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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE IV_VENIDAS_CAPÍTULO XL

"... acariciou a barriga inchada..."

Omotep sorriu ao perceber que era Adrian que vinha de encontro a ele a sua frente. Mas, ao ver Baal sobre ele, Omotep entristeceu um pouco, como se ao ver Baal, ali pairante, uma lembrança antiga e triste retornasse a ele e o tomasse de todo. Adrian reconheceu Omotep. Um turbilhão de memórias adormecidas despertou de uma vez só na sua cabecinha faminta. Adrian foi ao chão rapidamente e se contorceu todo entre os trilhos, estava sofrendo de alucinantes convulsões. Omotep correu de encontro a ele para ampará-lo. Baal assistia à cena e não demonstrava espanto ou dó. Lentamente, os olhos de Baal perceberam uma luz fraca cintilante no coração de Omotep. O brilho da última Quindjin lhe despertou então para um passado recente e para outro muito mais antigo. Baal foi pousando devagar... Encostando, lentamente, as patas e os joelhos peludos numa guia de cruzamento. E ali, de joelhos, Baal começou a verter sangue negro dos olhos; com uma garra acariciou a barriga inchada e com a outra acariciou as tetas.

sábado, 30 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE IV_VENIDAS_CAPÍTULO XXXIX

"..."

Heliópolis fora invadida, tomada por sangue e caos. Jarbas & Ketlyn e Fenrir tocaram o terror. Lucius e seus guerreiros armados com armas tecnológicas de ponta não resistiram muito contra as feras. Lucius pereceu na boca torta de Jarbas & Ketlyn. Mauro foi estraçalhado numa bocada só de Fenrir. Nahin conseguiu fugir. Só se ouvia sua respiração agoniada pelo vale escuro e desértico... Do outro lado do planeta, Adrian caminhava sobre velhos trilhos de trem. Baal lhe sobrevoava a cabeça, curioso em saber aonde acabaria aquele caminho de ferro enferrujado. Adrian caminhava devagar, parecia estar muito cansado, faminto, mas, por alguma razão, até por ele desconhecida, continuava andando sem parar. Andou tanto até que viu uma sombra esguia expandida pela luz da lua vermelha, era Omotep que vinha vindo, no mesmo ritmo, do lado oposto da antiga linha de trem.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE IV_VENIDAS_CAPÍTULO XXXVIII

"..."

Galgameth havia se dividido em dois. Ele enfrentou Jarbas & Ketlyn e a coisa que fora Fenrir ao mesmo tempo. Galgameth teve dificuldades, afinal sua força fora dividida e, ainda, enfrentava adversários potencializados geneticamente. Era pedra contra carne. Eram detritos e sangue pra tudo quanto é lado! Era um inconsciente consciente contra a fome bruta persistente. O duelo de titãs era visto pelos moradores de Heliópolis. Todos que ficaram de vista na estrada/saída da cidadela estavam perpetuando pânico geral. Galgameth estava virando pó e, mesmo do pó, ele não conseguia se regenerar, se solidificar. Jarbas & Ketlyn e Fenrir Albino absorviam sua poeira pelos seus próprios poros. Lucius não sabia o que fazer. Seu sonho vinha a ele travestido de medo, pânico e terror. Galgameth fora eliminado; e o mundo de fora veio a Lucius, e a seus súditos, cobiçando sangue e carne fresca.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE IV_VENIDAS_CAPÍTULO XXXVII

"..."

Jarbas & Ketlyn presenciaram as execuções. Ele & ela assistiram a tudo com gosto e muita satisfação. O plano hormonal havia dado certo. Muito sangue humano escorria próximo à entrada/saída de Heliópolis. Para ele & ela bastava beber desse sangue inocente e forte para enfim enfrentar de vez o autômato de pedra. Jarbas & Ketlyn partiram pro embate. Enquanto isso, Fenrir passava mal. Uióp não tinha lhe caído bem no seu estômago. Fenrir estava tremendo todo e ficando pálido, parecia até que Uióp estava lhe tomando o corpo... Seu pêlo negro-acinzentado estava ficando todo grisalho, esbranquiçado. Seus olhos amarelos de fome braba estavam ganhando tons avermelhados. Fenrir enfim experimentava a Fusão de Personalidade. Fenrir estava absorvendo os desejos sanguinários de Uióp. Fenrir se tornou outra coisa, que também desejava enfrentar Galgameth.

sábado, 23 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_WIZZ, XANDÃO, YUKI E ZARAMADAN_CAPÍTULO XXXVI

"Zaramadan conquistara o planeta inteiro..."

