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terça-feira, 14 de março de 2023

UMA ESTRELA SEM FUTURO

Imagem: montagem sobre @7activestudio/iStock

Pode parecer estranho, mas nasci antes de minha mãe. Naquele tempo, o Universo era muito diferente! Não havia nada. Quero dizer: pouco, muito pouco, se havia. Os futuros astros, meus irmãos e irmãs, nem eram consolidados! Assim como eu também não era. A gente era outra coisa. Uma coisa assim bem antes do ancestral; algo do tipo primordial, sabe? Nossa mãe, claro, estava lá; óbvio. Mas ascendi primeiro. Por isso disse antes que vim antes. Tal fenômeno, lembro, foi muito estranho. De repente, assim mesmo do nada, comecei a me destacar, a ir um pouco além de onde meus irmãos e irmãs tinham ido. Porém, algo deu errado, muito errado. Até hoje, eu não sei direito o que houve. Mas desconfio de um aborto. Abortei-me. Não tenho certeza. Só uma sensação, sabe? Uma suspeita. Sei lá! Deixemos isso de lado, por ora. Donde estavas? Ah! O tal fenômeno, que me ocorrera antes, ocorrera com a nossa mãe também. Contudo, com ela foi algo assim mais bem-sucedido, entende? Também foi de repente. Do nada, ela começou a se fundir. Foi algo astronômico de se ver! Sério. Ela se compactava toda e irradiava uma forte luz. Ela, em si mesma, começou a dançar. E nós, seus filhos e filhas, a seguimos. Foi ela que nos deu movimento. Foi ela que nos fez girar em nós mesmos. Foi ela que nos deu Vida! Por isso, é ela a nossa mãe. Quanto a mim, fiquei feliz por ela, de verdade. E sou muito grata a ela também. Ela nos deu vida, poxa! Contudo, apesar de tudo, sinto uma mágoa. Sei lá. Seria inveja? Seria uma certa raiva e/ou ódio mortal desse maldito Universo injusto e desgraçado?! Talvez. Não disse antes, mas digo agora: após o tal fenômeno, meu fenômeno, eu nunca mais fui a mesma. Eu fiquei menor, caramba! Meus irmãos e irmãs andavam por aí imensos e redondamente bem-sucedidos e, quanto a mim, diminuíra horrores, encolhida. Parecia até um arremedo de qualquer coisa não celeste que não deu certo e nem ia dar. Eu já nascera sem futuro, porra?! Que merda era essa?!? E isso que digo nem era o pior! Não. A ascensão da nossa mãe, minha mãe, foi o prelúdio duma desgraça maior. Ninguém percebia. Mas eu sim. Aquela lá não parava de inchar. Anos e anos nos nutrindo, nos dando a porra da luz divina pra depois nos comer, nos devorar sem mais nem menos?? Sim! Eu sempre a via ganhar mais e mais centímetros naquelas grandes explosões que ela dava. Sempre ficava maior. Sempre. Sempre mais e mais imensa. Naquela época, até de cor mudou, e de brilho. Nunca fora tão vermelha e nunca fora tão resplandecente. Mas o negócio fudeu geral mesmo quando ela, a mamãe, devorou os seus filhos e filhas mais próximos, meus irmãos e irmãs mais novos. Ela simplesmente os comeu! Os engoliu um por um!! Que droga de família era essa, caralho?!? Quando ela veio pra cima de mim, nem acreditei. Ela já tinha engolido oito dos meus queridos irmãos e irmãs. Eu era a nona, a última que faltava. Ela foi se achegando e não pude resistir a ela. Ela, de alguma forma, me atraia para si. Desgraçada! Maldita! Eu era a menor, então, ela me abocanhou facilmente. Gritei. Esperneei. Mas foi inútil. Fiquei dentro dela por um tempo horrível, quase eterno. Digo fiquei porque a canibal acabou me golfando depois. Ela, sei lá porquê, desinchou, diminuiu de tamanho e, novamente, mudou de cor e de brilho. Hoje, essa filha da puta, é quase do meu tamanho, só um pouco maior e brilha um brilho fraco, branco, como se estivesse se desvanecendo... Quanto a mim, continuo por aqui, por enquanto. Mamãe e eu nos orbitamos, só nós continuamos girando e girando neste Universo caótico, frio, cada vez mais frio e escuro, cada vez mais escuro. Ela ainda exerce uma força absurda sobre mim. Estou toda machucada. Indefesa. Impotente. Meu brilho ainda é menor do que o dela. E eu sei. Não sei porque sei, mas sei que ela, um dia, há de me devorar novamente. E aí, enfim, mamãe e eu nos tornaremos uma só: uma carcaça escura no vazio.

 


Observação

Conto confeccionado, porém, NÃO selecionado para a 13ª edição da revista eletrônica SUBTEXTOS.


quinta-feira, 27 de outubro de 2022

GARRASTAZU

Imagem: mundoecologia.com.br


Lembro-me bem como se fosse hoje, coisa de agora mesmo. As pessoas estavam desaparecendo, não de forma natural, pois, pensando bem, desaparecer naturamente é a coisa mais natural que a gente, enquanto gente, ser humano vivente, faz. Mas estou divagando, estou perdendo o fio condutor da minha história. E é preciso reagarrá-lo. Donde estava? Ah, sim! Os sujeitos que sumiam. Estava eu sem destino, caminhante aí a pé pelo mundo. Passava eu por uma terra árida, seca, mais morta do que viva. Passava eu praticamente sozinho; gente como eu, nesse tempo, pouco eu via. Passava eu quase já me arrastando, meus pés e minha cuca ardiam: o sol era astro austero maior. Quando, de repente, vi na linha tremula do horizonte tremulo um elevado verde. Logo pensei que tinha endoidado. Como assim algo assim bem no meio do deserto donde estava? Solo rachado, árvores secas e, logo à frente, um montinho daqueles parecendo um imenso oásis no sertão? Eu estava delirando, óbvio! Supus isso e supus errado. Conforme eu continuava a dura e seca caminhada, eu ia vendo aquele tomo ganhando cume e corpo. Não me alembro direito quanto de tempo levei até ele, mas, a cada passo mais próximo dado a ele, mais eu via e percebia que aquela serra era real. Irreal mesmo eram as pessoas daquele lugar. Havia um lugarejo aos pés da serra; construções capengas, de morada e de comércio, eu vi erguidas por ali. Conforme eu me adentrava naquele lugar, mais eu me sentia vigiado e mal-vindo. Eu me senti inté como aqueles mocinhos-bandidos forasteiros dos filmes norte-americanos do tal velho-oeste que hoje ainda são vistos em grandes e diminutas telas. Enfim, eu me enfiava mais naquele arremedo de cidade-povoado, buscando algo de familiar, acolhedor, mas nada ali e nem ninguém se mostrou ser bom anfitrião. Era uma gente estranha. Não ti olhavam na cara e nem faziam as mesuras habituais de “bons-dias”, “boas-tardes” e “boas-noites” esperadas numa grande concentração de gente aparentemente civilizada. Metidos, logo pensei deles. Medrosos, logo vim a descobrir. Pousei numa bodega pra descansar, alimentar e hidratar o meu corpo fatigado e, logo vi, que o lugar tinha o mesmo clima desconfiatório da rua de fora. Fui atendido por um sujeito triste, nem novo nem velho, cinza, carrancudo, mas que me serviu eficientemente nacos de charque, pedaços de um pão duro desmiolado e uma moringa cheia de água fresca. Comi, bebi tudo bem na manha enquanto ficava de ouvido nas conversas, que mais pareciam grunhidos, pequenos cochichos, das pessoas que por ali também se pousavam. Nessa, vim a intuir que as pessoas de lá estavam desaparecendo misteriosamente. Ou, quando enfim reapareciam, só se via expostos partes, pedaços de seus corpos. Fiquei horrorizado. Inté me engasguei quando ouvi que inté criancinhas, meninos e meninas, estavam sumindo. Recuperado da gastura do engasgo, paguei a conta e fui saindo. Entretanto, já na rua, um tumulto se alastrava: “Levaram mais um!”, “Fulano sumiu!”. Aí, para a minha surpresa, me vi envolto, arrodeado por um mundaréu de gente. Se antes, o povoado parecia deserto, quando me acheguei nele, agora, do nada, estava abarrotado de gente gritando, esperneando, fazendo mó escarcéu pelo mais recente desaparecimento. “Algo há de ser feito!”, diziam. “Não pode continuar assim, não!”, vociferavam. “Mandem o forasteiro lá pra cima!”, repentinamente entoaram. E assim mesmo de supetão, meio contrariado meio obrigado, uma turba de gente braba me amarrou num pau de arara e me despachou como possível são salvador, ou oferenda, rumo ao cume da serra. O passeio foi sôfrego. O veículo era descoberto e, pra aumentar a minha desgraça, começara a chover. Não via o chofer na cabine, mas ele guiava a toda pelos caminhos serpenteantes do morro. Subi a serra com aquele barulho alto pra burro de motor velho nos ouvidos e uma forte chuva nos quengos. No topo, fui descarregado do carro por dois brutamontes que usavam toucas pretas na face, pra eu não ver seus rostos, deduzi. Esses, me desamarraram e partiram dali num pinote. No chão lamacento, pois chovia, tentei avaliar a minha situação: não era das melhores. Estava eu só numa região de mata e o clima não me favorecia. Tentei procurar o caminho por onde me trouxeram, mas todo o chão estava em poças, alagado. Meio zonzo, eu buscava com as vistas algum abrigo. Pra minha surpresa, vislumbrei umas construções bem mais à frente donde estava. Caminhei-me para lá, afundando as patas no lamaçal. Mais próximo das estruturas feitas por gente humana, fui percebendo que era um outro povoado ali posto. Contudo, estava um caos. Tudo revirado, meio destruído, bagunçado, parecia uma zona de guerra. Todas as casas não tinham teto. Apenas uma espécie de galpão, bem mais pro meio da vila, tinha uma cobertura. Fui até lá. Diante do grande portão de ferro do tal galpão, parei. Forcei-o um pouco, era bem pesado, mas o abri. Uma vez me pondo dentro, logo vi várias pessoas lá juntas ao fundo, olhando assustadas para o portão aberto, olhando fixamente para mim. Após fechar o grande portão atrás de mim, encarei aquelas caras veladas de medo. Percebi pequenos grupos desses bem rentes às paredes do ambiente, como se estivessem evitando a grande área vazia do vão da cobertura do galpão. E, antes mesmo que eu perguntasse qualquer coisa pra qualquer um ali, uma voz mais ao fundo, meio abafada, lançou-me uma pergunta: “Eles ainda estão lá fora?”. “Eles? Eles quem?”, respondi perguntando. “A chuva está passando!”, gritou outro sujeito lá do meio e, num segundo, ou menos, todos ali se agitaram, tremiam de todo e ficaram olhando pra todos os cantos do teto do galpão. De fato, a chuva passara; só os gemidos das pessoas ali reunidas se ouviam, mas esses logo se silenciaram quando um grande ruído de fora se avolumou. Um estrondo. Parecia um barulho de avião que quando passa, vai crescendo, crescendo, mais alto, mais alto. Barulho de asas batendo; abas abanando abanador. Foi de súbito, o teto todo veio abaixo; horror, desespero, umas aves enormes, sinistras, de porte de um homem adulto adentraram no abrigo! Eram muitas!! Cada uma pegava, com as suas garras, um ser vivente ali que tentava em vão fugir. Vi, em pleno ar, elas desmembrarem suas vítimas. As bestas tinham bicos curvados, uns amarelos, outros vermelhos, a maioria eram pretos. Donde estava, eu via a todos serem brutalmente dilacerados. A carnificina era geral. Quando me dei conta, só eu estava ali de pé diante do banquete macabro. Foi quando me encostei batendo no portão que as aves ali me aperceberam. Essas suspenderam a violação dos corpos-refeição e fixaram seus olhinhos negros brilhantes em mim. Gelei. Suei a frio. Porém, elas não se avançaram contra mim. Nada. Ficaram ali quietinhas, com fibras de carne humana e sangue pendendo dos bicos sujos. De repente, outro estrondo. Esse muito maior do que o anterior: era um grande gralhão. Aí eu o vi: pousando bem lentamente no meio das outras aves que lhe faziam roda, eu vi a criatura toda de penagem branca descer do céu negro sem estrelas e me encarar demoniacamente. Petrifiquei. Não esbocei sequer reação. Via a Morte bem diante dos meus olhos e já dava como certa a alma encaminhada. Eu arfava. Eu sentia o meu coração bater cá dentro do peito e reverberar no céu da minha boca. Eu me tremia todo. Era o meu fim, pensei. A criatura branca vinha a mim devagar, garra ante garra. Bem próxima de mim uns palmos, senti sua estatura: tinha mais de dois metros!! E continuava me encarando, assim meio de lado, desconfiando. Foi quando ela foi se achegando com aquele bico torto bem próximo à minha fuça que eu senti o tempo se suspender, parar de vez. Não me alembro de nada. Apagão. Branco. Em preto e branco eu via os meus dois braços finos, eu via as minhas mãos ossudas esgoelando a criatura!! E ela se debatia toda; desesperada, abanava aquelas asas imensas, aquela asa-delta alva e sacudia as patas freneticamente. Suas garras afiadas rasgavam o meu peito, a minha barriga, as minhas coxas e pernas, mas eu, sei lá como, não soltava não o seu pescoço. Pus toda a minha força, pus toda a minha vida em minhas mãos!! Não senti o estralo, quando as cores voltaram nas minhas vistas, foi que eu soltei o bicho e o vi se estatelar no chão; fez inté um barulhão. A criatura alada estava morta, nunca mais voaria e ali, vendo-a estendida, meio murcha, encolhida, senti uma coisa cá dentro de mim difícil de exteriorizar; me sentia aliviado, claro, cansado, exausto, mas também meio culpado, pecador, como se eu tivesse maculado algo sagrado, como se eu tivesse matado um inocente. Ainda de pé, meio encurvado, olhei pra frente e vi as demais aves do bando inicial ainda me olhando. Paradas estavam, paradas ficaram enquanto eu e seu ou sua provável líder nos embatíamos. Eu estava acabado, ensanguentado, arfante e ainda sentindo um medo da porra, mas, lá de dentro de mim, veio uma vontade urgente de gritar, rosnar, emitir qualquer rugido ou coisa assim do tipo. Pois gritei, rosnei, soltei o meu grito de vitória, ou pavor, sei lá, ainda não sei me explicar e, após esse meu ato primal, o bando de aves gigantes se avuaram dali. Olhando pra cima, eu as vi voando em círculos ali dentro do galpão e se arremeterem, uma a uma, aos céus novamente. O som que emitiam ficava cada vez mais distante, mais longe. Alívio. Ainda olhando para os céus, vi que o dia estava clareando; amanhecendo estava, enfim. Senti o corpo pesado, desmaiei. Capotei sobre o corpo inerte do monstro que acabara de matar. Quando dei por mim, me apercebi numa caverna, havia uns sons de gente conversando e um odor muito forte de alguma coisa que eu não fazia a menor ideia do que era. Sentia um calor gentil de uma fogueira próxima. Escuridão. Despertei novamente, vi meus cuidadores: uma gente simpática de trajes sumários lhes tapando uma ou outra parte mais frágil do corpo. Esses me levantaram e me saudaram. E foi aí que me apercebi meio que vestido com os restos mortais da criatura gigantesca que eu assassinara. Esse povo aqui me chama de Asa Branca. E é essa a minha história.



