuidado. Tem vampira farrista de olho na tua bunda!!

sábado, 20 de dezembro de 2014

O barato que vem do nada e eu sou obrigado a pô-lo na porra da folha de papel em branco

o novo se torna velho diante do novo que a de vir

meu amor, tenho que partir
talvez eu te reveja por aí
se não, passar bem
tô passando
meu encanto se quebrou

No fim, uma resposta, que nunca vem

A queda foi grande.
Eu me machuquei pra caralho,
Mas não fiz escândalo de palhaço.
Ali, estatelado, tentei entender o fato:

Tudo ia bem, aparentemente.
Eu era um cara dedicado,
Porém, fui acusado de negligente.
Ela não estava contente, realmente.

Tentei contra argumentar, mas não deu em nada.
Ela estava atada a comentários de terceiros.
Ela me chamou de mentiroso, trapaceiro,

Mesmo eu sendo sincero, respeitoso e companheiro.
Eu fui pego de surpresa e
Com a mão esquerda, ela me empurrou do desfiladeiro.

sábado, 13 de dezembro de 2014

De olhos bem abertos

Mano, amigo meu

Hoje em dia, as mina pira na maionese
E tampouco vibram com arquidiocese
As mina, ultimamente, olham pra ver se tão olhando...
Elas são puro encanto!
As tipas se exibem a todo instante
Sempre tão em busca dum flagrante
Tão porque tão querendo aparecer
E você, sem querer,
Acaba se vendo babando
Quando elas passam desfilando
Do seu lado
Com aquele rabo todo empinado


Mano, meu camarada

Tá difícil um homem ser fiel
Nessas paradas de agora
É tanta oferta,
É tanto desbunde,
Que você acaba tonto
E meio torto
Quase virando um corno
Se não cuidar bem do deu broto


Então, meu chapa,

Fique esperto,
Fique de olho, olho vivo aí,
Toda mulher do presente se sente a última dos biscoitos.