Tempos sombrios se estenderam por eras de trevas. Soberano morria. Os humanos remanescentes, que sobreviveram, se comiam ou eram devorados por demônios da fome esfomeados. Anjo algum os ajudava. Os seres alados tinham os próprios fardos... Terra fértil e água potável foram ficando escassos. Ar poluído e/ou em chamas dominava. Wizz e Yuki fizeram bem os seus trabalhos e foram consumidos por seu mestre. Zaramadan conquistara o planeta inteiro praticamente. Mas a lua vermelha, lá de cima dos céus cinzentos, fazia a sua vigília incessante. Seus raios alumiavam os que também teimavam em sobreviver, sejam eles humanos, anjos ou demônios. A lua vermelha estendia seus raios a todos. Zaramadan foi se enfraquecendo, perdendo terreno. A luz vermelho-sangue se intensificava cada vez mais quando se dava o alinhamento celeste dos três sóis de Soberano. Seus habitantes chamavam, e ainda chamam, esse raro alinhamento de Venidas.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_WIZZ, XANDÃO, YUKI E ZARAMADAN_CAPÍTULO XXXV

"Xandão se faz lua vermelha radiante nos céus."

Xandão era o amor corporificado no calor. Seu ar quente aquecia as almas dos infelizes, dava esperança e gerava vida. Xandão sempre fora isso, uma parte de Zaramadan que não seguia sua sina. Xandão era a vida que vinha depois da morte. Apesar dos humanos estarem acabando consigo mesmos e com o próprio planeta, Xandão teimava em protegê-los. Se Wizz e Yuki vinham em sinal de desgraça anunciada, Xandão se sobrepunha a eles em sinal de bonança grata. Porém, os humanos eram devotos fervorosos de Zaramadan. E esse, como um deus benevolente e fiel, perpetuou a morte em sua pior forma – a fome. E foi assim que se deu a quase aniquilação humana. Os humanos se matavam e levavam consigo o próprio planeta onde residiam. Os humanos escreviam o próprio e fatídico destino. Xandão, um dia, percebeu que, o que fazia, à revelia, não satisfazia. Zaramadan se estendia por todo o planeta, graças a Wizz e Yuki. Então, num grande e demorado suspiro, Xandão virou satélite. Tudo que ele fora, representava e acreditava se pôs em órbita do planeta Soberano. Xandão se faz lua vermelha radiante nos céus.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_WIZZ, XANDÃO, YUKI E ZARAMADAN_CAPÍTULO XXXIV

"Wizz trouxe Yuki..."

Tudo veio ao fim numa suave brisa. Era um dia qualquer como são todos. Tempo e hora não eram importantes. A brisa precedeu o vento, que veio faceiro atingindo as faces flácidas e despreocupadas dos habitantes de Soberano. O vento se intensificava, se tornava algo mais sólido e distinguível. O vento tinha a própria vontade, que era corporificada por Wizz. Wizz era o tudo ao redor, era o ar que estava dentro e fora dos seres de Soberano. Wizz era o prelúdio do fim. Wizz trouxe Yuki, que nada mais era do que uma versão mais fria dele mesmo. Yuki era o Inverno Eterno, causado, ironicamente, pelo aquecimento interno. Wizz e Yuki eram os arautos da morte; eles eram os braços e as pernas de Zaramadan. A era dos seres humanos em Soberano estava chegando ao fim. Sua ruína eminente foi alertada, porém, a mesma foi a muito ignorada. Os humanos dificilmente creem em si ou em outros da mesma espécie. Contudo, havia um de todos que teimava em acreditar nesses tolos, seu nome era Xandão.

sábado, 16 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_UIÓP_CAPÍTULO XXXIII

"Ketlyn lhe sussurrou..."

Uióp estava assustado. Nunca sentira algo parecido de si vindo de Ketlyn. Ele sempre a imaginou igual a todos os outros anjos que viviam em Safir. Uióp foi pego de surpresa. Ketlyn lhe sorriu um sorrisinho sapeca, como se uma ideia faceira e mortal lhe passasse pela virtuosa cabecinha. Ketlyn estendeu os braços e tocou, com suas mãos macias e límpidas, o rosto desfigurado e côncavo de Uióp. Ketlyn aproximou seu rosto ao de Uióp, parecia que ia lhe dar um beijo, mas seus lábios rosados se aproximaram da orelha esquerda de Uióp. Ketlyn lhe sussurrou: “Vá, meu arauto assustado. Vá se saciar. Alimente sua fome assassina pela carne alva de seus semelhantes. Devore a todos com muito gosto. Não deixe que escape nenhum anjo tolo. E, depois que se sentir coberto de sangue celestial, caminhe sobre os restos de suas vítimas; caminhe sobre esses que, mesmo desconfiados de ti, te trataram como igual; caminhe solitário até a borda e se lance de Safir de vez. Caia como meteoro sobre a terra que definha e vá aplacar a sua fome no último reino fértil desse planeta de miseráveis.”.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_UIÓP_CAPÍTULO XXXII

"Uióp vivia solitário no reino de Safir."

