quinta-feira, 23 de abril de 2020

MÁSCARAS

Imagem: haac1.wordpress.com



antes se via
gente, cabeça erguida
agora, só corça
gente arqueada
baita bosta!

veem na telinha
coisas pequenas
picuinhas
um palmo à frente
não veem mais,
a máscara caseira
bloqueia tudo!

menos seus defuntos...

a vida não é mais vida
vivida nem isso é;
é uma coisa assim bem diferente

é protótipo de algo
que abortou

é tédio que envolve
qualquer presente;

é uma dor
que tentam esconder,
mas está na face

segunda-feira, 16 de março de 2020

O MANO SEM CABEÇA

Foto: bomdiafeira.com.br

Tempos de faculdade são realmente muito insanos. Ainda que o intuito seja acadêmico, cientifico a despirocagem faz parte do ritual. Beber, fumar e até mesmo cheirar coisas aí de cunho “proibido” entram facilmente na vida de qualquer universitário, seja ele caxias ou não. Todo estudante que alcança esse degrau a mais na vida, passa por essa fase intensa de estudos e festas mais sérias, mais adultas. O barato bate forte e cabe a ele ou ela aguentar o tranco. Pois bem, sou desses que aguentou a parada toda; sou um dos sobreviventes, contudo, até hoje, não me esqueço do que vi, numa noite, num ponto de ônibus: eu vi o mano sem cabeça! Pode parecer papo de guri bêbado ou chapadão, mas é a pura verdade. Eu vi esse cara. Ele existe! Foi assim: voltava eu dessas festinhas pós provas de fim de semestre, quando o ônibus, que eu sempre pegava, parou num ponto de esquina próximo a um cruzamento. Nesse ponto, que era bem escuro, pois não havia luz e nem abrigo para os que o usavam, havia apenas uma figura lá de pé a esperar o coletivo. Pude vê-la da janela onde eu estava, mas, de lá, não percebi nada de anormal ou sobrenatural. Apenas me pareceu uma figura masculina trajando blusa de gorro e calça jeans. Era inverno, então nada aí era incomum. O incomum mesmo foi quando aquela figura passou pela roleta: o ser não tinha cabeça! Aquele corpo sem crânio andava normalmente pelo corredor do ônibus de um jeito assim meio gingando, meio dançando, como se estivesse ouvindo uma música que somente ele ouvia. Mas como?! Como aquilo era possível? Duvidei de mim mesmo ao vê-lo passar, bem diante de mim. Achei até que tinha exagerado na dose com os meus colegas no barzinho próximo à faculdade, mas não. Aquilo era real. Aquele corpo realmente se movia sozinho e sem cabeça! Quando ele passou por mim, eu o encarei. Com os meus olhos arregalados e a minha boca meio aberta de susto, eu o fitei. Mas ele me ignorou, passou direto e se sentou lá no fundo do busão. Sentou bem no meio, estendendo as pernas que nem esses caras folgados que se largam relaxados em ambientes públicos, como se estivessem na própria casa. Ao testemunhar essa cena, dei-me conta, pela primeira vez, que somente eu e ele, além do motorista, estávamos dentro daquele ônibus. Fiquei perturbado. Algo em mim não me fazia bem. Um enjoo e uma dor de cabeça se manifestaram, de repente, em mim. Olhei ao redor, o ônibus estava em movimento, mas, para meu espanto, não se via nada do lado de fora. Nenhuma construção, placa, árvore ou propaganda se via. Estava tudo escuro! Eu estava rodando em trevas!! Fiquei em pânico. Gorfei horrores sobre o assento a minha frente. Sentia-me fraco e, do nada, comecei a tremer. Todo o meu corpo tremia. Apaguei. Não sou epilético, mas, quando recobrei os sentidos, vi-me no chão metálico da condução. Esse era frio, muito frio. E eu sentia um gosto amargo na boca. Lá do chão, olhei para cima e vi, o mano sem cabeça de pé, bem em cima de mim e bem iluminado, com os braços cruzados. Tive a impressão de que ele estava me recriminando. A batidinha de pé de gente impaciente no piso do ônibus, reforçou essa minha impressão. Emiti uns grunhidos e apaguei novamente. Quando despertei, estava de bruços sobre a minha cama. Os colegas de república dormiam embrulhadinhos em suas camas. Roncos e flatulências eram barulhos comuns e conhecidos. Eu estava com uma baita enxaqueca. Todas as minhas articulações doíam. E, a partir daquele dia, nunca mais farreei adoidado. Juízo, enfim, adquiri.



Obs.: conto NÃO selecionado no Concurso Literário - Lendas Urbanas: os medos são reais da Cartola Editora.

segunda-feira, 9 de março de 2020

PANDEMIA



Em um local pequeno,
Assim ela aparece.
Dali, se alastra, não esmorece.
Ao contrário, cresce, ganha terreno.

Toma o povoado por inteiro.
A seguir, domina a cidade, cedo.
Em um país todo mete medo!
Só quem se salva tem dinheiro?

Em outro país se achega.
Quem não quer ver, se cega.
Mas não há como fugir:
Uma vez aqui, é tarde pra agir.

E assim um vírus só se reproduz.
No medo, na ignorância pega carona.
E, enquanto muitos perdem a luz,
Poucos aí na desgraça alheia faz fortuna.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A CONJUNÇÃO QUE NÃO JUNTA NINGUÉM

Imagem: renovylavanderia.com.br


enquanto tu aí pulas
outros são enforcados

enquanto tu aí enche a cara
outros morrem de sede
ou bebem água podre mesmo

enquanto tu aí se farta
escrevendo resenhas no Instagram
outros lutam e morrem de fome
revivendo um tal de Vietnã

enquanto tu aí sorri
por qualquer coisa besta vista no YouTube
outro chora por perder parente
e não ter ninguém que o alente

enquanto você aí lê
outro nem isso pode

enquanto um vive
outro morre

é sorte?

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

CANCELAMENTO

Foto: COLAGEM/NAOMI / nexojornal.com.br


nesta cultura do cancela
quem não passa
perde a vela
morre na praia
ou se perde nela
mas coitado/coitada!
se esquece
de que na política do politicamente correto
quem não acata, duvida
logo perde a bainha
perde tudo o que já fora ou é
até biscoito perde e leva mó pé