domingo, 7 de dezembro de 2014

A caixinha de Barboza

Dizem que não existe, mas é mentira. Existe sim! E eu mesmo já a vi. Ela é real. A caixinha de Barboza é uma realidade deste mundo. Faz muitos anos, é verdade, mas eu me lembro dela como se fosse coisa de agora, coisa fresca e bem madura de comer. Eu era um reles alferes do mítico Valentina Quebra Ossos quando ele partiu numa caça desenfreada ao tesouro do pirata Sorriso de Hiena. Nós, piratas, sempre nos reuníamos numas pocilgas de qualquer reino pra encher o cu de rum e trocar informações entre a gente. Numa dessas orgias de sempre, o tal tesouro foi assunto recorrente. Parecia que um ex-marujo do tal Sorriso cantou de papagaio antes de ter seus membros arrancados pela guarda real e, claro, caindo a informação lá, ela caia entre a gente também. Nosso capitão, o Barba Púrpura, quando ficou sabendo disso, ficou todo empolgado. Fazia tempo que ele não caia no mar numa busca desse tipo. Ele já estava entediado de saquear navios mercantes. Nosso capitão sempre teve gosto pela aventura. Mesmo que nela, metade de tripulação, ou mais, se perdia, não sobrevivia até o fim da empreitada... Pois bem, Ele levantou mais informações sobre o tal tesouro e, com tudo quase certo, montou uma nova tripulação. Eu estava no meio desses novatos. Eu já conhecia bem o histórico do capitão Barba Púrpura, pois sempre andava nesse meio de desajustados, nunca conheci meu pai e nem a minha mãe. Naquela época, eu me sentia mais velho, mais preparado e disposto a encarar os riscos. Eu não tinha nada a perder. E o capitão parecia ser gente boa. Me apresentei a ele e ele me aceitou de cara. “Finalmente!”, disse-me ele. Lembro disso muito bem. Manhã seguinte, partimos. O Valentina Quebra Ossos era um navio monstruoso! Nele havia dezenas de compartimentos e a madeira utilizada na sua construção, diziam, não ser madeira típica deste mundo mortal. Não sei dizer se ele foi pintado, mas todo ele era colorido na cor púrpura, tom idêntico à barba do capitão, daí a inspiração, achei. Suas velas eram negras como a noite. E elas refletiam as estrelas do céu - até mesmo durante o dia! Sem dúvidas, um navio de dar medo. O nome Valentina Quebra Ossos vinha da ex-esposa do capitão. Numa dessas poucas noites de calmaria, ele nos contou que a tal Valentina foi o grande amor de sua vida. Ela era uma mulher robusta e encrenqueira. Encarava uma boa briga numa boa. Batia e pra matar nuns dez caras facilmente. O fim dela, o capitão não nos contou, mas, entre a tripulação, se falava que ela era o próprio navio – ela tinha se transformado nele. Enfim, navegar era uma experiência fantástica! Uns novatos sentiram enjoos, mas eu não! Eu me sentia, enfim, no meu habitat natural. Monstruosidades quase todas as noites e tempestades horríveis durante o dia não me intimidaram. O capitão Barba Púrpura nos fazia dar o máximo e o melhor da gente. Muitos morreram, mas os que sobreviviam se davam cada vez mais e mais. Parecia até que estávamos enfeitiçados por um feitiço encorajador... Fazia alguns meses que estávamos no mar aberto. Já tínhamos passado por diversos apuros e glórias. Não comento aqui sobre eles para não estender demais o meu relato. Outro dia, quem sabe, te dou os detalhes. O foco aqui é a caixinha de Barboza. Pois bem, nosso capitão tinha um mapa. Este foi feito por ele mesmo, todo ele era baseado e rabiscado nas informações levantadas pelo próprio capitão. No mapa havia um “x”, claro. Esta marca traçada pelo nosso capitão era onde ele estimava encontrar o tal tesouro do capitão Sorriso de Hiena. Seu “x” estava sobre a água no mapa, mas, quando o Valentina Quebra Ossos se aproximou do ponto marcado, havia uma ilha. “Terra à vista, homens!!!”, gritou nosso querido capitão. Era madrugada quando ele deu o aviso. Alguns companheiros roncavam e logo se puseram de pé ao grito dele. Talvez ele estivesse apreensivo, acho até que nem dormia direito, tamanha a ansiedade... Assim, não perdemos tempo, desembarcamos os botes e fomos direto à tal ilha. Esta não constava em nenhum mapa por mim consultado posteriormente, durante o desembarque dos botes. Conforme nos aproximávamos da ilha, percebemos que ela não era uma ilha comum: a areia da praia lembrava ferrugem, sua consistência era mais dura, parecia até cascalho; a vegetação era igualmente estranha, nunca tinha visto plantas e árvores daqueles tipos, elas eram verdes, tinham cheiro de planta e tal, mas, ainda assim, eu notara algo de não vegetal nelas todas... O capitão e o restante da tripulação pareciam surpresos também, porém bem mais concentrados no objetivo do que no meio-ambiente. “É por aqui, cambada. É por aqui! Sigam-me.”, dizia o capitão com suas anotações à mão. Adentramos aquela vegetação estranha e fomos abrindo caminho. Eu olhava para os lados e atrás de mim em busca de algum animal local e nada, sequer ruídos eu ouvia, somente o vento mesmo entre as árvores. Pensei até em comentar sobre isso aos demais, mas eles pareciam hipnotizados com a possibilidade de, enfim, encontrar a tal da caixinha de Barboza. De repente, avistamos um objeto estranho ao longe: uma espécie de totem, não cilíndrico, mas mais parecido com uma prancha enorme de madeira, porém, não era de madeira, tampouco de aço, era de um material negro não brilhante... Quando chegamos mais perto, percebemos que, no tal objeto, havia uma espécie de porta na sua base. “Bora, homens! É só entrarmos.”, disse o nosso corajoso capitão. Antes d’eu entrar, dei uma apalpada nesse totem escuro, que não tinha nada desenhado ou escrito, ele era todo liso, de um material desconhecido que não refletia nada, lembrava um espelho gigantesco que só refletia a cor preta e mais nada. Passei pela entrada e visualizei um caminho de terra e rochoso descendo em espiral. Meus companheiros, bem à frente, queimavam suas tochas e seguiam o capitão. Conforme descíamos, o lugar ficava cada vez mais e mais quente. Miasmas alaranjados tomavam o lugar, mas conseguíamos ainda respirar com pouca dificuldade. Após passarmos por um corredor mais estreito, nos deparamos numa grande câmara, no teto percebemos