Uióp vivia solitário no reino de Safir. Ele sentia o que ninguém sentia por ali – ele sentia fome de anjo. Desde pequeno fora assim, ele não entendia bem o que era aquilo que ele sentia dentro de si. Uióp comia as plantas-fluorescentes do lugar, ele se alimentava de ar, mas sentia que aquilo não era certo, nem suficiente, seus dentes perolados formigavam por algo mais... Às vezes, ele ficava na borda de Safir, imaginando como era aquela terra desolada abaixo de si, que todos ali, ao seu redor, lhe descreviam tão assustadora e chorosamente. Uióp ouvia essas histórias e ficava maravilhado, ele sentia mais fome a cada relato ouvido. Ketlyn era a criatura celestial que mais lhe agradava ouvir. O papo com ela fluía bem e seguia rumos inesperados. Mesmo recluso, Uióp sempre tinha ouvidos para Ketlyn. Foi no alvorecer da sua maturidade, que Uióp confessou seu gosto profano à Ketlyn. Essa lhe segredou também o mesmo desejo.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_UIÓP_CAPÍTULO XXXI

"... um sinal de mau presságio..."

Uióp nascera sem sexo. Os anjos de Safir tinham sexo definido, eles fornicavam com gosto, como todas as criaturas nascidas em Soberano. Uióp nascera sem olhos. Em seu lugar havia dois buracos negros como a noite mais escura. Uióp nascera sem cabelo e, mesmo crescendo de corpo, continuava careca. Aliás, nenhum pêlo crescia em seu corpo, Uióp era todo liso, não tinha sequer sobrancelhas, cílios ou qualquer outro cabelinho no seu esguio corpo. Os anjos de Safir não o viam com bons olhos, uns até pensavam que ele era um sinal de mau presságio, porém, mesmo desconfiados, criaram a criatura incomum como se fosse um deles – em Safir nada se mata, tudo se desenvolve. Mesmo deficiente, Uióp crescera saudável. Carente de olhos para ver, seu olfato se tornara seu guia. Mesmo sem sexo para se reproduzir e se divertir, seu tato era o mais aguçado do reino, Uióp podia sentir muito mais do que simples toques angelicais, Uióp podia sentir o cardápio saboroso ao redor de si.

sábado, 9 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_SAFIR E TRÔNUS_CAPÍTULO XXX

"A fenda explodiu em forma de vulcão."

Criaturas bizarras foram se amontoando, se consumindo nas entranhas rochosas do planeta Soberano. Magma e trevas começaram a galgar espaço em direção à superfície. Calor e sangue se expandiram em combustão. A fenda explodiu em forma de vulcão. Criaturas sinistras, horrendas e famintas emergiram aos montes – o formigueiro, enfim, tinha ganhado a superfície. Os demônios se espalharam à caça desenfreada por carne humana e de outros seres-vivos que respiravam. Após a grande erupção, Trônus se tornou um lugar quase deserto, poucos demônios se mantiveram ou voltaram para lá. A Grande Fenda não tinha muito a oferecer. O planeta Soberano inteiro, mesmo em ruínas e em desespero, ainda era melhor opção de saciamento. Safir ia se desenvolvendo, prosperando, porém, nem a vida no Paraíso dura para sempre, Uióp tinha nascido, sem cabelo, olhos e gênero.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_SAFIR E TRÔNUS_CAPÍTULO XXIX

"Safir se enchia de anjos enquanto Trônus borbulhava de proto-demônios."

Coisinhas cintilantes cintilavam sobre a nuvem que era Safir, organismos celestes começavam a ganhar forma conforme a nuvem ganhava mais e mais altitude. Criaturas aladas foram se formando, se organizando em comunidades. Safir parecia próspera, os seres que lá se criavam se alimentavam de ar e plantas-arbóreas - a nuvem se solidificara ao ponto de desenvolver a própria flora-fluorescente num terreno flutuante sobre os desertos de Soberano. Safir, nesse período, era o verdadeiro Paraíso! Lá, não existia morte, o reino era de vida, um reino pairante sobre a desgraça advinda. Safir se enchia de anjos enquanto Trônus borbulhava de proto-demônios. Trônus se desenvolvia diferente, lá, os seres se comiam, se devoravam cientes da sua ruína. Um reino de sangue sujo e magma se foi formando nas profundezas do planeta.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_SAFIR E TRÔNUS_CAPÍTULO XXVIII

"... separando em dois aquilo que sempre fora um só."

