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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

FUI TENTAR A VIDA NO WORDPRESS

Imagem surrupiada de algum lugar da net.

Manter um blog não é fácil.

 

Ainda mais um que se pretende ser literário.

 

Boas ideias sempre vêm, já a Inspiração só aparece de vez em quando, que nem aquela visita interesseira bem na hora do almoço, ou bem na hora do café da tarde.

 

Alimentar um blog requer várias coisas. Não só isso aí dito acima. O Tempo também é um ingrediente importante. Há de se ter tempo pra fazer tudo, e disposição também.

 

E esses dois, também, andam raros, cada vez mais raros...

 

Nesta Era do Caos, a vida, a nossa vida, anda muito atribulada; fazemos tantas coisas, que as outras coisas, que também precisamos fazer, ficam acumuladas, esperando aquele tempo vago, que não temos, e, talvez, nunca teremos, pra fazê-las.

 

É complicado, né?

 

Muito.

 

Por isso, estou de mudança. Sim! Deixarei o Blogger pra tentar a vida lá no WordPress. Isso mesmo. Se até o onipresente Google deixou de cuidar do Blogger pra cuidar de outras coisas mais lucrativas, vou eu também abandoná-lo pra me enveredar no WordPress. Mas sem ganância em mente, é claro. Blog literário não dá dinheiro, sabemos bem. Quem o faz, faz por prazer, ou por pura desocupação mesmo.

 

Mas por que o WordPress?

 

Ora, como eu disse antes, o Blogger está abandonado, tá tipo o Centro de São Paulo, sabe? E é de código fechado. O WordPress não, é de código aberto e tem uma comunidade gigante, bem mais ativa. Sempre há algo de novo por lá. E renovar é preciso, certo? É tempo de renascer, como bem diz a Rede Globo aí ultimamente.

 

Bora pra lá então??

 

As novas publicações deste blog serão todas por lá a partir do mês que vem, fevereiro. Espero ver seus rostos, e novas carinhas por lá então, hein!

 

Inté!

  

sábado, 21 de outubro de 2023

"ASSASSINAR OS ASSASSINOS"


o sino toca e ninguém o ouve;

a sirene grita enquanto alguém morre;

o alarme se silencia

de-va-gar

como se estivesse com defeito

ou com a bateria fraca...

a bomba explode!

um hospital vem a baixo

e um povo inteiro também...

genocídio, carnificina, extermínio, extinção;

a Humanidade toda se esvai

enquanto os velhos de cabeça branca

continuam jogando seus joguinhos de guerra

 

— o nosso futuro é sempre de sangue?

 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

CHOROZO CHORANDO


io nô sei como avez

mai sei como nô afazêre

purque jázem a torto d’aquá

i o sabugu ribóbam acolá

 

tota a gente diz perô que kerem dizêre

mai num aguentam ouvíre tuto

aí é que io parlo mêmo, pois

num aquéro vêre hum dispois

 

a bágrima reluz feito diamantina

kando és de fato verídico

aí num tem como retruco

 

as dispois se arrefére refírico

d’alma diminuta or agiganta

i xorá chorando assim chorozo


sábado, 7 de outubro de 2023

GRANDE-ANGULAR



Em um mundo

Onde todos se debruçam

Sobre diminutas telas planas

De luz opaca enferma,

O poeta verdadeiro teima

Em olhar pra cima

E vê: o todo do mundo

Mundo novo à vista

E, deslumbrado, repleto de outra vida

Poeta sobre o que a maioria não vê

Bem ali acima das fuças

Poeta poetando resgatando o óbvio

Passando bem longe das órbitas dos umbigos górdos

E poeta de razão

Emocionando a sua própria constatação

Do que viu e ainda vê

E nesse seu constante ampliar

Pouco ou quase nada é compreendido —

Poeta do presente nem sempre é querido,

Pois ao futuro esse poeta pertence

  

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

FALSIDADE IDEOLÓGICA


põem-se na capa

o rosto

pois é conhecido

 

a cara toma toda a página

é quase um quadro 3x4

só que bem maior

 

a face é vista

de perto e de longe se mostra

 

dão muita moral pra máscara

cheia de retoques

forçosamente forjada

afinal, pra vender bem,

esconder-se dos outros e de si

é uma atividade habitual

praticamente uma questão de sobrevivência

 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

o quê o homem foi fazer na lua pois por aqui há tanto a se fazer?!



andando a pé pela rua

e vendo a vida não vivida

eu me pergunto já respondendo:

aonde está a civilidade

em meio a tanta desigualdade?

gente humana largada na rua

vivendo pior do que pet de ap

gente humana esperando a morte

enquanto muitos lutam pra viver

gente humana perdendo a humanidade

pois quem as vê já a perdeu

...

