domingo, 1 de agosto de 2010

Saudade(s) do Sol

Já faz um bom tempo que estou cá em resguardo nesta alcova úmida. Ainda estamos em pleno inverno, e o frio típico dessa estação ainda não se apresentou devidamente. Sei disso graças aos ecos dos demais que aqui se abrigaram. Eles estão mais próximos da superfície; preferem a luminosidade à vista, enquanto eu aprecio mesmo a escuridão total – é mais aconchegante, acho. Parece que o Sol anda se exibindo plenamente em pleno inverno. A sazonalidade anda irregular, segundo seus cochichos recentes. E, de repente, sinto um aperto cá no peito. Não é devido a minha enfermidade, ao contrário, é algo mais provocado por mim mesmo, é mais uma perfurada no passado áureo, é saudade, é saudade do Sol. Mas não de qualquer sol. Há muitos sóis lá fora. Sinto falta daquele de manhãzinha, que surge junto aos pássaros e daquele robusto, que chega agredindo-nos à tarde e daquele agonizante, choramingas, mas poético, que se rende toda à noite. Contudo, o Sol do qual sinto saudade demasiada é daquele que está sobre o Mar. Sol com sal: saudade(s). Ou simplesmente praia, como os outros o chamam. Sinto falta dos raios invisíveis tostando meus pelos, minha pele. Sinto falta do granulado pastoso sob meus pés... Sinto falta daquele som constante, oceânico, que quebra e junta a minha alma altaneira, aluada. Mas de qual praia sinto falta? Do Guarujá? Não. Lá quase me afoguei ainda pequenino. Da Praia do Náutico? Talvez, pois lá tomei vários caixotes e descobri que meu sotaque era engraçado, segundo moradores locais. Da Praia Grande? Talvez também, afinal, lá pude nadar à vontade e pude admirar as ondas turvas e as curvas adiposas que lá há em abundância. Eh, eu sinto falta dos prazeres que somente o Sol pode me mostrar, sem pudor e com descaramento justificável, admitido socialmente. Sinto falta das marquinhas alvas que poucos têm o privilégio de ver... Careço de bolinagem, de calor corpóreo, de calor celeste!!! Ah, é verdade, não agüento mais esta quarentena auto-imposta, este exílio forçado. Preciso sair daqui! Minha vida, minha saúde mental dependem disso. Cadê a luz, a radioatividade?!? Cadê os demais refugiados? Por que este silêncio derrepente? Outrora até os seus cochichos se amplificavam em ecos, agora só o silêncio se faz audível. Isso é assustador. Não é mais aconchegante, é atordoante. Serei o último sobrevivente? O que é isso que sinto escorrendo quente sobre minhas bochechas? É alcalino... São, são lágrimas! Sim... Sinto-me mais calmo, relaxado. Minha respiração se suavizou, sazonou-me. Sinto uma brisa. Estranho paradoxo: um refrigério interno, um calor externo. Uma salubridade... É o Sol cá no meu peito, crescente! É o Mar, envolvente! É a convalescença. É a minha ressurreição, finalmente.