Reino algum surge do nada. Safir e Trônus sempre existiram. Porém, quando a fome se tornou uma constante, as paragens ocultas abaixo do solo se revolveram quando esse solo se tornou infértil. Safir e Trônus eram um todo compartilhado, um algo unido em simbiose que crescia e se desenvolvia junto, uniforme. As movimentações das placas tectônicas ocasionaram uma ruptura, separando em dois aquilo que sempre fora um só. Uma parte decaiu mais a fundo no núcleo do planeta, sofrendo pressão e danação constantes; a outra parte desprendida se deparou com um amontoado de gases compactados sob o solo empobrecido e foi ficando cada vez mais leve, desprendida e livre da terra-mãe-morta. Safir surgiu num gêiser ácido a quilômetros de altura numa nuvem efervescente de esperança. Trônus se foi gerando coberto de magma, rancor e trevas.

sábado, 2 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_PÉTROS, QUINDJIN E RASTAFANNY_CAPÍTULO XXVII

"O espaço interno era amplo..."

Pétros e Rastafanny salivaram ao mesmo tempo ao verem a Quindjin. A baba de ambos tornava a cena a mais nojenta já vista, pois os dois estavam empapados de sangue e secreções deles mesmos e dos seres mortos por eles até ali. Já o cenário interno tinha outro aspecto. O espaço interno era amplo, dava para ver que alguém, ou coisa, utilizava aquela caverna como uma moradia de guerra – poucos objetos e instrumentos não muito distantes um do outro para serem recolhidos às pressas e de uma vez só. A última Quindjin estava repousada numa espécie de ninho improvisado com panos velhos e encardidos sobre um pequeno altar de sucata igualmente improvisado, mas, aparentemente, estável. Pétros e Rastafanny adentraram na caverna correndo. Pegaram na última Quindjin ao mesmo tempo. E ficaram se estranhando... Um olhando torto para o outro. Suas armas eles sacaram logo; lançaram, um no outro, projéteis sujos e enferrujados de munição. A luta corporal foi feia e sem moral – eles se mutilaram brutal e rapidamente quando as balas se extinguiram. Pétros e Rastafanny se mataram sem dó. Durante a luta, e até a morte, não perceberam Omotep, espremido e trêmulo, enfiado no teto.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_PÉTROS, QUINDJIN E RASTAFANNY_CAPÍTULO XXVI

"Trônus era a fenda..."

Próximo a Trônus, Pétros e Rastafanny foram. Trônus era a fenda por onde os primeiros demônios da fome saíram desembestados, ávidos por carne humana ainda em pânico. Essa fenda era a passagem subterrânea que dava acesso ao Reino dos Demônios. Por lá, Pétros e Rastafanny se meteram. Eles não tinham medo de demônios. Os dois já tinham eliminado vários durante vários anos. Entre pedras e cavernas eles se enfiaram. Os humanos, os anjos e os demônios que trombavam com eles eram rapidamente assassinados e deixados ao léu – os dois estavam empenhados em conseguir logo a última Quindjin que se tinha notícia. Na cabeça de cada um, desejos gastronômicos despudorados povoavam-nas avidamente num turbilhão crescente de gula e fúria. Numa caverna toscamente encoberta por tralhas de um passado moderno extinto, eles encontraram, solitária e de brilho fraco, a última Quindjin.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_PÉTROS, QUINDJIN E RASTAFANNY_CAPÍTULO XXV

"Aí o desejo individual falou mais alto na pança grotesca de cada um."

Quando se vive com fome, pouca coisa importa além disso. Quem tem fome, quer matá-la logo; quem tem fome, só pensa em se saciar, se empanturrar de vez. Pétros e Rastafanny eram homens desse naipe. Guerreiros que eram, rondavam os desertos de Soberano caçando, torturando e executando pessoas para aplacarem sua fome de carne e sangue humano. Os dois tinham certo parentesco, porém não tocavam muito no assunto. Eles só queriam continuar matando e devorando a carne e os ossos dos coitados que iam encontrando. Esses dois até que eram bem unidos, dividiam igualmente as carcaças e as tralhas que sobravam de suas vítimas. A relação de ambos só se complicou mesmo quando eles souberam da existência de um Quindjin. Aí o desejo individual falou mais alto na pança grotesca de cada um.

sábado, 26 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_OMOTEP_CAPÍTULO XXIV

"Quindjin era uma jóia."

