Em
zonas francas, você o vê mendigando ofertas. Parece necessitado, mas não é. É o
típico brasileiro querendo levar vantagem em tudo. Até quando doa, pede
desconto. E quando avista algum defeito no produto comprado a prazo, liga de
imediato no SAC e exige um produto novo. Ele não é bobo. Consumidor se fez há
muito tempo. Torcemos para que um dia vire um cidadão também.
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
terça-feira, 15 de agosto de 2017
TIA SULEIKA
Tia
Suleika tinha fama de alcoviteira. Nos tempos da juventude, diziam que ela
chegou a namorar sete mancebos ao mesmo tempo. Também se falava, à boca
pequena, que a tia teve um grande amor proibido. Desse, não se fala muito. Suas
amigas, que sobraram, tocam, mas enceram logo o assunto. A fama de biscate é
mais divertida quando se dão as parcas visitas. Todavia, tia Suleika sempre
chora quando lê ou assiste a Otelo.
terça-feira, 27 de junho de 2017
MÁXIMAS DE SUICIDAS FRACASSADOS
Pule da ponte
E ganhe um hematoma
Nunca, jamais
Corte os próprios pulsos
Se você é e tem pet diabético
Se jogar nos trilhos
Pra pegar o celular
É mais comum do que se imagina
Andar de bike
Em SP
É pedir pra morrer
Ou pra ser roubado
Dar um tiro
Na cabeça
Só dá certo
Quando a arma
Tem o número de série riscado —
Arma legal não atira
Arma branca
Lado negro
Cabeça de pudim
Se queres morrer
Na praia
Que seja depois do feriado
Andar a pé
À noite
Não é perigoso,
Perigoso é dormir
Na rua
À noite
Se queres morrer logo,
De imediato,
Basta ligar a TV
Em um dia de domingo
Cicuta vencida
Só dá dor de barriga
Quem se mata
No horário de pico
Só atrasa a vida dos outros
Toda vida importa,
Até alguém
Com dinheiro
Aparecer e embargá-la
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
MEDUSA NÃO USA WI-FI
Passava o dia inteiro de olho nele, querendo saber tudo a seu respeito. Se tinha dinheiro, se era popular, se era bom-partido. Até que um dia, enfim, ele a olhou de volta. Celular dela se desligou e nunca mais se deixou ligar. Ela não era 4G.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
SUSSUARANA
Posava nua todo dia. Os vizinhos sempre a viam de
calcinha e toalha molhada pela janela escancarada da sala. No prédio, era a
mais falada, julgada e admirada. Seu apê vivia cheio de gente. Via-se com
frequência homens e mulheres, muitas mulheres, em seu recinto. Amizades
coloridas batiam ponto. Porém, um dia, ninguém a viu mais no condomínio. Sua
janela estava fechada há dias! Houve certa comoção e alívio por parte da geral,
quando o comunicado foi oficial:
“A Senhora Josefa de Aguiar Venâncio, do 7104, teve um
derrame e seu corpo será velado no Cemitério do Araça, dia 06 próximo, às 09h”.
Dona Josefa tinha 84 anos.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Hora da Verdade, no Horário de Brasília
Fez que não tivesse visto nada. Ao notar as notas a mais
em sua mão, saiu do recinto com um sorrisinho maroto nos lábios finos. Na rua,
pensou que tinha se dado bem, quando, de surpresa, deram-lhe uma rasteira e
tomaram-lhe a carteira.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Caminhos opostos, cruzados ao acaso, desatam em pequenas flâmulas
Ele vivia em um mundo de irresponsabilidades. Ele
tomava uma quase todos os dias da semana. Ele não dava fôlego pro fígado e nem
pra família. Ele preferia curtir a vida. Ele pegava todas pra se dar bem na
fita. Ele só fazia aquilo que se sentia bem; só fazia o que tinha de fazer se
visse vantagem no processo todo – ele não queria viver uma vida de estorvos.
Mas então, num belo dia, conheceu aí uma guria. Essa passava todo dia em frente
à sua casa; passar por ali era o seu caminho de todo o santo-dia a seu serviço.
Papo rolou, saíram, moraram juntos e tiveram dois filhos. Ele enfim se sossegou
e ela, bem, ela mudou de rumo.
segunda-feira, 30 de março de 2015
"Foi só uma raspadinha"
Não tinha muito a fazer e a gastar. O Bochecha resolveu tentar, arriscar é se pôr no lugar, dizia ele. "Vai que a sorte aparece assim num instantinho, só raspando, freneticamente, a minha moeda na chapa dela?". O Bochecha esfregou, esfregou bem e ganhou logo o maior prêmio: virou pai de trigêmeos.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Rolo desenrolado
Eu nunca disse "adeus". Eu sempre dizia "até breve". Porém, teve uma que não pude dizer uma coisa nem outra. Ela me fazia bem me fazendo mal, entende? Então, disse-lhe "fica". Mas ela se foi sem ao menos me dizer "sinto muito".
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Correndo atrás do sonho
Acordei
às sete. Levantei às sete e vinte e sete. Tomei café às oito. Saí às oito e
vinte. Cheguei atrasado antes das dez – meu horário é às nove e meia. Trabalhei
até às catorze. Repousei das catorze às quinze. Voltei a trabalhar a partir das
quinze e fui, direto e sem intervalo, até às dezenove. Deixei o trampo às
dezenove e trinta. Cheguei em casa quase às vinte e uma. Jantei às vinte e uma
e trinta e sete. Fui dormir antes da meia noite. Mas e o sonho? Ele continua transparente
e muito além à minha frente.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
"Tudo furto do meu trabalho"
Era uma vez, um país aonde existiam dezenas de deputados que
falavam muito e muito bem. Dos quatro cantos do mundo mundano moderno, a
oratória deles era muito conhecida, discutida e estudada, do tipo "um
exemplo a ser seguido" sempre, sabe? Esses deputados gozavam de muitos
privilégios nesse tal país; eles tinham tudo e todos à mão, sem exceção, eram verdadeiros
semideuses. O povo os adorava. O povo tinha muito orgulho de seus eloquentes deputados.
