terça-feira, 15 de março de 2011

Móbiles: Safra (1)

namorada
namorada
namorada
namorada
namorada
namo
namor
namora

...

amortecedores
     o
amor
        tece
              dores
          cedo
        e
a
  morte
           cedo
amortece

...

navalha

  aval

na

naval

         há

...

deslumbrante
deslumbra
               ante
               a
       umbra
deslumbrante

...

consolação
consola
          a
          ação
  o

     sol

     só

consola

          a

     sola

...

correspondências
correspondencias
correspondênciàs
correspondências
correspondências
correspondencias
corresponde?

Miniensaio (2)

Em tempos em que o tédio assola a humanidade, nós, humanos, procuramos algo pra nos distrair, pra nos ocupar, na tola esperança de parecermos produtivos – a época atual nos exige isso, e cada vez mais cedo. Por isso, vemos a maioria das pessoas fuçando seus aparelhinhos celulares a cada pausa prevista, em busca de algum joguinho ou algum amigo ou conhecido online. Poucos vemos lendo um livro, uma revista ou uma revistinha, e ainda é mais raro ver, quase uma atividade em extinção mesmo, uns e outros caçando palavras num papel, ou até mesmo escrevendo palavras avulsas num caderninho de estimação. O que vou lhes apresentar nasceu assim, dum momento de ociosidade, dum momento de rascunhos avulsos numa folha de papel. Escrever à mão livre é algo que todos aprendemos. É sinal de instrução. Contudo, hoje em dia, aprende-se a digitar, a teclar primeiro antes de escrever com lápis ou caneta. A caligrafia atual anda péssima, ilegível. Cada vez mais raro são seus praticantes. Pois bem, meus Móbiles nasceram assim: dum momento ocioso em que me predispus a treinar minha caligrafia horrível. Rascunhava eu palavras ao acaso, assim de forma espontânea mesmo, e percebi algo que você, caro leitor, e todo mundo já percebeu um dia: palavras dentro de palavras. E fui escrevendo essas outras palavras abaixo dessa palavra inicial, mantendo um paralelismo, mantendo certa linearidade pra construir um sentido claro; não muito subjetivo. Estava me divertindo, estava sorrindo enquanto declinava palavras e seus significados. Eh, eu estava, de certa forma, caçando palavras, cruzando-as. Era um passatempo, admito. Um passatempo que muito me agradava. E vendo a forma desses textos, resolvi taxa-los de poemas, pois, além da forma em que ficavam distribuídos na página, tinham certa polissemia aparente, algo bem típico dos poemas, certo? No mesmo instante rotulei esses poemas de Móbiles, pois via, ali mesmo sobre a página, um certo movimento equilibrado e harmonioso. Realmente algo muito parecido com aquelas esculturas abstratas móveis suspensas no espaço por fios. Mais tarde, me dei conta, caí na real: será mesmo que isso que fiz é algo novo, afinal, tem lá algo do Concretismo, né?? Só que, diferentemente daquele movimento estético, retomo a linearidade, buscando um sentido mais claro, talvez, mais visível. E a liberdade que eles gozavam sobre a página, aqui, no meu caso, é suprimida. Meus Móbiles são mais presos mesmo. Espaços em branco até há, só que bem poucos. Até o título do poema eu retomo, mas ele não está em destaque, ao contrário, o título faz parte do poema, está no seu corpo, é o próprio poema. Uma palavra apenas é o título e o poema! Bem, sabe, isso que eu fiz pode até ter outro nome, é possível, não fui muito a fundo na minha pesquisa, mas mesmo assim, curti criar isso. E fique tranquilo, leitor amigo, nas próximas postagens exporei minhas criações, meus Móbiles. Espero que eles exemplifiquem bem o que tentei aqui explicar. Aguardem então essas safras.

domingo, 6 de março de 2011

Citações avulsas (6)

“... a arte só revela a realidade inventando-a...”

“(...) Na verdade, eles [os artistas] podem se valer de todo e qualquer recurso para se exprimirem e se inventarem.”

