sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Como nascem os deuses: uma saga

Quando eu fugi da Selva de Pedra,
Não imaginava existir abrigo mais seguro.
Eu estava em apuros!
Desesperado por uma Nova Era,
Desesperado por uma centelha pra ser só minha.
Porém, no fim, foi tudo mentira.
Cruzei céus, arranha-céus, em poucas horas,
Atravessei nuvens sem pudor, incolores
E, quando a chuva desabou,
Matei a sede gratuitamente –
Tem vezes que a gente fica contente
Só por se sentir presente.
Em território seu, quando pousei,
Logo fui atacado por hematófagos,
As bestas-feras me arrodearam –
Fui atacado sem dó!
De mãos nuas me defendi,
Sempre pensando nela, em seus possíveis odores
E no seu alento prometido...
Foi isso que me deu sustento.
Graças a essa ilusão saí quase ileso –
Poucas feridas apresento.
Em território seu, território hostil, retirei-me.
Retirante me tornei,
Peregrinei na terra desolada dela.
Terra quente e abafada essa,
Mas encantada era.
Linda mesmo de se ver.
Quando uma idéia alimentada –
Uma previsão de estação –
É constantemente invocada
Na cachola tola de um herói solitário
(ou mais um otário de passagem),
Tudo é lindo e colorido!!
Bobagem.
Fiz reciclagem, bati perna adoidado
Pra não esmorecer até ver o sol nascer,
Crescer
E renascer...
Fome quase passei,
Não me alimentei assim tão bem.
Sim, sacrifícios foram feitos...
Não teve jeito, partes de mim ficaram
Pelo caminho...
Muito sangue derramei também,
Por ela, sempre por ela, e
Por mim, e do meu, muito do meu também.
O desejo me estimulava;
Minhas provisões, escassas começavam.
Eu queria estar nas graças celestiais logo!
E quando me postei diante da
Sua Fortaleza de Sol, mesmo
Cego, suspirei.
De alívio, óbvio, sem remorso ou ódio no coração.
Mas a visão era ilusão,
O prometido não existia,
O que vi eram cinzas...
Eu ainda estava sozinho;
Eu estava diante dos escombros de um romance bobo.
A miragem que alimentei se fez presente,
Minha esperança se fez ausente,
E minhas forças me abandonaram:
Caí de joelhos sobre os destroços de um sonho em ruínas.
Meu corpo, desidratado, começou a vazar...
Pequeninas lágrimas escorreram
Sobre a minha face batida – lágrimas doces,
Iludidas.
E quando a primeira gotícula atingiu
O solo
Uma coisa estranha se sucedeu:
Um buraquinho foi se formando,
Minha lágrima, solidificada,
Pesada,
Foi se afundando...
De repente, uma tromba d’água!!
Fui arremessado longe.
A água não parava de jorrar,
Uma água doce e fria me envolvia rápido –
Eu estava muito cansado pra fazer algo,
Deixei a água me acalentar.
Boiando me deixei.
Eu não queria nadar;
Eu não estava assustado;
Eu estava é muito cansado –
O cansaço tinha superado o meu medo.
E sem medo e previsão alguma
A visagem apareceu.
A princípio pensei que fosse o Sinal da Morte.
Meus olhos marejados estavam semicerrados,
Bem abertos nessa hora ficaram.
O que vi, acima de mim, não tinha corpo,
Era um troço luminoso e vaporoso,
Que se deitou sobre o meu corpo boiante,
Ondulante,
Não mais um retirante.
A sensação era de conforto,
Um gozo delicado que me revigorava lentamente.
Esse troço tinha me penetrado pelos poros,
Sentia isso muito bem;
Sentia-me flutuar sobre o mar que se formara...
Adormeci além.
Quando dei por mim, parecia madrugada ainda.
Pude ver, ao me levantar, bem a minha frente, um filete
De Sol
Sobre a linha
Do Mar...
Olhei ao redor.
Estava numa terra amanhecida,
Aparentemente fértil e intrigante,
Havia Silêncio por todos os lados.
Só ouvia a mim mesmo:
Eu ouvia claramente meus pensamentos;
Eu ouvia minha respiração limpinha;
Eu ouvia as batidas calmas do meu coração...
O Sertão, onde me refugiei,
Tornei-o Mar –
O Mar das Dores Manifestadas.
Agora, o que me vier daqui pra frente encararei de
Alma lavada.
Quem eu sou agora já me basta.
O Novo Mundo é uma (a)ventura inesperada!!