Observação

Conto confeccionado, porém, NÃO selecionado para o XV Concurso Nacional de Contos de Araraquara - "Prêmio Ignácio de Loyola Brandão".


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

BECO 385

Quando eu acordei, eu não fazia a menor ideia donde estava. O sol já ia alto e os transeuntes passavam por mim afoitos, como sempre. Tentei me sentar e percebi que todo o meu corpo doía, minha cabeça então parecia que ia explodir; sentia-me meio tonto também, meio grogue. Ao me pôr de assento, notei que o enjoo melhorara um pouco; meus outros sentidos começavam a voltar. Meu mau cheiro parecia o mesmo, quero dizer, sentia-me mais suado, molhado do que de costume, mas o meu forte odor parecia normal, habitual. Minha visão meio turva começava a se desanuviar conforme eu via o meu entorno. Notei que estava numa escadaria cinza de concreto, bem próxima a uma estação de trem ou metrô – donde estava, pude ver uma fileira de catracas ao fim da escada, num buraco mal iluminado cheio de gente apressada. As pessoas passavam por mim me vendo sem me notar, como de costume. Fiquei ali sentado esperando o meu corpo se avivar de novo. Não sentia fome, só um pouco de sede. Não sei ao certo o quanto de tempo fiquei ali, mas conforme eu esperava pelo meu melhoramento, eu ficava de olho nas pessoas a minha volta. Essas pareciam como eu, quero dizer, elas tinham tudo o que eu tinha em relação ao corpo, pés, pernas, tronco, mãos, braços, pescoço, cabeça e cabelo, mas – coisa estranha – seus olhos pareciam mais fechados, como se os fechassem de propósito. Achei até que o sol estava muito forte e, realmente, ali estava um baita sol, mas, percebi, que até nas sombras elas mantinham os olhos bem fechadinhos. Fiquei encucado com isso. Também comecei a perceber que a língua que essas pessoas falavam, ao passarem por mim, era bem diferente da que eu falava e pensava. Era outra língua, sem dúvida (ou eram outras línguas, sei lá eu; uma e outra soavam um pouco diferente doutra que eu ouvia passar por mim). Fiquei um pouco preocupado com isso. Levantei-me num átimo para ver os prédios, as construções ao meu redor. Essas pareciam com as que eu sempre via pelas minhas andanças, contudo, a escrita, os caracteres nas fachadas e placas eram bem diferentes! Pareciam uns desenhos com traços curvilíneos, retos, uns pauzinhos apenas... Onde eu estava? Aqui é outro país? Não estou mais em Sun Paulo, não? Fiquei assustado. Perguntava-me essas coisas e tentava entender o que estava acontecendo (ou tinha acontecido comigo); tentava identificar algo identificável neste lugar irreconhecível. Tentei até falar com quem passava por mim, mas, como sempre, esses me ignoravam, passavam direto por mim... Certo. Ao menos eu era real e essas pessoas também. Fiquei um pouco mais aliviado ao pensar assim. Certo. Pus-me em movimento. Decidira explorar, perambular pelo lugar. Eu queria ver se reconhecia algo ou alguma coisa e, também, poderia encontrar alguém igual a mim: pessoas como eu sempre se trombam. Perambulei pelo lugar e percebi que era tipo um centro, um lugar-vórtice onde pessoas, muitas pessoas, se concentravam pra trabalhar, comer e/ou se divertir, passear. Era o centro de alguma coisa ou lugar, com muitos comércios de coisas e comidas que nunca tinha visto; era uma grande muvuca. As ruas eram sujas, irregulares as calçadas – coisas essas mui familiares para mim –, mas os postes de iluminação pública eram incomuns: eram estruturas metálicas pintadas de vermelho com três glóbulos brancos suspensos como lâmpadas; coisa esta bem característica do lugar, supus assim. Andei, andei e não encontrei ninguém igual a mim. Não vi ninguém na sarjeta, nem encostadas sentadas em muros, muralhas ou pedindo comida àquelas pessoas que passavam carregadas de pequenas porções esfumaçantes e cheirosas de comes e bebes coloridos. Não havia ninguém como eu ali. Impossível! Pensei isso assim, pois, em todo lugar, havia gente como eu. Meio transtornado, continuei andando pelo lugar. Encarei aglomeração e o trânsito local, tentando me afastar disso e deles tudo, afinal, quanto mais longe do vórtice, do vuco-vuco, pessoas como eu eram mais fáceis de serem encontradas. Não encontrei ninguém. Passei por ruas quase desertas e nada, nada de encontrar gente como eu. De repente, vi um beco doutro lado da rua! Senti-me logo mais esperançoso, pois beco é igual em todo e qualquer lugar, certo? O beco tinha um número, 385, e, bem próximo a ele, fixado ao seu lado esquerdo, havia uma placa escrita no meu idioma! Cuida-se de crianças, dizia a placa. Feliz da vida e meio afoito atravessei a rua. Quase fui atropelado pelos carros que, do nada, apareceram aos montes naquela rua donde estava o beco. Fiquei ali imóvel bem em frente à sua entrada. O beco parecia estreito. Uns fios, uns emaranhados de cabos se viam acima dele e bem próximo ao seu chão. Esse era bem irregular, cheio de buracos e pedras de argamassa e concreto solto. As paredes também eram mal acabadas, todas elas estavam descascadas. Enfim, era um beco bem comum mesmo. Ali, na entrada dele, dava para ver onde ele dava, quero dizer, dava pra ver a sua saída, o seu fim; parecia que esse beco dava para uma rua de barro, uma rua de barro vermelho. Não sei bem porquê, senti que era atraído para aquele barro. Sentia-me meio estranho, agoniado. O beco era um corredorzão, a luz do dia não entrava nele, não. O dia já estava quase no fim. Passei a tarde toda batendo perna por um lugar estranho e, de repente, me vejo parado numa boca de beco. O sol se punha. E parecia se pôr bem ali no fim do beco. Era estranho. Um estranho familiar. Quando dei o primeiro, o segundo passo pra entrar, uma escuridão sinistra me envolveu de súbito! Tremendo, continuei andando, ainda me apercebia dentro do beco. Meus ombros roçavam, arranhavam nas paredes descascadas conforme eu persistia em seguir em frente; tive que caminhar de lado a partir de certo ponto, o beco estava se afunilando. Não sentia nenhum cheiro e não ouvia nada, nem meus próprios passos e odor; ali, dentro do beco, só sentia a minha ofegante e aguda respiração: eu estava com muito medo. Cruzando a saída, logo me vi atolado no barro vermelho; uma brusca tempestade de areia me envolvia. De repente, um, dois, três trovões ouvi ali no ambiente; era um espaço amplo, muito amplo, parecia que eu não estava mais numa cidade grande. A uns metros a minha frente, um grande estrondo ouvi; o mar de lama, lodo onde eu estava se expandiu feito maré: algo muito grande, enorme caíra à minha frente... E foi aí que eu os vi: embolados um no outro, enormes criaturas semelhantes a serpentes se digladiavam entre si! Suas cabeças eram gigantes, pareciam de crocodilo; escamas reluzentes por todos os corpos eu via; seus chifres se assemelhavam aos de um cervo, longos, compridos, perfurantes; garras, unhas imensas se rasgavam ferozmente; um, tinha cinco, outro, quatro, e o outro, três; três monstros colossais tentavam se matar bem ali na minha frente!!! Terror medo desespero. Terror medo desespero. Terror medo desespero. Eu não conseguia me mexer! A cena que eu via era incrível por demais. E eles podiam me esmagar a qualquer momento. Aquele bolo, bola, aquela massa monstruosa de carne ensanguentada e escamada era mortal, mortífera, fatal. Os urros, os rugidos de força e dor que as volumosas criaturas vociferaram eram de causar pavor. Aquilo tudo não podia ser real. Era? Não não não. Absurdo insano pesadelo. E foi quando eu comecei a desmaiar que eu ouvi umas vozes bem no fundo da minha cabeça. Elas me diziam algo do tipo assim:

JIAO! IMOOGI! RYŨJIN!

JIAO! IMOOGI! RYŨJIN!

JIAO! IMOOGI! RYŨJIN!

Desacordado, submerso, mas, de alguma forma, ainda consciente, ouvi três vozes me chamando pelo nome:

VISHNU! VISHNU! VISHNU!

Aí, transformado, reconheci meus pares, meus irmãos; enfim estava em minha casa, nossa casa.



Observação

Conto confeccionado para o concurso Multiverso Pulp - Fantasia Urbana - v. 7 da AVEC Editora, mas, por NÃO atender a quantidade mínima de palavras, é disponibilizado aqui.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

O CORAÇÃO EM PLUTÃO

Imagem: revistagalileu.globo.com


Eu não estava bem. Já fazia semanas que eu estava na bad, na deprê e me afundando na fossa. Meus amigos, e nem eu mesmo, não estavam mais me aguentando. Eu precisava mudar, fazer alguma coisa nova logo para sair desse meu estado negativo, depressivo e passional. Mas o quê? Eu não fazia a menor ideia. Foi numa dessas sessões obrigatórias de mindfulness que eu tive um insight: Plutão. O planeta-anão mais famoso da galáxia iria passar por um evento cósmico épico nos próximos meses, toda sua atmosfera congelaria, e nenhum veículo jornalístico do globo nem do nosso sistema solar iria cobrir, pessoalmente, o evento — os custos da viagem até lá eram homéricos. Os principais meios de comunicação só mandariam suas sondas-drones habituais. Então, eu decidi fazer essa cobertura sozinho. Na redação do jornal, onde trabalho, joguei essa minha ideia durante a primeira videoconferência de pauta, disse a todos ali presentes e em holograma, que eu mesmo bancaria boa parte da minha empreitada cósmica, todos, até meus superiores amigos diretores, ficaram surpresos com essa minha ideia, mas, mesmo preocupados, acho, decidiram aprovar a minha pauta mesmo assim. Uma viagem sempre faz bem a alguém, certo? A viagem era longa, então, após a reunião, já dei início a minha própria comitiva. Reservei um estoque absurdo de combustível e de alimentos que causaria vergonha, ou ódio mortal, até ao mais famoso bunker norte-americano. Aluguei um desses trailers tipo grande família da SpaceX e parti só para Plutão. Após horas intermináveis parado na termosfera, aguardando a StarLink liberar o tráfego, ganhei impulso auxiliar na exosfera e, me desviando das carcaças velhas e abandonadas dos satélites e veículos espaciais ultrapassados, que ainda poluem a órbita do nosso planeta, parti direto e em alta velocidade para Plutão. Esse longo caminho era a pior parte. Até Saturno, o trânsito é muito intenso e muito louco. Barbeiragem existe em qualquer lugar. Há várias naves particulares e, principalmente, de carga pesada até lá. Só mesmo os corajosos, ou os porra-louca, como eu, passariam por ali até Urano. Passei. Levei semanas, mas passei. Netuno era considerado, oficialmente, uma zona morta, mas havia sim movimento, pouco e meio suspeito, mas havia. Foi só quando transpus a zona transnetuniana que me dei conta: estava só, completamente só. Nesta parte do espaço, ninguém, nenhuma alma viva vinha se meter. Mesmo com toda a tecnologia já feita até hoje, nenhum ser-humano arriscava vir, se embrenhar no Cinturão de Kuiper. Há todo tipo de objetos espaciais por aqui. Há outros exoplanetas sim, além de Plutão, isso é fato. Mas há também uma quantidade de rochas e cometas, enormes e pequeninos, vagando em baixíssima e grande velocidade, que torna a passagem por aqui um verdadeiro inferno! Só mesmo quem tem bons instrumentos de navegação espacial, excelentes sensores de aproximação de última geração e reflexos naturais intrínsecos que consegue, com sucesso, navegar “tranquilo” por aqui. Claro, as sondas que são enviadas para cá, possuem várias camadas, isto, justamente, já pensando nos impactos que essas sofrerão. Mas eu não! Eu só tenho esse trailer. Pretendo voltar com ele. Afinal, alugado ele é. Passei pelo cinturão praticamente ileso. Bem, quero dizer, houve sim uns pequenos impactos, um zigue-zague desesperado de última hora e uma quase visão de toda a minha vida diante dos meus olhos, quando um gigantesco cometa apareceu a estibordo, mas sobrevivi. Estou bem. Um pouco em choque, mas bem. Fiquei bem mesmo quando Plutão surgiu, enorme, na minha tela. Era lindo! Sua cor napolitana típica e ao vivo era mais do que eu poderia imaginar. Só o vira por fotos e vídeos das sondas não tripuladas. Essas não revelavam a verdadeira alma deste rochoso planeta. Vi também suas luas. Caronte era, como sempre, a mais chamativa. Hidra, Cérbero, Nix e Enfinge também as reconheci ali, orbitando Plutão. Vi também algumas sondas-drones colhendo dados. Dentro de poucas horas, a atmosfera inteira do planeta-anão congelaria. Eu chegara bem a tempo! Seu céu azul em degradê e suas célebres planícies em forma de coração desapareceriam para todo o sempre... seu oceano subterrâneo e as várias camadas de sua atmosfera única se tornariam uma coisa só: uma imensa massa rochosa de gelo. Não resisti. Nem eu mesmo sei o que me deu direito. Quando me dei conta, me vi indo de encontro a Plutão! Minha nave (alugada) estava em pane. A todo momento, sons de alertas agudos e códigos de erros contaminavam o interior da nave. Eu me parecia longe de mim. Era como se eu me visse, fazendo aquilo tudo, e não podendo fazer nada, talvez até nem querendo, para me impedir de seguir com aquilo. Aterrissei bruscamente em Plutão. Vesti um traje, que nem era apropriado para aquele clima alienígena (média de -200ºC) e saí para fora da nave. O planeta inteiro estava em colapso! E eu nem me preocupei. Só fiquei ali no meio do caos. Vendo in loco tudo aquilo que eu sempre adorava ver nas fotos e vídeos. Fiquei ali só admirando o todo que era antes do fim de tudo. Surpreendentemente, vi outra nave. Essa, estava bem no fim da encosta da montanha onde eu estava. A nave era uma que eu nunca vira na vida. Seu design não parecia feito de mãos humanas. A nave era toda escura, negra, um naipe de copas perfeito. Um ser saiu da nave. Todo paramentado, como eu, ele estava. Mas com um traje nunca antes visto por mim. Ele, o ser, como eu, deu alguns passos e ficou ali parado, admirando, parecia, como eu, o fim iminente. O ser olhou para cima. Me viu! Sinalizou um olá com o braço e a mão direita erguidas e, de repente, uma voz estranha, na minha cabeça, com um sotaque bem carregado, mas falando o meu idioma, me disse: “vai ficar tudo bem”. Não sei bem o que, mas algo de dentro de mim derreteu, enquanto o planeta inteiro, ao meu redor, se solidificava num eterno e frio bloco de gelo.