  

sábado, 19 de agosto de 2023

O QUE HÁ DE SER DO CENTRO DE SP?


        Já faz um tempo. Todos sabem. O Centro de São Paulo anda abandonado.

        Seja ali nos arredores do Terminal Parque Dom Pedro II ou, ao lado, nos arredores do Mercadão ou, mais pra cima, ali na Praça da Sé e adjacências ou, mais pra baixo, no Glicério ou, voltando, na Santa Ifigênia, na Luz ou no Bom Retiro mesmo, tá tudo uma tristeza só. Tudo sujo, maltrapilho, caindo aos pedaços e muitos outros mais adjetivos pejorativos ou ofensivos demais para se pôr aqui nesta simples crônica.

        Lojas fechadas, prédios invadidos, megalojas falidas tentando vender os produtos megacaros que ainda têm e poucas, poucas pessoas naquele vai e vem característico dos grandes centros comerciais das capitais. E o que fazem essas parcas pessoas? Trabalham, dizem. Ou melhor, tentam trabalhar. As que trabalham, insistem em estar ali encarando a violência armada crescente e a falta de gente com dinheiro disponível pra gastar. Já as que não trabalham, estão lá tentando arranjar um trabalho ou estão lá por estar, não fazendo nada de importante mesmo, ou estão lá pra roubar o pouco dos que ainda têm muito pouco pra roubar, entende?

        O Centro de São Paulo já não é o mesmo há muito tempo. A pandemia só escrachou mais a fatídica situação. Hoje em dia, muito mais gente faz as suas próprias compras on-line, as coisas de supermercado e até roupas as pessoas estão comprando mais na internet, em lojas virtuais oficiais ou de fachada. As pessoas que insistem em ir às lojas físicas e compram o que querem comprar e veem e pegam essas coisas, estão diminuindo. A praticidade venceu, e o sedentarismo também.

        Quer um bom exemplo? Pois bem, dia desses dei um rolê ali pelo Centro. Meti na cabeça que eu precisava de uma torradeira nova e na cor vermelha (não me julguem). Aonde fui? Na 25 de Março, claro! Encarei metrô lotado em um dia de sábado e bati perna praqueles lados. Entrei e saí de várias lojas, mas não encontrei a bendita da torradeira vermelha. Vi muita gente por ali, mas aquele epicentro de gente comprando já foi mais movimentado, mais abarrotado de gente. A Ladeira Porto Geral, por exemplo, tinha mais gente gritando, vendendo sei-lá-o-quê do que comprando. Passei pela General Carneiro também, essa estava mais vazia do que costumava ser quando eu era pequeno, lá pros anos 1980 e 1990; procurei pela torradeira vermelha e nada. Só vi umas sanduicheiras e fritadeiras, a famigerada e tão deseja ultimamente air fryer; e uma torradeira preta. Passar a pé ali pelo Centro Histórico de São Paulo é ver uma cidade que morre; que está morrendo aos poucos. Como eu disse antes, muitas lojas fechadas, ruas sujas e gente aos trapos; as pessoas passam por ali apressadas, preocupadas, muito preocupadas com algo (salário, saúde, roubo ou tudo isso junto e misturado?). Passei ali em frente à Prefeitura, pelo Teatro Municipal, entrei numa dessas galerias da Barão de Itapetininga e, enfim, encontrei uma torradeira vermelha! Paguei mais de cem paus numa que fora fabricada na China, acredita?!

        Mas que raios quero eu aqui dizer com tudo isso?

        Oras, as coisas mudam.

        E o Centro de São Paulo merece mudar. O lugar precisa de mais moradia. Gente atrai gente que atrai mais comércio, mais serviços e, consequentemente, mais segurança e bem-estar.

        Duvida?

        Por que você acha que foi anunciado mais uma unidade do SESC bem ali aonde era a loja das Casas Bahia que, antigamente, era a loja do mítico Mappin? O SESC 24 de Maio, que fica ali próximo, por exemplo, tomou o lugar da Mesbla, lembra? Essa era outra grande loja de departamentos que faliu, tá ligado. Então, o futuro é cultural, cara! Mais e mais livrarias estão se abrindo ali no Centro, restaurantes hypados estão surgindo ou se persistindo por ali, bares também, até o Edifício Martinelli vai virar café, pô!

