terça-feira, 20 de outubro de 2015

O DIA DO POETA

Ouvi dizer que hoje é o dia do poeta. Que absurdo! Poeta que é poeta não tem dia, tem dias. Uma vida inteira dedicada à poesia não se pode ser comemorada em um único dia. A poesia em si transpõe o tempo e, o poeta, esse agente que a pratica diariamente, se não se torna igualmente eterno, chega perto, mesmo sendo de carne perecível. Por isso, sendo um reles pegador de rabeira no cometa que é a ideia-poeira cósmica da humanidade, ele, o poeta, não merece um dia só para ele. Sinceramente? Poeta não merece dia algum sequer! Poeta é párea da sociedade, é um inválido, um vagabundo! Você aí se lembra do último poeta que você leu? Claro que não! Quem em sã consciência se atreve a ler poema nos dias de hoje? Quem produz, lê, compra e vende livros de poesia é um transgressor, um outsider, um marginal. Hoje em dia, a poesia está nos muros, nas calçadas; a poesia está pichada no meio da rua da sua casa. Quem vive de poesia não vive realmente. Os poetas de hoje são mendigos mortos de fome! Os grandes poetas ainda lidos estão mortos. Quem aí conhece um poeta vivo? Se hoje é o dia do poeta, cadê o feriado? Vai dar praia? Claro que não! A poesia não lhe dá essa satisfação. Neste dia do poeta, o que deve ser feito? Haverá fogos de artifício ou gente em frente a palcos empunhando isqueiros? Não. Neste dia do poeta não haverá nada demais. É um dia qualquer como são todos os que passam a cada estação. Hoje não se ganha presente e tampouco se ouve um sonoro parabéns. No dia do poeta, quem ganha a fama e a grana são todos aqueles que enveredam para outras bandas e bolsos... Dia do poeta é a mesma coisa, tem o mesmo sentido em dizer que hoje é o dia de deus. Viu? Não há o menor sentido numa coisa dessas.