segunda-feira, 16 de março de 2020

O MANO SEM CABEÇA

Foto: bomdiafeira.com.br

Tempos de faculdade são realmente muito insanos. Ainda que o intuito seja acadêmico, cientifico a despirocagem faz parte do ritual. Beber, fumar e até mesmo cheirar coisas aí de cunho “proibido” entram facilmente na vida de qualquer universitário, seja ele caxias ou não. Todo estudante que alcança esse degrau a mais na vida, passa por essa fase intensa de estudos e festas mais sérias, mais adultas. O barato bate forte e cabe a ele ou ela aguentar o tranco. Pois bem, sou desses que aguentou a parada toda; sou um dos sobreviventes, contudo, até hoje, não me esqueço do que vi, numa noite, num ponto de ônibus: eu vi o mano sem cabeça! Pode parecer papo de guri bêbado ou chapadão, mas é a pura verdade. Eu vi esse cara. Ele existe! Foi assim: voltava eu dessas festinhas pós provas de fim de semestre, quando o ônibus, que eu sempre pegava, parou num ponto de esquina próximo a um cruzamento. Nesse ponto, que era bem escuro, pois não havia luz e nem abrigo para os que o usavam, havia apenas uma figura lá de pé a esperar o coletivo. Pude vê-la da janela onde eu estava, mas, de lá, não percebi nada de anormal ou sobrenatural. Apenas me pareceu uma figura masculina trajando blusa de gorro e calça jeans. Era inverno, então nada aí era incomum. O incomum mesmo foi quando aquela figura passou pela roleta: o ser não tinha cabeça! Aquele corpo sem crânio andava normalmente pelo corredor do ônibus de um jeito assim meio gingando, meio dançando, como se estivesse ouvindo uma música que somente ele ouvia. Mas como?! Como aquilo era possível? Duvidei de mim mesmo ao vê-lo passar, bem diante de mim. Achei até que tinha exagerado na dose com os meus colegas no barzinho próximo à faculdade, mas não. Aquilo era real. Aquele corpo realmente se movia sozinho e sem cabeça! Quando ele passou por mim, eu o encarei. Com os meus olhos arregalados e a minha boca meio aberta de susto, eu o fitei. Mas ele me ignorou, passou direto e se sentou lá no fundo do busão. Sentou bem no meio, estendendo as pernas que nem esses caras folgados que se largam relaxados em ambientes públicos, como se estivessem na própria casa. Ao testemunhar essa cena, dei-me conta, pela primeira vez, que somente eu e ele, além do motorista, estávamos dentro daquele ônibus. Fiquei perturbado. Algo em mim não me fazia bem. Um enjoo e uma dor de cabeça se manifestaram, de repente, em mim. Olhei ao redor, o ônibus estava em movimento, mas, para meu espanto, não se via nada do lado de fora. Nenhuma construção, placa, árvore ou propaganda se via. Estava tudo escuro! Eu estava rodando em trevas!! Fiquei em pânico. Gorfei horrores sobre o assento a minha frente. Sentia-me fraco e, do nada, comecei a tremer. Todo o meu corpo tremia. Apaguei. Não sou epilético, mas, quando recobrei os sentidos, vi-me no chão metálico da condução. Esse era frio, muito frio. E eu sentia um gosto amargo na boca. Lá do chão, olhei para cima e vi, o mano sem cabeça de pé, bem em cima de mim e bem iluminado, com os braços cruzados. Tive a impressão de que ele estava me recriminando. A batidinha de pé de gente impaciente no piso do ônibus, reforçou essa minha impressão. Emiti uns grunhidos e apaguei novamente. Quando despertei, estava de bruços sobre a minha cama. Os colegas de república dormiam embrulhadinhos em suas camas. Roncos e flatulências eram barulhos comuns e conhecidos. Eu estava com uma baita enxaqueca. Todas as minhas articulações doíam. E, a partir daquele dia, nunca mais farreei adoidado. Juízo, enfim, adquiri.



Obs.: conto NÃO selecionado no Concurso Literário - Lendas Urbanas: os medos são reais da Cartola Editora.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

VISITAS

Imagem: 123rf.com


Dizem que o Homem é sensitivo. Realmente, todo Homem é provido de cinco sentidos: tato, olfato, audição, visão e paladar. Contudo, dizem, há Homens que possuem mais um, o sexto, a tal da intuição. Essa, claro, todo Homem têm. Porém, há uns que a desenvolvem mais do que outros. E isso é fascinante! Sentir algo que a maioria dos Homens não costuma sentir é algo que sempre mexeu comigo. Desde pequeno, lembro-me, ficava maravilhado com histórias que versavam por esses campos além do mundo natural, sobrenatural. Meus colegas tinham medo. Eu não. Eu as ouvia e imaginava nitidamente como era aquilo que me relatavam. Eu tinha uma boa imaginação. Valia-me dela e nada mais, pois, infelizmente, nunca presenciei algo do tipo em toda a minha vida. A não ser, claro, daquela vez, talvez. Analisando hoje, mais lúcido, percebo que aquele caso, talvez, tenha sido algo atípico. Na época, não dei tanta importância ou atenção devida; para mim, tinha sido só um caso de arroubo, agitação, loucura juvenil. Mas, agora, pensando melhor, talvez não. Creio eu ter presenciado um legítimo exorcismo! Que época era? Acho que era agosto. Agosto não costuma ser bom por estas bandas de cá. Que ano? Não me lembro. Acho que eu tinha um terço da idade que tenho hoje. Enfim, faz tempo, muito tempo e, nesse tempo, eu tinha uma namorada, uma pequena. Lembro-me agora dela porque foi justamente uma amiga dela que realizou o tal do exorcismo. Se não me engano, estávamos na casa dessa amiga da minha namorada quando o causo se sucedeu. Acho que estávamos lá fazendo uma visita, tomando umas cervejas ilegais e fumando alguma coisa que não me lembro agora. Estávamos lá de papo e rabiscos e, do nada, bateram forte na porta. Ao abrir a porta, essa amiga da minha namorada, e nós, demos de cara com um mundaréu de gente do lado de fora. Haviam várias cabecinhas enfileiradas ali tomando toda a escadaria que dá acesso ao décimo quinto andar. Eh, essa amiga da minha namorada morava num apartamento e, em sua porta, havia um horror de gente angustiada querendo ajuda. Mas a ajuda não era para eles, era para uma vizinha abaixo, do décimo terceiro andar. Não me lembro quem disso isso, se alguém ali presente falou com a amiga da minha namorada, mas ela, de alguma forma, sabia o motivo daquilo tudo. Essa, então, desceu as escadas e, para a minha surpresa, não esbarrou em ninguém que ali estava. Muito pelo contrário, mesmo abarrotada de gente ali plantada, essa amiga da minha namorada, passou por eles facilmente, como se ali não estivesse ninguém. Eu e minha pequena fomos também, óbvio. Contudo, para a minha grande surpresa, tivemos dificuldades em acompanhá-la, pois, diferente dela, fomos esbarrando e nos espremendo para alcançá-la. Realmente, havia muita gente ali, na escadaria. Já na porta da tal vizinha, que necessitava de ajuda, uma coisa estranha: a amiga da minha namorada lá estava, parada, olhando fixamente para a porta e, suas mãos, estavam para baixo, na linha do sexo, fechadas, bem fechadas, ela fechava bem as duas mãos, pois sangue se via escorrendo de ambas... Com ele, ela vez uns desenhos estranhos na porta, enquanto cochichava umas palavras, que mais pareciam sílabas. Terminado o ritual, acho que era um ritual, ela, essa amiga da minha namorada, bateu três vezes na porta. A mesma foi se abrindo bem devagar, sozinha e lentamente fazia um som que não era lá muito comum de porta gemendo quando abre. Não. Era mais um suspiro. Um som de alívio, se não me engano. Com a porta toda aberta, podemos ver a tal vizinha. Era uma moça, sem dúvidas. Muito jovem e quase nua. Suas vestes estavam rasgadas. E sujas, muito sujas, disso me lembro bem. Essa moça estava no chão duma sala, acho que era uma sala. Acho que tinha um sofá a sua direita e uma mesa de centro à sua esquerda. Ela, a moça, estava no chão, sobre um tapete felpudo escuro. Acho que era felpudo, pois me lembro de seu aspecto bestial, como se aquele artigo doméstico trivial tivesse pertencido a algum animal. A jovem estava no chão e se contorcia toda. Estava toda suada, desgrenhada e sorria um sorriso medonho de gente doente, muito doente. Era anormal. Eu me sentia muito estranho e profundamente incomodado com aquilo. A amiga da minha namorada, porém, estava impassível. Desde que entrara no apartamento dessa menina, não tirava os olhos sobre ela. Havia uma luta ali, certamente. Mas só entre as duas. A jovem, de repente, começou a tossir e a emitir uns sons muito agudos de assobios; ela estava claramente tendo dificuldades em respirar. A amiga da minha namorada então deitou sobre o corpo da jovem, enlaçando seus braços e pernas com os dela, tentando imobilizá-la de vez. Aí ela foi encostando bem devagarinho sua boca na orelha esquerda da jovem, enquanto esta lhe olhava com aqueles olhos esbugalhados vermelhos e com aqueles dentes desproporcionais expostos, feito bestas marinhas de cânions abissais. De certo, cochichou alguma coisa para ela. Ou deu-lhe um beijo. Ninguém sabe. Só elas. Não dava para ver. Só vimos a amiga da minha namorada se levantando aos poucos, igualmente do mesmo jeito quando se deitou sobre a moça e, jamais, deixando de encará-la firme nos olhos. De pé, essa inspirou profundamente e expirou um longo suspiro. Bateu três palmas e deu três pisadas bem fundas no ventre da jovem deitada com seu calcanhar direito descalço. A jovem, imóvel, parou na hora de sorrir. Uma tremedeira estranha tomou todo o seu corpo e todo o ambiente ao redor. Acho que até o prédio todo tremia. Foi assustador! Todos ali se apavoraram. Menos a amiga da minha namorada, que parecia dura feito pedra, uma estátua, diante do maremoto ao redor. Num instante, tudo parou. Uma calmaria veio como se sempre estivera ali. A jovem, ainda no chão, parecia gozar de um inocente sono. A melhora, em seu semblante, era visível. Já a amiga da minha namorada estava cansada, visivelmente exausta, mas ainda se mostrava firme, alerta. Despediu-se de todos ali mesmo, inclusive da gente, da minha namorada, sua amiga, e eu, só um recém-conhecido. Ela fechou a porta da vizinha e subiu, sozinha, até o seu apartamento de cima. Nós, minha namorada e eu, voltamos para o limbo. Só mesmo depois de morto pude ver algo do tipo.



