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Foto: bomdiafeira.com.br |
Tempos de faculdade são realmente muito insanos.
Ainda que o intuito seja acadêmico, cientifico a despirocagem faz parte do
ritual. Beber, fumar e até mesmo cheirar coisas aí de cunho “proibido” entram
facilmente na vida de qualquer universitário, seja ele caxias ou não. Todo
estudante que alcança esse degrau a mais na vida, passa por essa fase intensa
de estudos e festas mais sérias, mais adultas. O barato bate forte e cabe a ele
ou ela aguentar o tranco. Pois bem, sou desses que aguentou a parada toda; sou
um dos sobreviventes, contudo, até hoje, não me esqueço do que vi, numa noite,
num ponto de ônibus: eu vi o mano sem cabeça! Pode parecer papo de guri bêbado
ou chapadão, mas é a pura verdade. Eu vi esse cara. Ele existe! Foi assim:
voltava eu dessas festinhas pós provas de fim de semestre, quando o ônibus, que
eu sempre pegava, parou num ponto de esquina próximo a um cruzamento. Nesse
ponto, que era bem escuro, pois não havia luz e nem abrigo para os que o
usavam, havia apenas uma figura lá de pé a esperar o coletivo. Pude vê-la da
janela onde eu estava, mas, de lá, não percebi nada de anormal ou sobrenatural.
Apenas me pareceu uma figura masculina trajando blusa de gorro e calça jeans.
Era inverno, então nada aí era incomum. O incomum mesmo foi quando aquela
figura passou pela roleta: o ser não tinha cabeça! Aquele corpo sem crânio
andava normalmente pelo corredor do ônibus de um jeito assim meio gingando,
meio dançando, como se estivesse ouvindo uma música que somente ele ouvia. Mas
como?! Como aquilo era possível? Duvidei de mim mesmo ao vê-lo passar, bem
diante de mim. Achei até que tinha exagerado na dose com os meus colegas no
barzinho próximo à faculdade, mas não. Aquilo era real. Aquele corpo realmente
se movia sozinho e sem cabeça! Quando ele passou por mim, eu o encarei. Com os
meus olhos arregalados e a minha boca meio aberta de susto, eu o fitei. Mas ele
me ignorou, passou direto e se sentou lá no fundo do busão. Sentou bem no meio,
estendendo as pernas que nem esses caras folgados que se largam relaxados em
ambientes públicos, como se estivessem na própria casa. Ao testemunhar essa
cena, dei-me conta, pela primeira vez, que somente eu e ele, além do motorista,
estávamos dentro daquele ônibus. Fiquei perturbado. Algo em mim não me fazia
bem. Um enjoo e uma dor de cabeça se manifestaram, de repente, em mim. Olhei ao
redor, o ônibus estava em movimento, mas, para meu espanto, não se via nada do
lado de fora. Nenhuma construção, placa, árvore ou propaganda se via. Estava
tudo escuro! Eu estava rodando em trevas!! Fiquei em pânico. Gorfei horrores
sobre o assento a minha frente. Sentia-me fraco e, do nada, comecei a tremer.
Todo o meu corpo tremia. Apaguei. Não sou epilético, mas, quando recobrei os
sentidos, vi-me no chão metálico da condução. Esse era frio, muito frio. E eu
sentia um gosto amargo na boca. Lá do chão, olhei para cima e vi, o mano sem
cabeça de pé, bem em cima de mim e bem iluminado, com os braços cruzados. Tive
a impressão de que ele estava me recriminando. A batidinha de pé de gente
impaciente no piso do ônibus, reforçou essa minha impressão. Emiti uns
grunhidos e apaguei novamente. Quando despertei, estava de bruços sobre a minha
cama. Os colegas de república dormiam embrulhadinhos em suas camas. Roncos e
flatulências eram barulhos comuns e conhecidos. Eu estava com uma baita
enxaqueca. Todas as minhas articulações doíam. E, a partir daquele dia, nunca
mais farreei adoidado. Juízo, enfim, adquiri.
Obs.: conto NÃO selecionado no Concurso Literário - Lendas Urbanas: os medos são reais da Cartola Editora.
Obs.: conto NÃO selecionado no Concurso Literário - Lendas Urbanas: os medos são reais da Cartola Editora.