Percebes?

O comércio de rua está em derrocada. O que você compra já fica em galpões, o item sai do estoque direto pra sua casa, mano. Por que você acha que essas empresas de entregas só crescem?

Falta humanidade no Centro da cidade. E serão eles, nós, os seres humanos, e não os reptilianos, que farão dele um verdadeiro Centro de acolhimento para as nossas necessidades mais básicas.

Você acredita nisso também? Ou não? Comente-se.

 

sábado, 5 de agosto de 2023

O TROUXA DE IPHONE


em cima ficam

alegando ajuda

pois o individuo

dito imaturo

não sabe nada

não tem ciência

 

assim ficam

feitos urubus

em cima de carniça

ainda viva

só na espera

da isca que lhes seduz

 

o ataque é rápido

inodoro, indolor

a vitima sequer percebe

e ainda agradece

seus algozes

de bucho cheio — horror!

  

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

O QUE QUASE NINGUÉM VÊ

detalhe do cartaz do filme "Sinais"

O que leva uma pessoa

A fazer o que faz?

Quando o que faz

É ilegal, errado, imoral?


Faz o que lhe mandam,

Pois tem MEDO de perder o que tem?

Faz o que faz por que quer?

Ou não tem escolha?

Tem mesmo que fazer?

 

—

Sempre há uma escolha

Se a pessoa faz

É porque

Bem lá no fundo

Ou nem tão fundo assim

QUER fazer!

 

Duvida?

Pois repare bem neles

Fazem o que fazem naturalmente

Sem pudor algum

Como se fosse fácil

E é bem fácil

 

Raro é ver pessoas que não se dobram

Que se opõem, que duvidam

Questionam

Esses sim são

Um tesouro escondido

  

sexta-feira, 21 de julho de 2023

CHATICES

cena do filme "Chatô, O Rei do Brasil"

O chato não se acha chato,

Pois chateia sabendo que é chato.

O chato é chato de propósito,

Pois adora chatear o próximo!

 

Agora, se alguém é chato

Com o chato,

O chato acha esse

Um chato!

 

Chato que é chato se conhece,

Se reconhece no chato à vista,

Achatado ou ao quadrado.

 

Enfim, tudo isso é muito chato!

 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

SUPORTE

imagem do filme "Um Dia de Fúria"


Não suporto gente que se acha

Se acha se achando

O ó do borogodó

 

Não suporto essa gente

Gente chata da porra

E do óvulo não fecundado

 

Não suporto o insuportável

Dessa vidinha besta em bolha plana

Que só vê o que quer, e não o que é

 

Não suporto


quarta-feira, 12 de julho de 2023

DESIGNADAMENTE DESIGUAL



Não sei você, amigo, mas me assusta,

Ver essa gente aí numa dita luta,

Vociferando aos quatro ventos uma tal maneira

De ser diante deles sobre a Terra.

 

Esses se acham donos do mundo.

Se não está com eles, é tudo imundo!

Só eles são os eleitos, os escolhidos;

Os demais de fora são corrompidos.

 

Amigo, têm muitos deles por aí ultimamente.

Parece até que nos invadiram a mente!

Discutem tantas bobagens que dá até ranço,

Enquanto o verdadeiro foco cai fundo no poço.

 

Agindo assim, será que não percebem

O descompasso, a ruína, o retrocesso?

Viver, evoluir, ser feliz devia ser o excesso

E não esse desbaratino ideológico de garagem.

 

Amigo, meu querido amigo, tudo vai mal!

Por aqui, o Homem ainda teima em não progredir.

Ele ainda continua se matando, achando possuir

Algo de especial perante os seus iguais; desigual.

  

sexta-feira, 19 de maio de 2023

O GIGANTE GENTIL

Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte

Foi-se

Assim mesmo

De repente

 

Era o último

Último macho reprodutor

Foi sacrificado

Doente estava e assim ficou

 

Tinha quarenta e cinco anos

Mas sua subespécie aparentava ser pré-histórica

 

A Humanidade o matou

E uma pequena parte dela, até onde deu, o preservou

 

Ele adorava carinho na cabeça e atrás das orelhas

Deixou uma filha e uma neta

Uma é estéril

E a outra é incapaz de se reproduzir sozinha

 

Sudan morreu

E o Homem, mais um pouco, também

  

terça-feira, 18 de abril de 2023

CIDADE ABANDONADA (3)



É zona sul

É zona norte

É zona leste

É zona oeste

É centro

É no centrão

É tudo uma zona só!