Obs.: conto NÃO selecionado no Concurso Literário - Possessão da Cartola Editora.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

POSSUÍDOS

Foto: tijucarj.wordpress.com

Criança não presta. Sei disso, pois as vejo por aqui todo dia na rua. Eu as vejo sempre correr, gritar e zombarem de si e dos outros todo dia. É de manhã ou à tarde, elas sempre aprontam. Causam quando vão para a escola, quando saem dela e até quando fogem dela! Principalmente quando fogem. Cabular é prática comum por aqui. Da rua, em qualquer canto ou quebrada por onde passo ou pouso, eu as vejo vagabundear por aí. Talvez o colégio não seja um bom lugar. Vai saber. Nunca entrei num. Nem sei como é. Enfim, eu vejo esses garotos e essas garotas por aí a esmo e fico preocupado, desconfiado. Afinal, eles não prestam. Estão sempre brigando entre si e com outros ao seu redor. Roubam descaradamente e são tão violentos que dá até medo. Um exemplo: aqui pelas ruas do bairro, há uma doida. É doida porque, à noite, pelas ruas do bairro, ela vai andando sozinha e gritando a todo o momento. Ela é meio gorda, carrancuda e balança os braços roliços de uma forma animada. Ela anda meio assim dançando, sambando, sapateando. E grita. Grita como se entoasse um cântico, uma reza ou um alarme. É indecifrável. Só ela sabe o significado daquilo, se é que tem raiz em alguma língua conhecida. Pois bem, essa tipa vira e mexe surge pelas ruas daqui do bairro. E as crianças mexem com ela. Sempre. Às vezes é só encheção de saco, um comentário idiota, uma zombaria besta e mais nada. Mas têm vezes que essas pestes pegam pesado. Cutucam ela, empurram ela, tentam derrubá-la, mas ela, a doida, pouco faz pra se defender ou revidar. Só continua gritando, gritando aqueles sons estranhos incompreensíveis. Quando a gorda cai, as pestes correm pelas ruas desertas do bairro numa algazarra de gargalhadas. Polícia alguma passa, claro. Esses, acho, nunca vi por aqui à noite. A doida fica pouco lá no chão. Ela se ajeita, se levanta e continua seu caminho louco. Deve ter casa. Não sei. O que sei é isso: só o que vejo. E eu vi! Essa mulher não era uma mulher comum. Noutra noite, estava eu quieto numa praça zoada do bairro, numa dessas que já fora parque e, agora, mais parece um terreno baldio, sabe. Estava eu lá num canto oculto, tentando me aquecer pra dormir, quando eu ouvi o grito da doida. Ela entrara na praça e estava como sempre do seu jeito: cambaleante, bêbada e estridente. Estava só, como sempre. Porém, conforme a vi se aproximar mais de mim, também vi um grupinho de moleques atrás dela, cada vez mais próximo dela. Eles a cercaram logo. Ficaram lá a seu redor, gritando junto com ela de uma forma zombeteira, intimidadora. Eles riam, gargalhavam na cara dela. Cuspiram nela e a xingaram. Dois empurraram ela. A gorda tombou. No chão, ainda cuspiram mais nela e a chutaram. Forte. Brutal. Todo mundo junto. Eu ouvi bem barulho oco de couro sendo surrado e estalos de ossos sendo quebrados. A doida não mais gritava, nem emitia qualquer som ou respirava. Os moleques continuaram ali, ao seu redor, de olhos fixos naquela massa gorda, ensanguentada e muda. Foi quando viraram as costas para ela que eles não viram. Eles não viram a massa crescer rapidamente, que nem uma massa de bolo no forno e envolver a todos numa monstruosa bocada cheia de dentes encardidos!! Enquanto aquela coisa grotesca e feia os comia, soltava saliva e impropérios: “SUJOS! VIS! NEM PRA ENCHER MEU BUCHO SERVEM!”. E logo vomitou uma crosta fétida de ossos e carne podre num esguicho tipo cano quebrado de esgoto. A massa voltou à forma da mulher gorda, aprumou-se toda e seguiu trôpega, gritando, gritando aquele mesmo grito, indistinto, mais alto e mais alto... Ninguém deu falta das crianças.



Obs.: conto NÃO selecionado no Concurso Literário - Possessão da Cartola Editora.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

UMA VIDA EM TRÊS POLEGADAS E MEIA

Imagem: pinterest.com

Eu vim ao mundo por uma mão. Essa, lembro-me bem, era pequena e suada; mãos de criança me apertavam ávidas em me ver desperto. Espreguicei-me de um sono profundo e finalmente vi, num brilho etéreo, o rosto das mãos que me abrigavam com cuidado. Era um rosto esquisito, redondo, cheio de pontinhos marrons no meio; dois faróis verdes acima e uma tira metálica logo abaixo. O rosto sorria para mim. Era o rosto de Heloisa.

Heloisa era uma menina muito alegre e agitada. Percebi isso enquanto ela me carregava de um lado para outro no ambiente pequeno em que estávamos. Ela não parava quieta! Mesmo eu preso em um longo fio, ela me levava para os quatro cantos daquele espaço. De repente, ela parou e, num só gesto, arrancou de mim aquele fio comprido e mergulhou-se num troço fofo acolchoado. Deitada, Heloisa me encarava. Fazia uma cara séria de compenetrada. Algo importante estava rodando ali, dentro de mim. Nesse ínterim, pude perceber melhor o rosto da louca que me segurava. Ao redor do seu rosto redondo estranho havia uma espécie de moldura. Vários fios de cobre bem finos pareciam germinar do topo do rosto até caírem bem depois daquela placa de metal na horizontal. Essa, percebi, nem sempre se via ali, no rosto de Heloisa. A menina conseguia escondê-la, de alguma forma...

De repente, novamente, seu rosto se iluminou e um sorriso-metálico se mostrou! A menina Heloisa estava feliz com alguma coisa que via dentro de mim. Também fiquei feliz, porque, vendo-a daquele jeito, algo em mim se dava por satisfeito. Era curioso esse sentimento. Eu mesmo me sentia não fazendo nada, só estava ali em suas mãos suadas, tentando entender o que estava acontecendo, enquanto ela parecia de tudo entender e se surpreender com que via e ouvia saindo de dentro de mim.

Aos poucos fui entendendo esse mundo. Eu era um meio de comunicação entre a Heloisa e os outros seres de rosto redondo estranho que ela conhecia. Eu era o elo deles com ela. Confesso que achava essa função natural e nada chata, pois, a menina Heloisa, tinha várias amigas divertidas e uns amigos palhaços também. Era bonito vê-la interagindo com eles com eu ali no meio.

Essas amigas e esses amigos tinham algo parecido comigo junto deles. Com esses, eu só trocava informações técnicas e/ou compartilhadas numa nuvem elétrica. Era algo trivial de que eu, particularmente, não gostava muito. Mas era necessário, eu sabia disso, e a Heloisa também. Ela sempre me limpava toda vez que ficava preocupada em me ver infectado com vírus. Na vez em que eu peguei um desses, vi Heloisa de um jeito apavorante: ela ficara pálida, toda branca num ato só, seus dois faróis, outrora verdes, ficaram vermelhos e vertiam um líquido transparente e quente — três gotas caíram em mim e aí eu pude senti-los.

Nesse estado eu a via e quanto a mim, parecia que eu não era dono de mim. Eu fazia o que não era esperado e vazava coisas piores ainda! A menina Heloisa me levou às pressas em um lugar diminuto. Lá, fui apagado, o primeiro apagão, se meu corpo foi desmembrado, eu não me lembro, mas desconfio que tenha sido. Poucas lembranças tenho daquele dia e pouca memória me sobrou depois. Mas quando eu vi o sorriso-metálico de Heloisa, eu a reconheci.

Era bom estar ali com ela. Sempre estávamos juntos. Ao acordar, no café, na escola, no dentista e até na piscina do sítio da tia Elvira! Toda noite, antes de dormir, Heloisa via em mim e sorria antes de me cobrir.

A minha vida era dela. E eu a adorava. Heloisa me agradava, cuidava bem de mim, me alimentava. Aprendi muito com a Heloisa. Aprendi o que é selfie[1], meme[2] e textão[3]. Aprendi o que é falar do coração e, no tom de voz da mãe, a legítima preocupação. Com a Heloisa ouvi muita música boa — só as melhores do mundo! Ouvi filmes bons e ruins. Séries também, uma infinidade delas. A vida com a Heloisa era uma diversão só!

Aos poucos eu via o rosto redondo estranho de Heloisa se modificando. Um dia aparecia uma espinha ali e outra acolá. Às vezes, eu via também uns machucados. Lembro-me dela do queixo ter ralado. Eu via a menina Heloisa deixando de ser menina. Eu a via crescer e ter outros hábitos. Era raro vê-la sorrir. Diante de mim, ela mudara muito. Eu a via reclamar de tudo. Até de mim! Teve um dia em que ela me atirou ao chão. Segundo apagão. E quando enfim fui reanimado, o que vi não era mais a Heloisa, era um rosto fragmentado de uma coisa ruiva desbocada! Entrei em curto. Fiquei apavorado! Vasculhei na minha memória algo que pudesse me ajudar, mas nem lá a Heloisa estava, nem a menina, tampouco a com espinha.

Triste fiquei por um bom tempo. A criatura ruiva só me usava para despertá-la, todo dia bem cedo de manhã. Virei uma espécie de despertador apenas. Não via nem ouvia mais ninguém direito. Tudo era embaçado, sem foco meio mudo. O silêncio era a minha única companhia, nem o único som que eu fazia, eu ouvia direito. Fiquei muito tempo assim. A criatura ruiva só me alimentava o suficiente para eu despertá-la. Porém, teve um dia em que ela se esqueceu de me alimentar e, aos poucos, fui apagando de vez. Esse foi o terceiro apagão.

Nunca soube o que acontecera comigo depois disso. Só me lembro de acordar de um jeito estranho e de perceber em mim algo que não era bem meu. Senti uma mão macia me pegando e me pondo no colo de uma criatura fofa de aspecto engraçado. Diante de mim havia dois rostos redondos estranhos. Um maior e outro bem menor. O maior sorria um sorriso branco familiar. O menor me olhava desconfiado. Nos dois havia pontinhos marrons bem no meio deles e enquanto o maior era emoldurado com uma longa cabeleira vermelha, o menor tinha um comprimento menor da mesma cor. De repente, um dedo suado me acariciou, um dedinho babado o imitou. Aí eu vi a minha menina Heloisa convertida em duas!!




[1] Selfie é uma palavra em inglês, um neologismo com origem no termo self-portrait, que significa autorretrato, e é uma foto tirada e compartilhada na internet (www.significados.com.br).
[2] Meme é um termo grego que significa imitação. O termo é bastante conhecido e utilizado no "mundo da internet", referindo-se ao fenômeno de "viralização" de uma informação, ou seja, qualquer vídeo, imagem, frase, ideia, música e etc, que se espalhe entre vários usuários rapidamente, alcançando muita popularidade (www.significados.com.br).
[3] Texto considerado inconveniente devido à sua extensão e interpretado como pedantismo nas redes sociais (www.dicionarioinformal.com.br).