Quindjin era uma jóia. Antes da quase aniquilação humana, tal preciosidade era bastante comum entre as civilizações desenvolvidas, ou não, de Soberano. Quindjin era uma jóia dos desejos. Somente os reis, rainhas, chefes de estado, enfim, somente os líderes tinham a permissão de utilizar o Quindjin para saciar a fome dos seus subordinados. Era esse maioral que determinava quais tipos de comida eram mais ideais para manter uma vida alimentar saudável dessas pessoas de sua responsabilidade. Quindjin era a graça da fartura, da multiplicação em tempos difíceis que cabia na palma da mão. A jóia só poderia ser usada em último caso, em uma situação de extrema urgência. Quem a utilizava para fins egoístas e/ou para prejudicar a saúde alimentar dos que tem fome, perdia a Jóia Amarela da Boa Refeição para sempre. Infelizmente, milhares de Quindjins se perderam. Muitos ditos líderes se corromperam diante da necessidade extrema de muita fome. A fartura e o tempo de barriga sempre cheia tinham chegado ao fim. Omotep caminhava sozinho sobre o deserto com o último Quindjin em seu peito. De repente, tropeçou num troço coberto pela areia, era um trilho antigo de trem.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_OMOTEP_CAPÍTULO XXIII

"Omotep caminhava sozinho pelo deserto."

Há quem coma de tudo e se sinta muito bem, há quem não come de nada e se sinta muito mal e há quem nunca comeu nada de tudo e se sinta inexplicavelmente normal. Omotep caminhava sem fome pelo deserto. Ele também não sentia sede. Omotep era um velho seco sem estômago. Já havia muitos anos que ele vivia. Omotep vinha de antes de tudo. Até antes do nada ele vinha. Seus semelhantes humanos, quando o avistavam passar, avaliavam-no e chegavam a mesma conclusão: “Velho demais. Não deve ter carne de valor ou qualquer coisa que nos sirva de alimento.”. Os demônios da fome o ignoravam. Os anjos com asas e os caídos também. Omotep era o excluído, o destinado a ver o começo, o meio, o fim e o recomeço de tudo, de novo, de novo e de novo, sem descanso. Omotep caminhava sozinho pelo deserto, vendo as ruínas do que antes era o retrato fiel da vida. Omotep só via morte ao seu redor, mas, dentro de si, Omotep carregava em seu coração a última Quindjin.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_OMOTEP_CAPÍTULO XXII

"Omotep não tinha fome."

Omotep era um ancião, era um velho, muito velho, de aspecto abatido, cansado, mas de olhos verdes muito brilhantes. Omotep era nômade, assim como a maioria dos humanos ainda vivos, ele vagava a pé pelo grande deserto que era o planeta Soberano. Ser velho em um mundo de fome é algo louvável e inconveniente. Quem atingia avançada idade, sem dúvidas, lutara e matara adoidado e, justamente por essa quantidade absurda estimada de mortes e assassinatos nas costas, era o que tornava a velhice um estágio desagradável. Ninguém, num planeta de miseráveis, via com bons olhos um velho decrépito perambulando a pé por aí. Omotep caminhava só pelo grande deserto tóxico. Porém, sua saúde era perfeita. Mesmo utilizando um pedaço de pau como bengala, Omotep caminhava firme, sem pressa sobre a areia vermelha. Omotep não tinha fome. Omotep, aliás, nunca tinha sentido fome em toda a sua vida. Omotep era um velho sem estômago.

sábado, 19 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_LUCIUS, MAURO E NAHIN_CAPÍTULO XXI

"... e levou, ele mesmo, milhares..."

Nahin era só. Mesmo não passando fome, sentia um grande vazio por dentro. Desde sempre queria sair de Heliópolis. Ainda bebê gigante, tentou fugir de gatinhas da cidadela. Quando Galgameth começou a se materializar próximo dela, Lucius, um rapaz vivaz ainda muito jovem e guerreiro, conseguiu, num instante, puxá-la de volta para dentro da montanha. Príncipe Lucius adorava montar guarda na saída/entrada de Heliópolis. Vira e mexe via Galgameth impondo sua incansável programação. Ele, assim como Nahin, alimentava a mente e o coração com o desejo de ver o mundo de fora. O paraíso interno não era suficiente para eles. Quanto a Mauro, esse gozava muito da fartura alimentar da cidade-abrigo. Mesmo não crescendo em altura, sua barriga era imensa, bem maior do que sua cabeça. Mauro não abriria mão do seu bem-estar facilmente, por isso, selecionou, sentenciou e levou, ele mesmo, milhares de idosos, homens inválidos e mulheres ainda grávidas à execução. Galgameth foi previsível.