 

É ladrão fazendo festa e carreira

 

É de bicicleta

É de moto

É de a pé mesmo, chinelo

É armado e irritado

É dando mata-leão

É dando soco, rasteira e puxão

 

É um bando de jovens

Homens e mulheres

Assaltando transeuntes solitários

Casais de apaixonados

Gente idosa ou de mobilidade reduzida

Não importa!

Ladrão não tem ética, nunca teve moral

Em tudo e todos fazem a limpa

 

Enquanto isso a polícia,

Que devia policiar, prender e apreender,

Fica lá levando embora o pouco

Que os que tem pouco ainda tem

Vergonhoso!


terça-feira, 28 de março de 2023

ESPELHO, ESPELHO MEU



Mostre-me a falsidade

Colorida em algoritmos,

Rejuvenescida em telas LED

Para as gentes que se engana

Sabendo enganada mas

Nem aí com isso ou aquilo outro

 

Espelho, espelho meu

 

Mostre-me o reino encantado,

A realidade paralela

Onde todos estão bem e feliz

 

Mostre-me o Narciso de cada um

O umbigo sujo que não é mostrado,

Que é escondido de propósito com adesivo molhado

E o rei na barriga gorda e inchada

De cada um aí que se diz ser

Criador de conteúdo

(fútil, falso e autopromovitório)

 

Mostre-me a perda de tempo

 

Mostre-me o carrasco dos pobres

 

Mostre-me este mundo torto

Que muitos insistem insistentemente em ver

Até o furto traumático do celular por um

Moleque de bicicleta que curte roubar

Porque é uma puta profissão

Que dá respeito e moral

Entre outros moleques

Que também roubam celular

Dos comédias trouxas

Que dão mó vacilo no centrão

 

Mostre-me o monstro

Monstre-me

 

Espelho, espelho meu

 

sábado, 18 de março de 2023

MUNDO QUE SE PLASTIFICA NÃO TEM FUTURO



Antes

Mundo antigo

Plástico

Era algo bom

“Artes plásticas”

“Há uma plasticidade em sua obra”

 

Hoje

Novo mundo

Plástico

É algo ruim

“Microplástico no nosso organismo”

“Rochas plásticas”

 

Mundo que se plastifica não tem futuro


quarta-feira, 15 de março de 2023

LÁ DO ALTO DO NÍVEL HARD

Imagem: dreamstime.com

Envelhecer é um saco.

Essa é a verdade.

O corpo já não aguenta mais

Certas coisas de antes;

A dor é uma companhia constante

E se demora a passar,

Quando passa.

Contudo, com mais idade

Outras coisas já não nos aborrecem mais;

A vivência traz experiência;

O realmente importante é melhor visto, percebido.

Por isso, quando vejo gente jovem desmerecendo os mais velhos,

Torço para que esses cheguem, um dia, a esse nível mais elevado.

  