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A VELHA DO DIABO

Nunca acreditei nessas coisas do além. Pra mim, espírito, assombração eram coisas da imaginação, da mente criativa demais ou da debilitada de menos. Pra mim, quem me dizia acreditar e ver essas coisas, era doida, gente de pouca fé, falastrona. O imaterial, pra mim, sempre foi algo de cunho filosófico, ou seja, era papo-cabeça, assunto trivial e descompromissado no campo das ideias; uma especulação gratuita sem o rigor acadêmico de estudos probatórios e sérios. Era uma diversão apenas, nada mais ou menos do que isso. Eu achava ridículo, sinceramente, quem me dizia sentir medo dessas coisas. Até entendia o motivo disso, afinal, quem crê, medo tem. O medo é essencial, para nós, seres vivos. É ele que nos mantém alertas, espertos, ou não, diante do perigo, do desconhecido. Tenho medo, admito, como todo o mundo têm, porém, não tenho medo dessas coisas, ou melhor, eu não tinha... Deveras, após a minha última contenda, comecei a temer essas coisas, pois eu vi o próprio diabo no corpo constipado da tia-avó da minha mulher! Ex-mulher, melhor dizendo. Depois do ocorrido, a separação foi inevitável. Legalmente ainda somos cônjuges, porém considero a lei dos homens inútil diante do fato que me sucedeu. Sou sozinho, mais uma vez. Naquela época, eu também o era quando conheci a minha ex-mulher. Nos conhecemos por meio de amigos em comum. Logo que fomos apresentados, nossos olhos se fixaram. A atração foi mútua e, até começarmos a trocar mais do que sorrisos e piscadelas, um bocado de meses se passou. Isso foi bom. Antes de engrenarmos em algo mais sério, nos tornamos amigos sinceros. Nosso papo era agradável. Falávamos de tudo um pouco. Tínhamos divergências em alguns assuntos, mas isso não diminuía o respeito entre a gente, ao contrário, de minha parte, eu a admirava mais por causa disso. Acho que todo relacionamento, pra durar, pra ser feliz, tem que se basear no papo, naquilo que um tem pra complementar no outro que não tem. Diálogo é tudo. Por isso, agora, entendo um detalhe curioso. Nas conversas que travávamos, ela, a minha ex-mulher, sempre desconversava quando o assunto era a sua tia-avó. Elas moravam juntas e, sempre que eu a interpelava sobre isso, ela era vaga, não entrava em detalhes. Eu não insistia muito no assunto por não ver, na época, nada demais. Também nunca fiquei encucado com isso. Eu achava a atitude dela até normal, afinal, aborrecimentos: quem é são, evita-os. Contudo, hoje entendo tudo. Havia ali uma mazela, uma dor escondida com carinho no coração. A tia-avó dela era o cão! Só me dei conta quando, depois de nos enlaçarmos, fomos morar na casa dela, com a tia-avó dela. Antes, eu já tinha conhecido a velha e, nesses poucos encontros, não notei nada demais na senhora. Ela parecia “fora da caixinha”, isto é, quando conversávamos com ela, ela dizia umas coisas meio sem sentido, coisas que nada tinham a ver com o assunto da conversa. A tia-avó dela falava muito da condição física dela. Ela sempre reclamava que estava muito doente e que sentia muita falta dos tempos de antigamente... Tudo para ela era dor. Aliás, ela vivia se queixando de horríveis dores pelo corpo. A velha tinha dor de cabeça, nas costas, na bacia e nas pernas. Doença, dizia ter várias. Só me lembro da osteoporose e do enfisema. Desse último, lembro bem porque, mesmo se dizendo enferma, ela ainda teimava em fumar um maço de cigarros todo santo dia. No mais, era apenas uma senhora idosa com suas manias e necessidades naturais. Mas tudo mudou quando eu e minha ex-mulher fomos morar junto dela. A velha se tornou outra quando começamos a dividir o mesmo teto. Se antes tudo era tolerável, a velha fez tudo ficar insuportável. Ela era teimosa demais! Não ouvia nada do que a gente lhe dizia, só falava, falava e discutia, não existia, na casa, harmonia. Tudo que fazíamos era um problema grave para a velha. Se comprávamos mantimentos para a casa com o dinheiro dela, ela reclamava, achava que tudo era muito caro, criava caso e gritava na nossa cara “seus burros!”. Porém, se gastássemos o nosso dinheiro, ela não falava nada, ficava quieta, fingia um agradecimento sincero. Comprar remédios para ela também era por aí. Só queria os de certos laboratórios e dizia que os outros de outros não prestavam. Várias vezes voltávamos na farmácia para trocar os emplastos, as pílulas e as ampolas que ela usava diariamente. Eu e minha ex fazíamos tudo isso para contribuir com a vida na casa, afinal, a residência era dela, da velha, e, como éramos recém-casados, pousar ali era o melhor a ser feito financeiramente, até que a minha ex e eu conseguíssemos uma morada própria. A vida na casa com a velha era um inferno! Entretanto, minha ex e eu fomos levando, aguentando tudo juntos, pois não tínhamos para onde ir. A velha, durante o dia, era irritante, inconveniente e má, contudo, o pior mesmo era à noite. Na casa, só havia um quarto. Esse era dela, somente da velha. Eu e minha ex dormíamos num sofá-cama maltrapilho na sala, que era ao lado do quarto da velha. Essa ia dormir cedo e, quando ia, trancava-se sozinha. E lá, só consigo mesma, exercitava o desagradável hábito de falar sozinha em voz alta. Da sala, dava para ouvi-la reclamar do dia e da gente. Era muito incômodo ouvi-la assim no seu monólogo. Parecia até uma confissão com alguém invisível ou uma forma de desabafo consigo mesma. Minha ex já estava acostumada, mas eu não achava normal aquilo. Quando a velha enfim se rendia ao sono, o nosso sossego durava pouco: a velha falava também durante os roncos! E falava muito. Falava em nosso idioma e em um que nunca ouvira. Geralmente esse bate-papo noturno era sobre o seu passado. A velha falava uns nomes, uns lugares e umas situações que não condiziam com o tempo presente. Minha ex me explicou depois sobre esses fatos passados. No entanto, sobre o idioma estrangeiro desconhecido, desconversou. Disse-me que eram só uns sons indistinguíveis que a tia-avó dela, e a gente também, emitimos quando dormimos profundamente. Não me satisfiz com a sua resposta, mas a acatei. Todas as noites eram essa tortura sonora. Após alguns meses, acabei me acostumando com essas coisas. Quem ama, consente. Porém, teve uma noite em que acordei de sobressalto. Estava eu quase me entregando de vez ao sono, quando os barulhos noturnos se tornaram mais graves e estranhos... Parecia até que havia um homem no quarto da velha! E essa gemia e balbuciava aquele idioma estrangeiro. Levantei do sofá-cama num salto. Minha ex ainda dormitava. Abri a porta do quarto, imaginando algo tipo assalto, mas vi algo absurdamente pavoroso: vi uma criatura escura toda escamada, de caninos inferiores salientes e de cabelos desgrenhados sobre uma velha pálida e sorridente! Fique paralisado. De medo, óbvio, e de horror. Só de lembrar, tremo todo. Diante do coito grotesco, congelei. Logo em seguida, uma força, vinda de sei lá onde, me empurrou pra fora do quarto. A porta se fechou num estrondo. Caí no chão da sala e, ainda ali, vi, na penumbra, a minha ex-mulher sentada encurvada na beirada do sofá-cama, salivando abundantemente algo negro e viscoso pela boca escancarada de forma anormal... Não sei bem como, de onde tirei forças, mas fui me afastando da cena asquerosa e insana. Fui me arrastando de costas até uma janela próxima enquanto aquela coisa me encarava torta e pulei. Desembestei nu pela rua e nunca mais voltei a ver aquelas mulheres. Quem ouve a minha história, não me acredita e ainda me diz que sou de ladainha. Mas é real. O tinhoso é real. Eu conheci a mulher dele!


Obs.: conto NÃO selecionado para o Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror do blog Contos de Terror e da Free Books Editora Virtual.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ZUMBI SMARTPHONE

Caminhava a passos lentos, criatura, por mim vista, perambulando pela rua. Era noite. Noite de verão. Clima seco, sem previsão de chuva; tempo de insolação. A criatura cambaleava feito bêbado contido no meio da estrada. Seu corpo estava putrefato, em alta decomposição; suas vestes, de última moda, faziam-na se camuflar entre os transeuntes do centro da cidade – muita gente sem se tocar do grande aparte. Porém, um sinal, que poucos reparavam pra ver, destacava-a dos demais: seu rosto curvado era assustadoramente iluminado por uma luz branca sinistra e artificial. A criatura sorria de vez em quando. Seu sorriso era de louco. Um sorrisinho amarelo de gente abatida, de gente que sofre de alguma verminose-decote. A criatura também manifestava uns biquinhos, desconjuntava os próprios lábios, parecia também sofrer de algum enfado grave. A criatura andava e não olhava para os lados, sempre seguia em frente com a cabeça cabisbaixa reluzente. Aquela visão me dava medo. Mesmo eu não sentindo um perigo direto, aquela coisa era de arrepiar os cabelos. A criatura dava seus passinhos e de tempos em tempos se ouvia uns tenebrosos assovios. Passei ao lado dela, ela não me viu, e eu, intrigado, a segui, com a minha arma em punho, óbvio. Ela, a criatura, parecia andar sem rumo. Contudo, após uma boa caminhada, percebi o intuito: próximo a um viaduto, elevado feio e sujo, outras criaturas tipo ela se acotovelavam. Era gente de todo tipo, de toda faixa etária, gênero e classe social. Todos ali estavam condenados e não pareciam se sentir assim. Todos sorriam, pareciam mesmo se divertir. Eu estava assustado... De repente, me vi envolvido! Eu não via mais ninguém igual a mim. Todos ali estavam hipnotizados, todos caminhavam cabisbaixos, arrastando os pés em um mesmo compasso abafado. Sentia-me no meio das tropas inimigas, sentia-me no meio da torcida rival. Por sorte, eles não repararam em mim. Todos ali estavam compenetrados, absortos, de olhos baixos, fixos no chão parecendo receber alguma instrução do além indizível. Porém, não vacilei. Mantinha-me em alerta constante, preocupante. No meio dessa multidão, aquele assovio irritante foi ganhando proporções épicas de um eco alucinante. Ainda bem que eu estava com meus protetores intra-auriculares. Se antes não disse, digo agora que eles acompanham a minha querida arma. Arma esta espacial radiofônica de fritar miolos de mortos-vivos. Eu estava sozinho.  Eu precisava resolver logo aquilo. Minha querida cidade sofria de uma espécie de mutação às avessas. Aquelas coisas, outrora digníssimos cidadãos, estavam se alastrando a todos os cantos, vielas e becos de minha querida cidade. Se existia cura, eu não sabia de sua existência. Eu precisava exterminar logo aquilo. Em meio a eles, tomei partido. Agarrei um do meu lado e tentei purificá-lo. No chão nos debatemos. Nisso, uma espécie de dispositivo eletrônico se desprendeu dele. E, logo em seguida, eu vi aquele ser nefasto parecer estar se curando automaticamente: seu corpo, bem na minha frente, parecia estar se recompondo suavemente e aquela luminosidade estranha na face de antes parecia estar desaparecendo... Corri para apanhar o dispositivo que se soltou dele, receei que ele fosse pisoteado pela multidão infectada. Eu precisava analisá-lo. Quando eu o apanhei em minhas mãos, aquele troço, além de vibrar bastante, soltou um assovio diferente e muito mais alto daquele chatinho e baixo, era um alarme, logo apercebi. Todos ali postados de pé a andar pararam de se mover. O dono do aparelho, já de pé, olhou fixamente para mim. E ele parecia não estar lá muito contente. Correu de encontro a mim numa ferocidade e numa velocidade impressionantes. Entendi logo a intenção dele e não titubeei, saquei a minha arma e disparei. Sua cabeça, estourei. Nisso, no mesmo instante, aquele seu dispositivo desgarrado, que estava na minha outra mão, se dissolveu, se desintegrou completamente. Confirmação: aqueles dois estavam interligados, era algum troço tipo simbiose, um dependia do outro pra sobreviver. Essa minha dedução foi rápida. Entretanto, os demais zumbis, que estavam ali, foram mais ligeiros: eu estava cercado, todos finalmente pareciam olhar para mim e todos horrivelmente mal-humorados. De cara feia não tenho medo. Saquei a minha outra arma e, com as duas, que são gêmeas siamesas de primeiro grau espectral, desembestei em disparar sem dó nem piedade. Quem fica encurralado e é corajoso pra valer, manda todos se foder!! Eu fodi com todos aqueles desgraçados bem ali. Nem com as criancinhas e velhinhas tive pena. Eram eles ou eu. E todos ali já estavam condenados, bem mais pra lá do beleléu. Só agi mais rápido do que aquela força manipuladora que os controllevavam. Fiz um baita estrago. Exterminei geral. Claro que não saí totalmente ileso, eles eram centenas. Porém, saí vitorioso, acabei com todos mesmo eu ficando todo sujo, assanhado, mordido, rasgado e empapado de sangue meu e alheio. Tudo isso foi só o começo. Muita coisa tinha de ser feita ainda. Eu tinha que ir atrás da fonte disso tudo. Em outra transmissão continuo o meu relato. Ou não. O perigo existe. É real. Cuide-se aí. Fim desta transmissão.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A fumante de óculos escuros

