domingo, 7 de dezembro de 2014

A caixinha de Barboza

Dizem que não existe, mas é mentira. Existe sim! E eu mesmo já a vi. Ela é real. A caixinha de Barboza é uma realidade deste mundo. Faz muitos anos, é verdade, mas eu me lembro dela como se fosse coisa de agora, coisa fresca e bem madura de comer. Eu era um reles alferes do mítico Valentina Quebra Ossos quando ele partiu numa caça desenfreada ao tesouro do pirata Sorriso de Hiena. Nós, piratas, sempre nos reuníamos numas pocilgas de qualquer reino pra encher o cu de rum e trocar informações entre a gente. Numa dessas orgias de sempre, o tal tesouro foi assunto recorrente. Parecia que um ex-marujo do tal Sorriso cantou de papagaio antes de ter seus membros arrancados pela guarda real e, claro, caindo a informação lá, ela caia entre a gente também. Nosso capitão, o Barba Púrpura, quando ficou sabendo disso, ficou todo empolgado. Fazia tempo que ele não caia no mar numa busca desse tipo. Ele já estava entediado de saquear navios mercantes. Nosso capitão sempre teve gosto pela aventura. Mesmo que nela, metade de tripulação, ou mais, se perdia, não sobrevivia até o fim da empreitada... Pois bem, Ele levantou mais informações sobre o tal tesouro e, com tudo quase certo, montou uma nova tripulação. Eu estava no meio desses novatos. Eu já conhecia bem o histórico do capitão Barba Púrpura, pois sempre andava nesse meio de desajustados, nunca conheci meu pai e nem a minha mãe. Naquela época, eu me sentia mais velho, mais preparado e disposto a encarar os riscos. Eu não tinha nada a perder. E o capitão parecia ser gente boa. Me apresentei a ele e ele me aceitou de cara. “Finalmente!”, disse-me ele. Lembro disso muito bem. Manhã seguinte, partimos. O Valentina Quebra Ossos era um navio monstruoso! Nele havia dezenas de compartimentos e a madeira utilizada na sua construção, diziam, não ser madeira típica deste mundo mortal. Não sei dizer se ele foi pintado, mas todo ele era colorido na cor púrpura, tom idêntico à barba do capitão, daí a inspiração, achei. Suas velas eram negras como a noite. E elas refletiam as estrelas do céu - até mesmo durante o dia! Sem dúvidas, um navio de dar medo. O nome Valentina Quebra Ossos vinha da ex-esposa do capitão. Numa dessas poucas noites de calmaria, ele nos contou que a tal Valentina foi o grande amor de sua vida. Ela era uma mulher robusta e encrenqueira. Encarava uma boa briga numa boa. Batia e pra matar nuns dez caras facilmente. O fim dela, o capitão não nos contou, mas, entre a tripulação, se falava que ela era o próprio navio – ela tinha se transformado nele. Enfim, navegar era uma experiência fantástica! Uns novatos sentiram enjoos, mas eu não! Eu me sentia, enfim, no meu habitat natural. Monstruosidades quase todas as noites e tempestades horríveis durante o dia não me intimidaram. O capitão Barba Púrpura nos fazia dar o máximo e o melhor da gente. Muitos morreram, mas os que sobreviviam se davam cada vez mais e mais. Parecia até que estávamos enfeitiçados por um feitiço encorajador... Fazia alguns meses que estávamos no mar aberto. Já tínhamos passado por diversos apuros e glórias. Não comento aqui sobre eles para não estender demais o meu relato. Outro dia, quem sabe, te dou os detalhes. O foco aqui é a caixinha de Barboza. Pois bem, nosso capitão tinha um mapa. Este foi feito por ele mesmo, todo ele era baseado e rabiscado nas informações levantadas pelo próprio capitão. No mapa havia um “x”, claro. Esta marca traçada pelo nosso capitão era onde ele estimava encontrar o tal tesouro do capitão Sorriso de Hiena. Seu “x” estava sobre a água no mapa, mas, quando o Valentina Quebra Ossos se aproximou do ponto marcado, havia uma ilha. “Terra à vista, homens!!!”, gritou nosso querido capitão. Era madrugada quando ele deu o aviso. Alguns companheiros roncavam e logo se puseram de pé ao grito dele. Talvez ele estivesse apreensivo, acho até que nem dormia direito, tamanha a ansiedade... Assim, não perdemos tempo, desembarcamos os botes e fomos direto à tal ilha. Esta não constava em nenhum mapa por mim consultado posteriormente, durante