Porém, em um dia espatafúrdio de verão - um dia muito quente e de insolação recorde
-, um desses deputados cometeu um pequeno deslize fonético em seu discurso
inauguratório: "Tudo isto aqui, meu povo, é tudo furto do meu
trabalho". Aí, nem ele, e nem ninguém mais, viveu "o felizes para
sempre".
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Um homem por completo
O namoro ia bem. Os dois pombinhos se mostravam felizes e
satisfeitos consigo mesmos. Nada parecia abalar aquelas caras-metade
perdidamente apaixonadas. Mas teve um dia, fatídico dia, em que a mulher
desejou ter mais. Ela queria o lado mal do homem que lhe fazia bem, muito bem.
O homem ficou preocupado, meio abalado com o pedido da mulher. Entretanto,
cedeu aos desejos de sua amada. E, mesmo violentada, cheia de dores e
hematomas, a mulher nunca foi tão feliz em sua vida. Ela enfim conseguira um
homem por completo.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Ele não sabia de nada
"Ele não sabia do esquema. Aliás, ninguém sabia de nada.
Tudo rolava em sigilo lá nos ministérios. Somente um clube seleto de
funcionários de altos cargos administrativos tinha conhecimento da empreitada.
E mesmo esses, que sabiam, sabiam pouco, não tudo. Eu também não sabia muito...
Ele é o único inocente. Bote fé no que lhe digo! O (e)leitor não sabe de nada.
E se sabe, agora, e eu estou a me enganar, pode ter certeza que é ele o cara
que você está a procurar".
sábado, 31 de janeiro de 2015
Ramelona do rolê
Tudo pronto. Tudo certo. Vestido? Ok. Sandalhinha? Ok.
Acessórios? Ok. Maquiagem? Ok. Bolsa? Ok. Documentos, cartões e dinheiro? Ok,
ok e ok. Bora sair então? Bora! A noite na cidade grande clama por companhia
constante. Tranco bem a porta, dou duas voltas à chave e confirmo, forçando a
maçaneta, se esta está bem trancada mesmo. E está. Ponho os pés na rua. Dou
doze, treze passos e... KABRUUUM!!! Cai mó chuva sobre mim. Tudo errado,
molhado e ensopado. Volto pra casa fazendo biquinho e xingando todos os santos.
Maldita cidade do cão!!
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
SEM MORAL NENHUMA
M o r e n a
BATOM VERMELHO
Tatuagem negra exposta sobre os seios
Um copo de cerveja gelada numa mão
Um celular prata
brilhante na outra
Perninhas finas cruzadas
Pezinho que balança sozinho de impaciência –
Sem nenhum TESÃO à vista
...
bem, quer dizer,
até sua NAMORADA chegar
e raptá-la de vez da minha vi s t a
sábado, 16 de março de 2013
Um dia perdido
Deu branco. Travei. A
Inspiração não vem e eu aqui paralisado. Duro por fora e oco por dentro. Vazio.
Sem ideia. Apenas pensando/escrevendo a esmo. Sem sentido ou um destino
visível. Plausível já seria lucro, mas tô duro, insosso, infértil e
desprezível. Me falta fonte pra beber e nadar sobre. Não consigo discorrer
sobre nada. Não nado, boio. Se eu quisesse me afogar, me aprofundar, não
poderia, pois me falta matéria-prima, fonte obrigatória, mar aberto... Só mesmo
este tema que escorre escorregadio sobre as pautas, que são raias, na folha
branca do caderno ou na tela leitosa luminosa do monitor... Não vejo saída. Estou
sem saída. Só me resta esvanecer...
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
21, 22 e 23: três dias de nonsense
![]() |
| - Tá olhando o quê?!, de Mark Bridger (Foto: Grosby Group) |
Engradado
engraçado
- Ah, essas coisas desagradáveis
que deixamos de fazer para não desagradar aqueles que nos desagradam
constantemente... Por que nos reprimimos tanto assim, hein? Agradar ou ser agradável
é tão importante assim?!
Sapiência
Hoje em dia, o sapo não lava mais o
pé porque não quer, mas sim porque ele, o sapo, não tem mais dedo nenhum no pé
e na mão pra lavar o que sobrou do pé ou da mão (!); o sapo-martelo ou sapo-ferreiro sem suas indispensáveis
ferramentas de sobrevivência, ou seja, sem os seus membros, é só mais um hipster mutilado.
Alpinistas suicidas
galgando
as dobras da bota preta, logo deslizamos no jeans azul bem lavado até o quadril
largo e redondinho, ali enrolamos por um tempo, nós estávamos sem pressa;
depois continuamos subindo rumo ao topo da top, escalamos cada linha horizontal
tricotada na blusa quentinha apresentada, balançamos até a cabeça pegando
impulso no primeiro brinco longo que avistamos, de lá de cima, no cume do
crânio alisado, não tinha mais pra onde irmos, estávamos sem saída, então escorregamos
de propósito e caímos certeiro entre os belos seios(.)!(.) morremos felizes:):)
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