“Não resta dúvida de que o mundo de hoje pôs nas mãos das pessoas novos recursos tecnológicos, meios outros de comunicação e criação de formas, tanto no espaço como no tempo, e tudo isso gera novas possibilidades de inventar mensagens e imagens inusitadas.”

“... um inesperado universo de relacionamentos semânticos.”

“(...) O problema talvez esteja no fato de que, não tendo uma linguagem própria, o artista se encontra a braços com uma experiência sem limites, que o leva, com frequência, a perder-se na gratuidade do que concebe.”

“(...) A obra tem que, por sua qualidade, afirmar-se necessária a quem a aprecia. Aí reside o xis da questão.”

“Porque toda obra de arte é uma invenção, o artista, ao começá-la, nunca sabe como ela será quando concluída. É que, em sua elaboração, os fatores casuais têm papel decisivo: realizá-la é tornar necessário o que surgiu por acaso.”

“Isso explica por que a maioria das obras de arte dita contemporânea (...) mostram-se como algo gratuito: falta-lhes esse traço de expressão ‘necessária’ que define a criação artística.”


Fonte:

GULLAR, Ferreira. A obra necessária. Folha de S. Paulo. Ilustrada de domingo, 06 de março de 2011, E6.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

As vozes do metrô

Desde pequeno convivo com o transporte público. Lembro-me de estórias que mamãe contava de mim aos berros numa longa viajem de ônibus. Um verão e um chorão. Lembro-me também de mim, meninote, caído no vão entre o trem e a plataforma, e mamãe, negligente e irritada, não sei bem por que, me mandando sair dali sozinho, e ninguém, dos que estavam lá sentados no vagão, me acudiu. Acho que saí sozinho, não tenho certeza, de como saí não me lembro... Ah, o metrô! Acho que todo mundo aí quando não sabia ler ainda, a cada estação que o metrô parava, perguntava pro parente próximo: “Que estação é essa?” Ou: “Tamo em qual estação?” “Ainda falta muito?” “Nós já chegamos?” “Qual é a nossa?” Essas coisas... Mas hoje, o que considero interessante são os avisos que os operadores costumam dar. Fora aquele “próxima estação tal”, repare bem no tom de voz deles quando dizem: “Por favor, não impeçam o fechamento das portas. Isso acarreta atrasos em todo o sistema. Colabore.” Quando assim, dito de primeira, soa até normal, nada anormal, mas quando a repetem duas, três vezes aí sim você percebe que o cara (ou moça) é humano, e não uma doce voz de estúdio. Ele ou ela diz o aviso em tom de raiva mesmo. Nota-se nitidamente o estresse, o enfezamento naquela voz. E a voz tá ti reprimindo, ti dando mó bronca, pois ela, a voz, disse “não impeçam”, no plural mesmo, e, mesmo se você estiver lá no bendito corredor, todo cercado, apertado e suado, ainda leva a culpa e o sonoro puxão-de-orelha por estar impedindo o fechamento das portas! Como se você, usuário – palavra curiosa, não? -, fosse uma entidade volumosa que bloqueia constantemente as esguias portas automáticas do metrô. Mas, aquela voz, nem sempre foi desse tom, não. Pelo menos, não me lembro dela irritada, enfezada na minha tenra infância. Isso aí é coisa de agora, deste século XXI. Se esta segunda década do século ficará conhecida na História como a década das quedas das ditaduras árabes, não sei bem ainda, mas digo, me atrevo a dizer, que o fim da voz viva do operador de metrô está próximo. Por mais que soe engraçado o próprio operador estressado, isso lá não será mui tolerado. Há muitas doces gravações aí sobre os trilhos ultimamente. E por mais agradáveis, simpáticas e confiáveis que essas gravações pareçam ser, ainda prefiro a voz viva. Mas não essa estressada e automática, que só fala, lê aquilo que lhe dão, não. Gostaria de ouvir uma com mais personalidade, sabe? Dessas tipo locutor de rádio, entende? Soaria algo assim, por exemplo: “Próxima estação: Palmeiras-Barra Funda. Acesso ao terminal rodoviário. Boa viagem pra você que sairá de São Paulo. Mas volte logo, viu? Precisamos de você.” Ou: “Próxima estação: Sé. Bem-vindo a estação mais populosa do sistema. Cuidado com bolsas, carteiras e celulares, pois os mesmos costumam sumir por aqui.” Ou: “Próxima estação: Luz. Desembarque pelo lado direito do trem. Motivo: o lado esquerdo é só pra embarque!” Ou ainda: “Seja gentil. Não dê apenas o seu lugar se você estiver no assento reservado. Pratique a cidadania. O transporte público é coletivo, logo pratique também a empatia.” Ou: “Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma. Sério, muito cuidado!” Ou: “Você mulher, amiga, mãe, leve sua bolsa na mão. Não a deixe no ombro. Ela pode atrapalhar os demais e queridos usuários.” Bem, essas são as minhas surreais sugestões. Tu tens umas aí, caro leitor, companheiro de metrô??

