sábado, 9 de outubro de 2010

Fragmentos do cotidiano (5)

- Mano, essa mina não larga do meu pé! Me liga todo dia, às vezes até à cobrar a desgraçada me liga. Não sei mais o que fazer com esse carrapato carente. Sério. Trato-a mui bem, sou mui cordial, simpático, bom ouvinte, e já deixei bem claro que não tô afim dela do mesmo jeito que ela tá afim de mim. Já disse-lhe: - Oh, fia, não dá. Não rola. Mas a danada é persistente, carente e determinada ao extremo! Ela é dois anos mais jovem que eu e, mesmo assim, suas atitudes se parecem mais com uma adolescente passional. Me disse que tem a Lua como sua ouvinte de cabeceira, diz tudo pra ela, abre-lhe o coraçãozinho ensangüentado. E eu cá indiferente, quase. Enquanto ela me diz, me confessa essas coisas, minha paciência diminui, minha preocupação cresce. Fico sem palavras. Temo por minha própria vida. Sério. Sei mui bem o que esse tipo de pessoa é capaz de fazer... Só que, diferentemente da Ismália do Alphonsus Guimarães, poema este que está lá grandiosamente exposto na estação Paraíso do Metrô (doce ironia macabra) ela, a perdidamente apaixonada, vai é me matar! Isso é óbvio. Tô lascado. Ela é vingativa, dá pra perceber só pelo jeito que ela fala. Ela muda de tom frequentemente numa conversa mais informal. Ela é bipolar! Isso mesmo. Por isso tenho fortes receios quanto a ela. O que devo fazer, meu chapa? Ser grosso? Ofendê-la diretamente? Já lhe dei umas indiretas, e ela as percebeu de cara, fiquei até sem graça. Ou será que devo ser cruel? Usar aquele corpinho rechonchudo, bronzeado, e de olhos castanhos nada castos pra satisfazer minha lascividade pulsante? Devo estuprar sua pachorra como se fosse uma cachorra no cio?!? Não sei se sou realmente capaz dessa atitude anti-heróica. Não sei... Ela não mora cá próximo, sabe, mora em outra cidade – ainda bem! E, na última vez que ela me ligou, disse-me que passará cá na minha cidade, cá no meu bairro, só pra me ver! Disse que está morrendo de saudades de mim. Acho que vou matá-la. Sério.