o desembarque dos botes. Conforme nos aproximávamos da ilha, percebemos que ela não era uma ilha comum: a areia da praia lembrava ferrugem, sua consistência era mais dura, parecia até cascalho; a vegetação era igualmente estranha, nunca tinha visto plantas e árvores daqueles tipos, elas eram verdes, tinham cheiro de planta e tal, mas, ainda assim, eu notara algo de não vegetal nelas todas... O capitão e o restante da tripulação pareciam surpresos também, porém bem mais concentrados no objetivo do que no meio-ambiente. “É por aqui, cambada. É por aqui! Sigam-me.”, dizia o capitão com suas anotações à mão. Adentramos aquela vegetação estranha e fomos abrindo caminho. Eu olhava para os lados e atrás de mim em busca de algum animal local e nada, sequer ruídos eu ouvia, somente o vento mesmo entre as árvores. Pensei até em comentar sobre isso aos demais, mas eles pareciam hipnotizados com a possibilidade de, enfim, encontrar a tal da caixinha de Barboza. De repente, avistamos um objeto estranho ao longe: uma espécie de totem, não cilíndrico, mas mais parecido com uma prancha enorme de madeira, porém, não era de madeira, tampouco de aço, era de um material negro não brilhante... Quando chegamos mais perto, percebemos que, no tal objeto, havia uma espécie de porta na sua base. “Bora, homens! É só entrarmos.”, disse o nosso corajoso capitão. Antes d’eu entrar, dei uma apalpada nesse totem escuro, que não tinha nada desenhado ou escrito, ele era todo liso, de um material desconhecido que não refletia nada, lembrava um espelho gigantesco que só refletia a cor preta e mais nada. Passei pela entrada e visualizei um caminho de terra e rochoso descendo em espiral. Meus companheiros, bem à frente, queimavam suas tochas e seguiam o capitão. Conforme descíamos, o lugar ficava cada vez mais e mais quente. Miasmas alaranjados tomavam o lugar, mas conseguíamos ainda respirar com pouca dificuldade. Após passarmos por um corredor mais estreito, nos deparamos numa grande câmara, no teto percebemos umas coisas redondas lá fixadas... “Silêncio.”, sussurrou o nosso capitão, quase não podendo ser ouvido. Estávamos em fila indiana, dando passinhos lentos e desapressados quando um dos nossos tropeçou e caiu, fazendo um barulho infernal com a tralha que ele levava... Nossas almas gelaram na hora. E todos olharam para cima e viram milhares de olhinhos vermelhos e dentes afiados reluzentes caindo sobre a gente... “Corram!! Corram por suas vidas, seus desgraçados!!”, gritou o nosso apavorado e preocupado capitão. Corremos nos atropelando e tentando nos defender daquelas criaturas peludas e famintas pelo nosso sangue. “Por aqui!! Rápido!!”, gritou o capitão enquanto cortava duas, três daquelas coisas e apontava um caminho à sua frente. Acho que eu tive sorte, pois poucos sobreviveram ao massacre. Aquelas coisas não nos seguiram. Elas pareciam limitadas àquela câmara. Muito estranho isso, achei... Enfim, continuamos seguindo o capitão Barba Púrpura. Era ele e mais treze, incluindo eu nesses treze, então quatorze homens ainda vivos dos quase sessenta que na ilha desembarcaram. Todos pareciam cansados, assustados, mas determinados em continuar em frente. “A caixinha da Barboza está próxima.”, dizia o nosso querido e motivador capitão. Continuamos então, sempre seguindo em frente e descendo, cada vez mais e mais fundo. Adentramos outra câmara, bem maior que a anterior e, no altar que ali avistamos, bem lá no alto, vislumbramos um pequenino cubo flutuante irradiando uma luz branca intermitente: era a caixinha de Barboza!!! “Ali, homens!!! Muito cuidado agora.”, disse o capitão. Apagamos nossas tochas e fomos caminhando em direção ao grande altar: a caixinha de Barboza iluminava todo o ambiente. De repente, notamos que nossas sombras estavam esticadas demais sobre o chão e as paredes de pedra da câmara, elas pareciam vivas e choque: nossas sombras emergiram do chão em forma de animais peludos muito parecidos com a gente! E esses empunhavam as mesmas armas que carregávamos conosco!! Nossas sombras nos atacaram. Barulho de lâminas, socos e chutes