umas coisas redondas lá fixadas... “Silêncio.”, sussurrou o nosso capitão, quase não podendo ser ouvido. Estávamos em fila indiana, dando passinhos lentos e desapressados quando um dos nossos tropeçou e caiu, fazendo um barulho infernal com a tralha que ele levava... Nossas almas gelaram na hora. E todos olharam para cima e viram milhares de olhinhos vermelhos e dentes afiados reluzentes caindo sobre a gente... “Corram!! Corram por suas vidas, seus desgraçados!!”, gritou o nosso apavorado e preocupado capitão. Corremos nos atropelando e tentando nos defender daquelas criaturas peludas e famintas pelo nosso sangue. “Por aqui!! Rápido!!”, gritou o capitão enquanto cortava duas, três daquelas coisas e apontava um caminho à sua frente. Acho que eu tive sorte, pois poucos sobreviveram ao massacre. Aquelas coisas não nos seguiram. Elas pareciam limitadas àquela câmara. Muito estranho isso, achei... Enfim, continuamos seguindo o capitão Barba Púrpura. Era ele e mais treze, incluindo eu nesses treze, então quatorze homens ainda vivos dos quase sessenta que na ilha desembarcaram. Todos pareciam cansados, assustados, mas determinados em continuar em frente. “A caixinha da Barboza está próxima.”, dizia o nosso querido e motivador capitão. Continuamos então, sempre seguindo em frente e descendo, cada vez mais e mais fundo. Adentramos outra câmara, bem maior que a anterior e, no altar que ali avistamos, bem lá no alto, vislumbramos um pequenino cubo flutuante irradiando uma luz branca intermitente: era a caixinha de Barboza!!! “Ali, homens!!! Muito cuidado agora.”, disse o capitão. Apagamos nossas tochas e fomos caminhando em direção ao grande altar: a caixinha de Barboza iluminava todo o ambiente. De repente, notamos que nossas sombras estavam esticadas demais sobre o chão e as paredes de pedra da câmara, elas pareciam vivas e choque: nossas sombras emergiram do chão em forma de animais peludos muito parecidos com a gente! E esses empunhavam as mesmas armas que carregávamos conosco!! Nossas sombras nos atacaram. Barulho de lâminas, socos e chutes ecoaram naquela gruta. Grunhidos e gritos também. Eu estava encurralado pela minha própria sombra quando o capitão me salvou, cravando sua espada no pescoço da minha sombra. “Rápido, rapaz! A caixinha!”, disse-me ele apontando para o alto do altar. Corri o mais rápido qu’eu pude até lá. A caixinha cabia na palma da minha mão. Eu a agarrei rapidamente, não me atentando muito àquela luz branca quase cegante que ela irradiava. E quando eu olhei para trás, para mostrar ao capitão e aos demais que tínhamos, enfim, conseguido, vi a cena apavorante: todos tinham sido mortos, as sombras tinham decapitado a todos, o capitão era o único sobrevivente de joelhos e cercado pelas sombras. Lá do alto do altar, e com a caixinha de Barboza em mãos, pude ouvir a voz monstruosa da sombra do capitão: “Ora, ora... Enfim, deu as caras, hein, Barba Púrpura!! Pensávamos que tinha se acovardado da gente. Você demorou demais pra honrar o combinado. Agora você pagará o que nos deve.” A sombra sinistra do capitão Barba Púrpura erguia sua lâmina para enterrá-la de vez no crânio do capitão, quando este sorriu e apontou para mim. Todos ali me encararam. “Abra a caixinha, rapaz!!!”, gritou meu capitão. As sombras peludas correram em minha direção. “Eu não sei como, senhor!!”, gritei eu. As sombras aceleram o passo com olhos de sangue... “Basta se lembrar de uma lembrança boa que você já teve.”, gritou meu capitão caindo de bruços sobre o chão. “Uma lembrança boa??”, pensei eu alto. E quando as quatorze sombras estavam apontando suas lâminas sobre mim, e eu já no chão apavorado, quase chorando, eu me lembrei, como se fosse um relâmpago de imagens: eu me lembrei que mesmo órfão, não conhecendo o meu pai e nem a minha mãe, eu tive muitas pessoas que cuidaram de mim até ali. Eu me lembrei da tia gorda que sempre me dava de comer, eu me lembrei do sujeito manco que me ensinou a pescar, eu me lembrei dos colegas de rua que, apesar das dificuldades do dia a dia, sempre dividiam comigo o pouco dos restos de comida que eles arranjavam, eu me lembrei de tantos outros me ajudaram a sobreviver até ali e, claro, lembrei do capitão que tinha salvado a minha vida... Nisso, uma força impressionante, emanada de dentro da caixinha recém aberta, sugou todas as sombras assassinas ao meu redor. O lugar começou a desmoronar. E eu fui tomado por um vórtice dourado que ia de encontro ao teto da caverna! Antes de desaparecer além, pude ainda ver o corpo do capitão Barba Púrpura estirado no chão... Num piscar de olhos, me vi nos céus sobre a ilha. Lá do alto, pude ver o Valentina Quebra Ossos sendo atacado e envolvido por uma criatura gigantesca cheia de tentáculos prateados... Eu pairava sobre a ilha e, de repente, ela começou a ser engolida por um redemoinho assustador de enorme! A ilha desaparecia e desaparecia rapidamente, engolida totalmente pelo redemoinho. Este também tragava a criatura de tentáculos e os restos do Valentina. Quando tudo, enfim, ficou calmo, eu despenquei de lá de cima. Fiquei lá boiando sobre os restos do antigo navio. Não sei bem por quanto tempo fiquei lá à deriva, eu não sentia mais o poder do tempo, eu não sentia fome ou sede, tampouco frio ou calor, eu não sentia mais nada, nem mesmo a caixinha de Barboza eu sentia mais em minhas mãos... Lembro vagamente de outro navio pirata me resgatando e d’eu contando essa história a eles. Lembro que pedi a eles para me deixarem na próxima parada. E estou aqui desde então. Trabalhei, prosperei e constitui família por aqui. E, se não disse antes, digo agora o porquê de tanto interesse que tanta gente tem em ir atrás da caixinha de Barboza. Digo que não é mais uma lenda, é a pura verdade, quem a encontra acaba se lembrando da real felicidade. O Barboza da tal caixinha foi o primeiro cara realmente feliz deste mundo e, pouco antes de partir para o outro mundo, ele reuniu essa pura felicidade na tal caixinha. O capitão do Sorriso de Hiena foi um de seus subordinados. E o meu capitão da Barba Púrpura também o foi. Descobri isso tempos depois. Curioso, não?