sábado, 19 de agosto de 2017

A CHANCE

Ele está lá fora. Pronto pra me pegar. É só eu pôr os pés na rua que ele vem e me pega. Não quero sair. Mas devo. Penso em sair correndo. Talvez eu tenha melhores chances, afinal, ele não é de correr. Porém, tenho medo. E o medo me paralisa. Não sei se vou conseguir correr. Mesmo aqui, escondida, sinto a paralisia, o medo me congela toda. Droga! Eu tenho que sair daqui. Não dá mais. As que ficam direto aqui, já estão desconfiando. Vou sair. Vou correr. Minha vida depende disso. Enfim saio. Olho ligeiro para todos os lados e, ainda com medo, corro. Desembesto em pêlo pela rua, mas, antes de terminar a primeira quadra, eu o vejo surgir de braços abertos e sorriso largo meio vil, pronto pra me pegar e me levar de volta pro canil.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O LATIDO

Ao me deitar, para enfim dormir, eu sempre ouvia ele, o cachorro do vizinho, latir. Não importava o horário. Mais cedo ou mais tarde, ele, o cachorro, sempre latia. O latido em si não me incomodava. Ao contrário, achava esse fato muito curioso e até mesmo brincava, comigo mesmo, que o latido do cachorro do vizinho era uma espécie de alerta, uma espécie de chamado sobrenatural para algo específico da minha vida. Então, todo dia, com a cabeça no travesseiro, eu imaginava o que poderia ser esse tal alerta. Eu me entregava à especulação imagética, todo dia, antes de dormir. Era divertido isso. Só dormia bem assim. Contudo, um dia, o cachorro não latiu, tampouco no posterior e nos demais seguintes. Fiquei muito preocupado com isso. Meu sono não foi mais o mesmo. Era aterrorizante me deitar sem o latido do cachorro do vizinho, o silêncio era sepulcral. Não me aguentando mais de angustia, fui, pessoalmente, na morada do vizinho perguntar do cachorro. Desse vizinho, eu nunca soube nada, nem nunca o tinha visto vivo. Bati três vezes na porta e ela se abriu num grito coletivo: VAMPIRO!!!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A ÚLTIMA

À meia-luz enfim ela vem, caminhando, a passos lentos, próximo ao meu leito. Não a vejo sorrir ou chorar, a burca negra lhe cobre a face, e o corpo anoréxico de outras misérias. Tento lhe dizer alguma coisa. Talvez um último pedido ou clemência, mas a sua foice me rasga que nem corte de papel.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

TIA SULEIKA

Tia Suleika tinha fama de alcoviteira. Nos tempos da juventude, diziam que ela chegou a namorar sete mancebos ao mesmo tempo. Também se falava, à boca pequena, que a tia teve um grande amor proibido. Desse, não se fala muito. Suas amigas, que sobraram, tocam, mas enceram logo o assunto. A fama de biscate é mais divertida quando se dão as parcas visitas. Todavia, tia Suleika sempre chora quando lê ou assiste a Otelo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ME SINTO UM PANACA QUANDO...

Leio os comentários de uma matéria/crítica jornalística


Vejo vídeos fofinhos de pets na net


Ouço o som alto e tosco do vizinho


Respondo que “não sei”
ao ser perguntado
aonde fica tal lugar/rua
estando eu bem próximo desse/dessa


A cerveja que peço vem congelada


Sinto o cheiro de merda
Bem próximo de casa


O mesmo pedinte,
Todo dia,
Me pede um trocado


Não me dizem “obrigado”


Me perguntam se eu estou bem


Não me respondem nada
Na vez d’eu perguntar


Provam que eu sou um idiota


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

DÁ VERGONHA

Quando alguém
mais exaltado/a
começa a falar de política
do seu lado

Quando um/a amigo/a seu/ua
faz uma piada idiota
denegrindo uma etnia
ou uma classe social

Quando o/a chefe
te cobra
por algo que
nem mesmo ele/a
faz

Quando você é pego/a fazendo merda
ou tentando escondê-la

Quando alguém te faz
elogios falsos

Quando a única coisa sensata a fazer
é ficar calado/a
ouvindo um/a idiota
falando merda
o dia inteiro

Quando alguém é sincero contigo,
pois franqueza
é coisa rara
hoje em dia

Quando alguém é gentil contigo,
pois gentileza
também é coisa rara, viu

Quando admitimos que
estamos errados,
pois nós,
reles “serumaninhos”,
somos orgulhosos pra caralho

Quando esquecemos
algo importante
pra alguém
que amamos

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

DO FAZER NADA, SAI POÉTICO

quero fazer alguma coisa,
mas eu não consigo,
pois a ideia não está clara
o suficiente
acho até que não tem ideia nenhuma,
apenas uma caneta sobre
uma folha em branco suja

garranchos mal desenhados
no papel lembram
bagunça de bordel

tudo é assim tão caótico
que chega a ser hipnótico

a ideia branda não vem,
mas um poema
mesmo assim
se fez

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

SINDICATO DOS LADRÕES

Ata do dia:
Garantir a permanência inequívoca
Do atual presidente até última
Instância sem que o parecer
Pareça uma tramoia arquitetada
Única e exclusivamente para esse fim.

Resultado parcial:
Os correligionários de mãos
Devidamente lavadas
Assegurarão o cargo
Do atual acima mencionado
Por meio de emendas parlamentares
Bilionárias assinadas por ele à luz do dia.

Faltará apenas o teatro burocrático no plenário.

Aguardando parecer favorável...