Há quem diga que viver vale à pena. Verdade verdadeira. Porém, em tempos de bundões, ou de politicamente corretos, viver se torna uma questão de prudência, sobrevivência. Quem arrisca, petisca, mas morre cedo e muito mal. Vivemos tempos de grande exposição, mas cuidar da própria saúde é necessário e muito recomendável. Não devemos vacilar, regrados devemos viver, sem excessos e possessos. Contudo, se você é humano, que nem eu, e não um robô programado por e para esta sociedade de agora, tu deves cometer uns excessos. Falo sério. Viver é se arriscar, dar a cara a tapa e aproveitar, gozar. Não tem como negar, existe por aí muitas coisas que nos faz mal, muito mal. Mesmo assim, dentre essas coisas, tem outras que nos faz bem – um mal que nos faz bem. O cigarro é um bom exemplo. Quem fuma sabe, não há coisa tão tóxica que dá barato relaxante assim tão barata e de fácil aquisição. A nicotina dá prazer, porra! Quer um exemplo melhor? Então, preste atenção no meu causo. Próximo ao meu trampo, faz um tempo, andei reparando numa moça. Ela bate um rango no mesmo restaurante que eu costumo frequentar. Reparei que ela come de tudo, não tem frescura, mas come pouco. Ela não faz aquele montinho de pedreiro, entende? Notei que ela come com calma. Parece até uma monja budista quando mastiga sua refeição. Coisa essa realmente curiosa de se ver, diga-se. Contudo, o mais curioso mesmo é o que ela faz depois do saudável almoço. Ela fuma. Bem, até aí, nada de anormal, certo? Muita gente faz isso. Porém, ela o faz de um modo assim sistemático. Ela saca de sua bolsinha uma pequena latinha. Nesta, ela guarda seus cigarros devidamente embrulhados junto com os isqueiros estilizados. Ela pega um cigarro do saquinho. Ela o cheira. Ela o acaricia como se fosse uma iguaria única, rara que mereça um cadinho a mais de tempo pra ser consumida, degustada. Ela põe o cigarro na boca cheia de batom, dá leves mordidinhas nele, roda-o com a língua. Ela agita o isqueiro freneticamente. A chama que sai é grande demais para aquele troço tão pequenino e cheio de combustível. Ela acende o menino, enfim, e dá umas longas baforadas. Tudo de leve, numa boa, demora pra tirá-lo da boca pela primeira vez. E ela vai nesse ritmo, fumando com gosto, olhando para o nada, concentrada nas baforadas. Ela, às vezes, é lúdica. Tem vezes, não sempre, que ela faz aquelas aureolas com a fumaça do cigarro, sabe? Anéis de fumaça pelo ar. Muito habilidosa essa moça. E sabe mais? Ela gasta mais tempo fumando do que comendo. Se o cigarro é a sobremesa, ela o aprecia como prato principal. Se ela tem uma hora de almoço, não tenho certeza, mas, pelo que reparei, em vinte minutos ela come, nos outros quarenta ela fuma. E sempre só um cigarro, nada mais nada menos. Andei de olho nessa mulher e nesse seu ritual diário por uns bons meses. Quando estava quase fazendo um ano de observação contínua, não resisti mais e fui abordá-la com aquela desculpinha sacana de lhe pedir fogo. Detalhe: eu não fumo. Comprei um maldito maço do mais barato só pra fazer essa descarada abordagem. Acho que ela até desconfiou disso, quando acendi aquela porra e me engasguei horrores quando eu dei as primeiras baforadas... Enfim, puxei papo com ela e, poxa vida, até que foi agradável, viu, apesar daquela fumaça tóxica e mortal nos envolvendo. Falamos sobre o tempo, sobre o transito, sobre os protestos e sobre os cigarros, claro. Aí, aproveitei a deixa e a interpelei sobre esse ritual diário dela e tal – eu confessei que a observava. Ela me disse, na maior simpatia e boa vontade, que sofria de uma doença terminal, tinha câncer na garganta. Assustado, fiz a pergunta idiota do então por que dela ainda fumar todo dia. Ela me confessou que só fumava um, justo aquele um cigarro por dia, e nenhum outro mais. Aquele era o seu único prazer, o seu único momento especial durante todo o dia, nada mais. Ela me disse isso com um sorrisinho triste, fraco e com os olhos meio que marejados de lágrimas. Bem, acho que estavam marejados... Depois disso, ela pôs uns óculos escuros. Consultou as horas em seu celular e me disse adeus, assim, de repente, e com um beijinho seco na minha bochecha direita. Fiquei surpreso com aquele gesto de carinho espontâneo e genuíno e meio que preocupado também, não conseguia entender o porquê. Fiquei com aquela imagem e com uma sensação estranha o resto do dia. Mal dormi à noite. Noutro dia, que era uma sexta-feira, não a vi no restaurante de sempre e nem no lugar aonde ela costumava sempre fumar. Fiquei ainda mais preocupado. Por sorte, ou melhor, por memória, nesse tempo todo em que eu a fiquei observando, eu já sabia onde ela trabalhava. Era bem próximo do meu trampo até, umas três quadras só. Passei lá depois do meu expediente e, chegando lá, a porrada: ela tinha falecido. E naquele mesmo dia em que eu finalmente a abordei, ou seja, ontem! Fiquei em choque, baqueado pra valer. Depois me disseram mais coisas sobre ela. Ela tinha a mesma idade que a minha, morava só, não tinha filhos, os pais já tinham morrido, os parentes, todos, estavam espalhados em outros países e, se tinha amigos, eram muito poucos ou quase que nenhum, desconhecidos. Ela era muito fechada, reservada, não tinha uma turma pra chamar de sua. Tentei saber do enterro, mas ninguém sabia de nada. Passei o fim de semana pensativo. Eu era muito parecido com ela, afinal. Eu também estava sozinho nesta terra, nesta vida. E na segunda-feira seguinte, depois do meu almoço, eu comecei a fumar. Fumo só e unicamente um cigarro por dia, nada mais nada menos que isso.

