quinta-feira, 17 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_LUCIUS, MAURO E NAHIN_CAPÍTULO XX

"A população de Heliópolis tinha atingido e extrapolado o limite máximo de cidadãos viventes."

Dada a ordem oficial, Mauro sorriu um sorrisinho discreto, quase imperceptível, de satisfação, enquanto Nahin, toda indignada, tentou, mais uma vez, expor o seu repúdio a tamanha atrocidade pretendida. Lucius foi inflexível. A população de Heliópolis tinha atingido e extrapolado o limite máximo de cidadãos viventes. A montanha não aguentaria mais gente dentro dela, segundo suas estatísticas e estimativas mais modernas. O povo precisava morrer. O controle de natalidade utilizado se mostrou falho, ninguém tinha imaginado, nem mesmo o especulagista mais pessimista, de que, em menos de 24 horas, quase todas as mulheres da cidadela ficariam prenhas. Apenas uma não engravidou. Nahin não estava grávida. Ela fora a única a não ser atingida pelos olhos fecundapelativos de Jarbas & Ketlyn.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_LUCIUS, MAURO E NAHIN_CAPÍTULO XIX

"... comecem com as execuções..."

Heliópolis estava em festa. A cada último pôr-do-terceiro-sol, seus habitantes humanos comemoravam o fim de mais um ciclo de rica produtividade alimentar. Na manhã do seguinte, o primeiro sol apareceria fraco no horizonte e, com ele, infelizmente, tempos mais severos se iniciariam. Lucius era o rei de Heliópolis, o anão Mauro e a giganta Nahin eram seus primeiro e segundo ministro, respectivamente. Enquanto o povo festejava, os três, de uma grande sacada high-tec, os observava do alto. Seus olhares de profunda preocupação eram visíveis a centenas de metros. Os dois ministros esperavam a resposta definitiva de seu rei. Lucius, então, com a cara fechada, mas cheia de determinação, disse-lhes: “Faça! Não há mais o que possamos fazer. Para o bem deste maldito cativeiro idílico, comecem com as execuções aos primeiros raios do primeiro sol.”.

sábado, 12 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE II_JARBAS & KETLYN_CAPÍTULO XVIII

"... Ketlyn se levantou abruptamente."

Jarbas passava pelos jardins descuidados de Safir, seguia seu faro excitado por uma fragrância incomum, não queria comer qualquer um, ele queria a melhor refeição do lugar. Num acampado sujo e fétido, viu o anjo Ketlyn sentada de costas para si, como se meditasse profundamente. Ketlyn exalava uma áurea alvo-azulada de seu corpo. Jarbas se aproximou dela bem na manha, se encharcando todo de baba quente conforme se aproximava. Faltando sete passos para o bote, Ketlyn se levantou abruptadamente. Ketlyn girou seu corpo e fixou seus olhos negros em Jarbas, que se assustou quando ela se ergueu do chão. Pela primeira vez, Jarbas teve medo. Bem diante de si, o anjo Ketlyn foi se envolvendo em miasmas sinistros que mais lhe realçavam seu corpo nu em pelo. Jarbas ali viu o amor, e ele era saboroso! Ketlyn o chamou para si com um dedo. Jarbas investiu nela todo afoito, louco e tonto de medo e desejo. Os dois se tornaram um ali mesmo. Jarbas & Ketlyn era o amor mais horrendo já feito em um mundo de intensa fome.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

ALÔ, ALÔ, ALEVINO!

Imagem: Ulysses Galletti

peixe pintado
não é retrato

peixe refletido
tampouco um submarino

peixe invertido
não é menos divertido

peixe listrado
é todo agrado

agora
se tu pensas
após morto
só espinha
fazer dele
ou de qualquer outro
um pente
bacaninha
logo aviso:

peixe pequeno
não dá linha


Observação

Poema NÃO selecionado no Concurso Poético Versos & Imagens do Coletivo São Paulo, Escritores Sem Fronteiras de Literatura e Sarau Urbanista.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE II_JARBAS & KETLYN_CAPÍTULO XVII

"... caçou um demônio com asas e partiu..."

O amor, num mundo de fome, pode ser visto e compreendido diante de uma privação. Entretanto, amor não enche barriga. Tal sentimento pouco ou nada se desenvolve em um ambiente hostil. A fome é tanta que ela sobrepuja os demais desejos. E quando eles, o amor e a fome, se misturam, monstros bizarros surgem. Jarbas & Ketlyn estavam unidos, literalmente. Ele, um demônio da fome, ela, um anjo casto, puro, de extrema beleza física e intelectual. Jarbas era consagrado por Baal. Jarbas era seu pupilo, seu filho. Jarbas era um excelente assassino, um matador de primeira, matava até quando não tinha fome, apenas por diversão; ele se alimentava da dor, do medo de suas infelizes vítimas. Um dia, cravou no crânio que queria comer anjo. Então, caçou um demônio com asas e partiu em seguida para Safir, reino pairante sobre as nuvens tóxicas de Soberano. Chegando lá, não teve resistência, até em Safir a fome era uma ordinária visitante constante.