segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

BASTARIA POESIA

bastaria um gesto
uma ação
e a vida de muitos
mudaria de vez

bastaria uma palavra
dita
no momento certo
e o mundo seria outro —
melhor
talvez

bastaria um pensamento
uma ideia
para os universos paralelos
de cada um
se cruzarem
se unirem
em um só


bastaria poesia

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O TOM BRANCO DA NEVE

na queda
a gente
se revela

no topo
todo mundo
acha gosto

na ascensão
ninguém percebe
o tom branco da neve

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A CAIXA QUE NÃO ERA DE PANDORA

A caixa é aberta e dela saem infinitas coisas sem sentido. Quem ali vê, não acredita, aberta deixa a boca e os olhos arregalados. Quando a caixa enfim se esvazia, quem ali está, vai bisbilhotar, e vê, no fundo da caixa, todo o sentido do mundo.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

DESTERRADOS VÃO ÀS COMPRAS

Em zonas francas, você o vê mendigando ofertas. Parece necessitado, mas não é. É o típico brasileiro querendo levar vantagem em tudo. Até quando doa, pede desconto. E quando avista algum defeito no produto comprado a prazo, liga de imediato no SAC e exige um produto novo. Ele não é bobo. Consumidor se fez há muito tempo. Torcemos para que um dia vire um cidadão também.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

FUTURO DISTÓPICO

quarto escuro. barulho de chuva na janela. gritos de socorro pela rua. ninguém acode, ninguém se importa. em outros quartos, todo o resto assiste ao homicídio pela tevê. sou o próximo.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ELEFANTE DE MARTE

Em meio à poeira vermelha, o marciano naturalizado caminha a passos lentos. A gravidade em si não tem nada a ver com isso. Ele assim caminha porque está muito cansado de subir e descer as infinitas dunas do planeta rubi. Seu cansaço não é coisa de humor, é mais física essa dor. O astronauta-ancião ainda caminha, pois, a geração posterior a dele, é perdida, então, cabe a ele o fardo árduo de toda a humanidade.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

IMPERIALISMO AMERICANO NAS RUELAS DO CAPÃO

desbaratinada corre
tina thompson
pela rua

é noite,
madrugada
ninguém à vista
ou de tocaia

tina thompson corre
que nem lola,
porém,
diferentemente daquela,
tina thompson cai
e se esborracha

— na quebrada,
quem se vende,
quebra a cara

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A ARTE DA AUSÊNCIA


A arte da ausência é a vida que se cria na solidão.


Fazia sol, um calor de queimar quengo, mesmo assim, uma figura escura se atrevia a perambular pelada pelo deserto em pleno dia. Não se distinguia bem a figura retirante. Era uma mancha apenas; um borrão negro se via bem distante... No deserto, quem escalda a própria sola, não peregrina por esmola. Quem a gente vê aqui, meio que não vendo, é o sentido da vida no ventre estéril.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

DEPOIS DA TORMENTA

Por mares nunca antes navegados, a diminuta embarcação vagueia sobre ondas virgens. Sua tripulação é restrita a uma pessoa apenas. Essa, neste momento, dorme o sono dos justos. É noite e, em alto mar, a noite é mais noite do que em qualquer lugar. A brisa marinha se faz presente e refrigera o corpo que nem sopro de mãe em leite quente. O barco segue no balanço do destino e a pessoa que lá repousa segue sonhando, e sorrindo.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A MINHA CARA REFLETE A MINHA ALMA

De nada sei sobre o Paraíso,
Tampouco quero saber do Inferno.
O que eu quero é simples:
Não ser mais um enfermo.

Sofrer, já basta meia vida.
Felicidade não quero direto na veia.
Quero um meio termo.

Desejo o sossego careca dos monges,
Que tomam sol, despreocupados, na laje
E caminham sem olhar pra celulares.

Anseio por uma vida assim,
Sem nada de valor nos bolsos,
Só com o gosto de viver no rosto.