domingo, 7 de dezembro de 2014

A caixinha de Barboza

Dizem que não existe, mas é mentira. Existe sim! E eu mesmo já a vi. Ela é real. A caixinha de Barboza é uma realidade deste mundo. Faz muitos anos, é verdade, mas eu me lembro dela como se fosse coisa de agora, coisa fresca e bem madura de comer. Eu era um reles alferes do mítico Valentina Quebra Ossos quando ele partiu numa caça desenfreada ao tesouro do pirata Sorriso de Hiena. Nós, piratas, sempre nos reuníamos numas pocilgas de qualquer reino pra encher o cu de rum e trocar informações entre a gente. Numa dessas orgias de sempre, o tal tesouro foi assunto recorrente. Parecia que um ex-marujo do tal Sorriso cantou de papagaio antes de ter seus membros arrancados pela guarda real e, claro, caindo a informação lá, ela caia entre a gente também. Nosso capitão, o Barba Púrpura, quando ficou sabendo disso, ficou todo empolgado. Fazia tempo que ele não caia no mar numa busca desse tipo. Ele já estava entediado de saquear navios mercantes. Nosso capitão sempre teve gosto pela aventura. Mesmo que nela, metade de tripulação, ou mais, se perdia, não sobrevivia até o fim da empreitada... Pois bem, Ele levantou mais informações sobre o tal tesouro e, com tudo quase certo, montou uma nova tripulação. Eu estava no meio desses novatos. Eu já conhecia bem o histórico do capitão Barba Púrpura, pois sempre andava nesse meio de desajustados, nunca conheci meu pai e nem a minha mãe. Naquela época, eu me sentia mais velho, mais preparado e disposto a encarar os riscos. Eu não tinha nada a perder. E o capitão parecia ser gente boa. Me apresentei a ele e ele me aceitou de cara. “Finalmente!”, disse-me ele. Lembro disso muito bem. Manhã seguinte, partimos. O Valentina Quebra Ossos era um navio monstruoso! Nele havia dezenas de compartimentos e a madeira utilizada na sua construção, diziam, não ser madeira típica deste mundo mortal. Não sei dizer se ele foi pintado, mas todo ele era colorido na cor púrpura, tom idêntico à barba do capitão, daí a inspiração, achei. Suas velas eram negras como a noite. E elas refletiam as estrelas do céu - até mesmo durante o dia! Sem dúvidas, um navio de dar medo. O nome Valentina Quebra Ossos vinha da ex-esposa do capitão. Numa dessas poucas noites de calmaria, ele nos contou que a tal Valentina foi o grande amor de sua vida. Ela era uma mulher robusta e encrenqueira. Encarava uma boa briga numa boa. Batia e pra matar nuns dez caras facilmente. O fim dela, o capitão não nos contou, mas, entre a tripulação, se falava que ela era o próprio navio – ela tinha se transformado nele. Enfim, navegar era uma experiência fantástica! Uns novatos sentiram enjoos, mas eu não! Eu me sentia, enfim, no meu habitat natural. Monstruosidades quase todas as noites e tempestades horríveis durante o dia não me intimidaram. O capitão Barba Púrpura nos fazia dar o máximo e o melhor da gente. Muitos morreram, mas os que sobreviviam se davam cada vez mais e mais. Parecia até que estávamos enfeitiçados por um feitiço encorajador... Fazia alguns meses que estávamos no mar aberto. Já tínhamos passado por diversos apuros e glórias. Não comento aqui sobre eles para não estender demais o meu relato. Outro dia, quem sabe, te dou os detalhes. O foco aqui é a caixinha de Barboza. Pois bem, nosso capitão tinha um mapa. Este foi feito por ele mesmo, todo ele era baseado e rabiscado nas informações levantadas pelo próprio capitão. No mapa havia um “x”, claro. Esta marca traçada pelo nosso capitão era onde ele estimava encontrar o tal tesouro do capitão Sorriso de Hiena. Seu “x” estava sobre a água no mapa, mas, quando o Valentina Quebra Ossos se aproximou do ponto marcado, havia uma ilha. “Terra à vista, homens!!!”, gritou nosso querido capitão. Era madrugada quando ele deu o aviso. Alguns companheiros roncavam e logo se puseram de pé ao grito dele. Talvez ele estivesse apreensivo, acho até que nem dormia direito, tamanha a ansiedade... Assim, não perdemos tempo, desembarcamos os botes e fomos direto à tal ilha. Esta não constava em nenhum mapa por mim consultado posteriormente, durante o desembarque dos botes. Conforme nos aproximávamos da ilha, percebemos que ela não era uma ilha comum: a areia da praia lembrava ferrugem, sua consistência era mais dura, parecia até cascalho; a vegetação era igualmente estranha, nunca tinha visto plantas e árvores daqueles tipos, elas eram verdes, tinham cheiro de planta e tal, mas, ainda assim, eu notara algo de não vegetal nelas todas... O capitão e o restante da tripulação pareciam surpresos também, porém bem mais concentrados no objetivo do que no meio-ambiente. “É por aqui, cambada. É por aqui! Sigam-me.”, dizia o capitão com suas anotações à mão. Adentramos aquela vegetação estranha e fomos abrindo caminho. Eu olhava para os lados e atrás de mim em busca de algum animal local e nada, sequer ruídos eu ouvia, somente o vento mesmo entre as árvores. Pensei até em comentar sobre isso aos demais, mas eles pareciam hipnotizados com a possibilidade de, enfim, encontrar a tal da caixinha de Barboza. De repente, avistamos um objeto estranho ao longe: uma espécie de totem, não cilíndrico, mas mais parecido com uma prancha enorme de madeira, porém, não era de madeira, tampouco de aço, era de um material negro não brilhante... Quando chegamos mais perto, percebemos que, no tal objeto, havia uma espécie de porta na sua base. “Bora, homens! É só entrarmos.”, disse o nosso corajoso capitão. Antes d’eu entrar, dei uma apalpada nesse totem escuro, que não tinha nada desenhado ou escrito, ele era todo liso, de um material desconhecido que não refletia nada, lembrava um espelho gigantesco que só refletia a cor preta e mais nada. Passei pela entrada e visualizei um caminho de terra e rochoso descendo em espiral. Meus companheiros, bem à frente, queimavam suas tochas e seguiam o capitão. Conforme descíamos, o lugar ficava cada vez mais e mais quente. Miasmas alaranjados tomavam o lugar, mas conseguíamos ainda respirar com pouca dificuldade. Após passarmos por um corredor mais estreito, nos deparamos numa grande câmara, no teto percebemos umas coisas redondas lá fixadas... “Silêncio.”, sussurrou o nosso capitão, quase não podendo ser ouvido. Estávamos em fila indiana, dando passinhos lentos e desapressados quando um dos nossos tropeçou e caiu, fazendo um barulho infernal com a tralha que ele levava... Nossas almas gelaram na hora. E todos olharam para cima e viram milhares de olhinhos vermelhos e dentes afiados reluzentes caindo sobre a gente... “Corram!! Corram por suas vidas, seus desgraçados!!”, gritou o nosso apavorado e preocupado capitão. Corremos nos atropelando e tentando nos defender daquelas criaturas peludas e famintas pelo nosso sangue. “Por aqui!! Rápido!!”, gritou o capitão enquanto cortava duas, três daquelas coisas e apontava um caminho à sua frente. Acho que eu tive sorte, pois poucos sobreviveram ao massacre. Aquelas coisas não nos seguiram. Elas pareciam limitadas àquela câmara. Muito estranho isso, achei... Enfim, continuamos seguindo o capitão Barba Púrpura. Era ele e mais treze, incluindo eu nesses treze, então quatorze homens ainda vivos dos quase sessenta que na ilha desembarcaram. Todos pareciam cansados, assustados, mas determinados em continuar em frente. “A caixinha da Barboza está próxima.”, dizia o nosso querido e motivador capitão. Continuamos então, sempre seguindo em frente e descendo, cada vez mais e mais fundo. Adentramos outra câmara, bem maior que a anterior e, no altar que ali avistamos, bem lá no alto, vislumbramos um pequenino cubo flutuante irradiando uma luz branca intermitente: era a caixinha de Barboza!!! “Ali, homens!!! Muito cuidado agora.”, disse o capitão. Apagamos nossas tochas e fomos caminhando em direção ao grande altar: a caixinha de Barboza iluminava todo o ambiente. De repente, notamos que nossas sombras estavam esticadas demais sobre o chão e as paredes de pedra da câmara, elas pareciam vivas e choque: nossas sombras emergiram do chão em forma de animais peludos muito parecidos com a gente! E esses empunhavam as mesmas armas que carregávamos conosco!! Nossas sombras nos atacaram. Barulho de lâminas, socos e chutes ecoaram naquela gruta. Grunhidos e gritos também. Eu estava encurralado pela minha própria sombra quando o capitão me salvou, cravando sua espada no pescoço da minha sombra. “Rápido, rapaz! A caixinha!”, disse-me ele apontando para o alto do altar. Corri o mais rápido qu’eu pude até lá. A caixinha cabia na palma da minha mão. Eu a agarrei rapidamente, não me atentando muito àquela luz branca quase cegante que ela irradiava. E quando eu olhei para trás, para mostrar ao capitão e aos demais que tínhamos, enfim, conseguido, vi a cena apavorante: todos tinham sido mortos, as sombras tinham decapitado a todos, o capitão era o único sobrevivente de joelhos e cercado pelas sombras. Lá do alto do altar, e com a caixinha de Barboza em mãos, pude ouvir a voz monstruosa da sombra do capitão: “Ora, ora... Enfim, deu as caras, hein, Barba Púrpura!! Pensávamos que tinha se acovardado da gente. Você demorou demais pra honrar o combinado. Agora você pagará o que nos deve.” A sombra sinistra do capitão Barba Púrpura erguia sua lâmina para enterrá-la de vez no crânio do capitão, quando este sorriu e apontou para mim. Todos ali me encararam. “Abra a caixinha, rapaz!!!”, gritou meu capitão. As sombras peludas correram em minha direção. “Eu não sei como, senhor!!”, gritei eu. As sombras aceleram o passo com olhos de sangue... “Basta se lembrar de uma lembrança boa que você já teve.”, gritou meu capitão caindo de bruços sobre o chão. “Uma lembrança boa??”, pensei eu alto. E quando as quatorze sombras estavam apontando suas lâminas sobre mim, e eu já no chão apavorado, quase chorando, eu me lembrei, como se fosse um relâmpago de imagens: eu me lembrei que mesmo órfão, não conhecendo o meu pai e nem a minha mãe, eu tive muitas pessoas que cuidaram de mim até ali. Eu me lembrei da tia gorda que sempre me dava de comer, eu me lembrei do sujeito manco que me ensinou a pescar, eu me lembrei dos colegas de rua que, apesar das dificuldades do dia a dia, sempre dividiam comigo o pouco dos restos de comida que eles arranjavam, eu me lembrei de tantos outros que me ajudaram a sobreviver até ali e, claro, lembrei do capitão que tinha salvado a minha vida... Nisso, uma força impressionante, emanada de dentro da caixinha recém aberta, sugou todas as sombras assassinas ao meu redor. O lugar começou a desmoronar. E eu fui tomado por um vórtice dourado que ia de encontro ao teto da caverna! Antes de desaparecer além, pude ainda ver o corpo do capitão Barba Púrpura estirado no chão... Num piscar de olhos, me vi nos céus sobre a ilha. Lá do alto, pude ver o Valentina Quebra Ossos sendo atacado e envolvido por uma criatura gigantesca cheia de tentáculos prateados... Eu pairava sobre a ilha e, de repente, ela começou a ser engolida por um redemoinho assustador de enorme! A ilha desaparecia e desaparecia rapidamente, engolida totalmente pelo redemoinho. Este também tragava a criatura de tentáculos e os restos do Valentina. Quando tudo, enfim, ficou calmo, eu despenquei de lá de cima. Fiquei lá boiando sobre os restos do antigo navio. Não sei bem por quanto tempo fiquei lá à deriva, eu não sentia mais o poder do tempo, eu não sentia fome ou sede, tampouco frio ou calor, eu não sentia mais nada, nem mesmo a caixinha de Barboza eu sentia mais em minhas mãos... Lembro vagamente de outro navio pirata me resgatando e d’eu contando essa história a eles. Lembro que pedi a eles para me deixarem na próxima parada. E estou aqui desde então. Trabalhei, prosperei e constitui família por aqui. E, se não disse antes, digo agora o porquê de tanto interesse que tanta gente tem em ir atrás da caixinha de Barboza. Digo que não é mais uma lenda, é a pura verdade, quem a encontra acaba se lembrando da real felicidade. O Barboza da tal caixinha foi o primeiro cara realmente feliz deste mundo e, pouco antes de partir para o outro mundo, ele reuniu essa pura felicidade na tal caixinha. O capitão do Sorriso de Hiena foi um de seus subordinados. E o meu capitão da Barba Púrpura também o foi. Descobri isso tempos depois. Curioso, não?