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dois anos!!

Este mês o presente blog completa dois anos! Quem diria que fosse perdurar tanto? Entretanto, ainda desconheço a maioria de seus leitores – se é que têm mais de um. Contudo, uma coisa é certa: de lá para cá, a quantidade de textos publicados aumentou. Estamos com uma média de quatro textos por mês, praticamente um texto por semana. E acreditamos que a qualidade deles também tenha subido de nível. Bem, teríamos algo mais palpável, mais possível de ser dito com mais segurança, se houvessem mais comentários deixados pelos leitores transeuntes. Não sei por que eles não comentam. Talvez vejam que não vale a pena ou, sei lá, são tímidos demais. Por isso, caros leitores, desde já fiquem cientes: também sou tímido! E, ainda assim, banco o descarado e solto meus comentários em blogs que vou encontrando e, também, claro, nos blogs que sigo. Expressar sua opinião, seu ponto-de-vista, sua ideia sempre vale a pena; é sempre mui importante. O destinatário quase sempre se surpreende e até o remetente se surpreende, quando comentam seu comentário. Afinal, a Internet é isso, certo? Possibilidades praticamente infinitas de conexões, de contato, de transmissão. Bem, voltando. O presente blog faz dois anos. E o que aprendi com ele até agora? Muita coisa. Isso soa um puta dum clichê, mas tem lá sua veracidade. Aprendi que escrever é uma excelente terapia; é algo que realmente me ajuda; me ajuda a organizar melhor meus pensamentos inquietos e persistentes. Aprendi que aprecio deveras essa forma de expressão. E, mesmo não tendo o retorno que eu gostaria, é uma atividade saudável e estimulante. Tenho sempre em mente a questão: qual vai ser o próximo? Nunca sei. A temática simplesmente surge, feito imbróglio, e a forma se apresenta enquanto o texto é feito. Às vezes a forma me vem primeiro, é verdade, quando quero um apelo mais visual logo de cara. Não sei também se esses meus filhos, esses textos, fazem bem ao leitor, não tenho esse poder, e nem sei de fato se eles detestam... A Internet possibilita essa troca, mas por enquanto, até agora, não está havendo tanto troca-troca. Quem sabe daqui a mais dois anos? E se, até lá, eu consigo uma coluna, um espaço num jornal local? Então, essa era o objetivo desde o inicio com o presente blog? Não. Essa ideia foi se formando no decorrer dessa minha atividade textual. Agora, se essa ideia será concretizada, aí é outra estória. Só estou aqui manifestando um possível ensejo, afinal, é mês de festa! Mas, e aí, o que é preciso para conquistar um espaço num jornal ou revista local?? Espero estar no caminho certo. Aliar prazer ao trabalho é algo que minha geração curte e, se eu conseguir conquistar isso, aí sim poderei dizer a todos e sem receio: sou feliz e estou realmente bem. Parabéns, queridíssimo blog!!