terça-feira, 14 de março de 2023

UMA ESTRELA SEM FUTURO

Imagem: montagem sobre @7activestudio/iStock

Pode parecer estranho, mas nasci antes de minha mãe. Naquele tempo, o Universo era muito diferente! Não havia nada. Quero dizer: pouco, muito pouco, se havia. Os futuros astros, meus irmãos e irmãs, nem eram consolidados! Assim como eu também não era. A gente era outra coisa. Uma coisa assim bem antes do ancestral; algo do tipo primordial, sabe? Nossa mãe, claro, estava lá; óbvio. Mas ascendi primeiro. Por isso disse antes que vim antes. Tal fenômeno, lembro, foi muito estranho. De repente, assim mesmo do nada, comecei a me destacar, a ir um pouco além de onde meus irmãos e irmãs tinham ido. Porém, algo deu errado, muito errado. Até hoje, eu não sei direito o que houve. Mas desconfio de um aborto. Abortei-me. Não tenho certeza. Só uma sensação, sabe? Uma suspeita. Sei lá! Deixemos isso de lado, por ora. Donde estavas? Ah! O tal fenômeno, que me ocorrera antes, ocorrera com a nossa mãe também. Contudo, com ela foi algo assim mais bem-sucedido, entende? Também foi de repente. Do nada, ela começou a se fundir. Foi algo astronômico de se ver! Sério. Ela se compactava toda e irradiava uma forte luz. Ela, em si mesma, começou a dançar. E nós, seus filhos e filhas, a seguimos. Foi ela que nos deu movimento. Foi ela que nos fez girar em nós mesmos. Foi ela que nos deu Vida! Por isso, é ela a nossa mãe. Quanto a mim, fiquei feliz por ela, de verdade. E sou muito grata a ela também. Ela nos deu vida, poxa! Contudo, apesar de tudo, sinto uma mágoa. Sei lá. Seria inveja? Seria uma certa raiva e/ou ódio mortal desse maldito Universo injusto e desgraçado?! Talvez. Não disse antes, mas digo agora: após o tal fenômeno, meu fenômeno, eu nunca mais fui a mesma. Eu fiquei menor, caramba! Meus irmãos e irmãs andavam por aí imensos e redondamente bem-sucedidos e, quanto a mim, diminuíra horrores, encolhida. Parecia até um arremedo de qualquer coisa não celeste que não deu certo e nem ia dar. Eu já nascera sem futuro, porra?! Que merda era essa?!? E isso que digo nem era o pior! Não. A ascensão da nossa mãe, minha mãe, foi o prelúdio duma desgraça maior. Ninguém percebia. Mas eu sim. Aquela lá não parava de inchar. Anos e anos nos nutrindo, nos dando a porra da luz divina pra depois nos comer, nos devorar sem mais nem menos?? Sim! Eu sempre a via ganhar mais e mais centímetros naquelas grandes explosões que ela dava. Sempre ficava maior. Sempre. Sempre mais e mais imensa. Naquela época, até de cor mudou, e de brilho. Nunca fora tão vermelha e nunca fora tão resplandecente. Mas o negócio fudeu geral mesmo quando ela, a mamãe, devorou os seus filhos e filhas mais próximos, meus irmãos e irmãs mais novos. Ela simplesmente os comeu! Os engoliu um por um!! Que droga de família era essa, caralho?!? Quando ela veio pra cima de mim, nem acreditei. Ela já tinha engolido oito dos meus queridos irmãos e irmãs. Eu era a nona, a última que faltava. Ela foi se achegando e não pude resistir a ela. Ela, de alguma forma, me atraia para si. Desgraçada! Maldita! Eu era a menor, então, ela me abocanhou facilmente. Gritei. Esperneei. Mas foi inútil. Fiquei dentro dela por um tempo horrível, quase eterno. Digo fiquei porque a canibal acabou me golfando depois. Ela, sei lá porquê, desinchou, diminuiu de tamanho e, novamente, mudou de cor e de brilho. Hoje, essa filha da puta, é quase do meu tamanho, só um pouco maior e brilha um brilho fraco, branco, como se estivesse se desvanecendo... Quanto a mim, continuo por aqui, por enquanto. Mamãe e eu nos orbitamos, só nós continuamos girando e girando neste Universo caótico, frio, cada vez mais frio e escuro, cada vez mais escuro. Ela ainda exerce uma força absurda sobre mim. Estou toda machucada. Indefesa. Impotente. Meu brilho ainda é menor do que o dela. E eu sei. Não sei porque sei, mas sei que ela, um dia, há de me devorar novamente. E aí, enfim, mamãe e eu nos tornaremos uma só: uma carcaça escura no vazio.

 


Observação

Conto confeccionado, porém, NÃO selecionado para a 13ª edição da revista eletrônica SUBTEXTOS.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

AQUI JAZ OS ESQUECIDOS


A maioria pensa que é bem assistida.

Porém, se enganam, nenhum plano existe

De fato. Tudo aqui foi um chiste

Pra ocupar gente desocupada.

 

Deus algum existiu por essas bandas.

Todos foram por nós mesmos inventados;

Por gente assim cheia de enfados,

Que queriam amenizar as próprias charadas.

 

E até hoje somos levados a acreditar,

Que acima de nós há um ser superior

A nos reger a todos a ele inferior,

E assim creiando e recreiando o creiar...

 

Besteira tamanha com eira camelô

Sem beira complô é a nossa condição:

Abandonados somos e com razão,

Até quem criamos nos abandonou!

 

Desamparados somos e estamos há tempos.

O juízo já veio e cá estamos só farrapos...

Nos suportando já querendo nos matar,

Pois nem a gente mesmo se faz atar!

 

Planeta azul: arca esférica saliente;

Terceiro mundo reduto pequenino

De uma raça que se acha inteligente

Demais, mas seu tempo não é eterno...

 

Cedo logo se acabará de toda,

Afinal, nem de pé mais se aguenta!

Um e outro sempre se chateia!

Por que és tão tola Humanidade, querida?

 

Aqui jaz os esquecidos...

Os deuses nos abandonaram.

Inventamo-nos, mas nos deixaram...

A Humanidade é de vencidos.