domingo, 14 de fevereiro de 2010

Fragmentos do cotidiano (3)

A desgraçada não dava folga. Mesmo espremidos no trem lotado, Ela o segurava pelos bolsos da calça. A despudorada ainda demonstrava pudor: só roçava suas unhas cumpridas e vermelhas nas coxas da vitima, evitava a região pulsante... Só pra provocar, era óbvio! O sorrisinho cínico e malicioso se exibia na sua face alva, discretamente maquiada. Tinha um semblante angelical, mas um desejo dos diabos! A vitima sorria também, queria ir à desforra com a descarada. Sentia-se no direito irrevogável, afinal, não fora Ele quem começara. Era inocente. Com o braço direito mantinha o seu corpo ereto, com o esquerdo abraçava o dorso da amiguinha e a mantinha ereta também, apenas por consideração, entendes? Estavam firmes! Não poderiam cair. As “turbulências” eram freqüentes: corpos suados se encostavam, balançavam de um lado a outro do vagão-forno; calores alheios sentidos; secreções pegajosas trocadas; e um casal, no meio, acasalando... As janelas embaçaram tão rápido!

Chegando à estação, Ela se virou, ficou de costas para a vitima (ai!). Ajeitou o cabelo negro, liso e desgrenhado; com a nuca à mostra, podiam-se ver os salpicos de suor reluzentes (ui!). Ela ajeitou a blusinha, ajeitou a calça jeans clara e apertada com rapidez e de forma bem elegante até (ai!). E foi embora. Não olhou para trás (ui!).

Quanto a vitima, esta ficou lá, parada, admirando o requebrar generoso de seu algoz.

Não trocaram palavras, nenhuma, juro! Não precisaram (ou não queriam), acho. Não houve nada, apenas uma impressão.