ecoaram naquela gruta. Grunhidos e gritos também. Eu estava encurralado pela minha própria sombra quando o capitão me salvou, cravando sua espada no pescoço da minha sombra. “Rápido, rapaz! A caixinha!”, disse-me ele apontando para o alto do altar. Corri o mais rápido qu’eu pude até lá. A caixinha cabia na palma da minha mão. Eu a agarrei rapidamente, não me atentando muito àquela luz branca quase cegante que ela irradiava. E quando eu olhei para trás, para mostrar ao capitão e aos demais que tínhamos, enfim, conseguido, vi a cena apavorante: todos tinham sido mortos, as sombras tinham decapitado a todos, o capitão era o único sobrevivente de joelhos e cercado pelas sombras. Lá do alto do altar, e com a caixinha de Barboza em mãos, pude ouvir a voz monstruosa da sombra do capitão: “Ora, ora... Enfim, deu as caras, hein, Barba Púrpura!! Pensávamos que tinha se acovardado da gente. Você demorou demais pra honrar o combinado. Agora você pagará o que nos deve.” A sombra sinistra do capitão Barba Púrpura erguia sua lâmina para enterrá-la de vez no crânio do capitão, quando este sorriu e apontou para mim. Todos ali me encararam. “Abra a caixinha, rapaz!!!”, gritou meu capitão. As sombras peludas correram em minha direção. “Eu não sei como, senhor!!”, gritei eu. As sombras aceleram o passo com olhos de sangue... “Basta se lembrar de uma lembrança boa que você já teve.”, gritou meu capitão caindo de bruços sobre o chão. “Uma lembrança boa??”, pensei eu alto. E quando as quatorze sombras estavam apontando suas lâminas sobre mim, e eu já no chão apavorado, quase chorando, eu me lembrei, como se fosse um relâmpago de imagens: eu me lembrei que mesmo órfão, não conhecendo o meu pai e nem a minha mãe, eu tive muitas pessoas que cuidaram de mim até ali. Eu me lembrei da tia gorda que sempre me dava de comer, eu me lembrei do sujeito manco que me ensinou a pescar, eu me lembrei dos colegas de rua que, apesar das dificuldades do dia a dia, sempre dividiam comigo o pouco dos restos de comida que eles arranjavam, eu me lembrei de tantos outros me ajudaram a sobreviver até ali e, claro, lembrei do capitão que tinha salvado a minha vida... Nisso, uma força impressionante, emanada de dentro da caixinha recém aberta, sugou todas as sombras assassinas ao meu redor. O lugar começou a desmoronar. E eu fui tomado por um vórtice dourado que ia de encontro ao teto da caverna! Antes de desaparecer além, pude ainda ver o corpo do capitão Barba Púrpura estirado no chão... Num piscar de olhos, me vi nos céus sobre a ilha. Lá do alto, pude ver o Valentina Quebra Ossos sendo atacado e envolvido por uma criatura gigantesca cheia de tentáculos prateados... Eu pairava sobre a ilha e, de repente, ela começou a ser engolida por um redemoinho assustador de enorme! A ilha desaparecia e desaparecia rapidamente, engolida totalmente pelo redemoinho. Este também tragava a criatura de tentáculos e os restos do Valentina. Quando tudo, enfim, ficou calmo, eu despenquei de lá de cima. Fiquei lá boiando sobre os restos do antigo navio. Não sei bem por quanto tempo fiquei lá à deriva, eu não sentia mais o poder do tempo, eu não sentia fome ou sede, tampouco frio ou calor, eu não sentia mais nada, nem mesmo a caixinha de Barboza eu sentia mais em minhas mãos... Lembro vagamente de outro navio pirata me resgatando e d’eu contando essa história a eles. Lembro que pedi a eles para me deixarem na próxima parada. E estou aqui desde então. Trabalhei, prosperei e constitui família por aqui. E, se não disse antes, digo agora o porquê de tanto interesse que tanta gente tem em ir atrás da caixinha de Barboza. Digo que não é mais uma lenda, é a pura verdade, quem a encontra acaba se lembrando da real felicidade. O Barboza da tal caixinha foi o primeiro cara realmente feliz deste mundo e, pouco antes de partir para o outro mundo, ele reuniu essa pura felicidade na tal caixinha. O capitão do Sorriso de Hiena foi um de seus subordinados. E o meu capitão da Barba Púrpura também o foi. Descobri isso tempos depois. Curioso, não?

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