segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A fumante de óculos escuros

Há quem diga que viver vale à pena. Verdade verdadeira. Porém, em tempos de bundões, ou de politicamente corretos, viver se torna uma questão de prudência, sobrevivência. Quem arrisca, petisca, mas morre cedo e muito mal. Vivemos tempos de grande exposição, mas cuidar da própria saúde é necessário e muito recomendável. Não devemos vacilar, regrados devemos viver, sem excessos e possessos. Contudo, se você é humano, que nem eu, e não um robô programado por e para esta sociedade de agora, tu deves cometer uns excessos. Falo sério. Viver é se arriscar, dar a cara a tapa e aproveitar, gozar. Não tem como negar, existe por aí muitas coisas que nos faz mal, muito mal. Mesmo assim, dentre essas coisas, tem outras que nos faz bem – um mal que nos faz bem. O cigarro é um bom exemplo. Quem fuma sabe, não há coisa tão tóxica que dá barato relaxante assim tão barata e de fácil aquisição. A nicotina dá prazer, porra! Quer um exemplo melhor? Então, preste atenção no meu causo. Próximo ao meu trampo, faz um tempo, andei reparando numa moça. Ela bate um rango no mesmo restaurante que eu costumo frequentar. Reparei que ela come de tudo, não tem frescura, mas come pouco. Ela não faz aquele montinho de pedreiro, entende? Notei que ela come com calma. Parece até uma monja budista quando mastiga sua refeição. Coisa essa realmente curiosa de se ver, diga-se. Contudo, o mais curioso mesmo é o que ela faz depois do saudável almoço. Ela fuma. Bem, até aí, nada de anormal, certo? Muita gente faz isso. Porém, ela o faz de um modo assim sistemático. Ela saca de sua bolsinha uma pequena latinha. Nesta, ela guarda seus cigarros devidamente embrulhados junto com os isqueiros estilizados. Ela pega um cigarro do saquinho. Ela o cheira. Ela o acaricia como se fosse uma iguaria única, rara que mereça um cadinho a mais de tempo pra ser consumida, degustada. Ela põe o cigarro na boca cheia de batom, dá leves mordidinhas nele, roda-o com a língua. Ela agita o isqueiro freneticamente. A chama que sai é grande demais para aquele troço tão pequenino e cheio de combustível. Ela acende o menino, enfim, e dá umas longas baforadas. Tudo de leve, numa boa, demora pra tirá-lo da boca pela primeira vez. E ela vai nesse ritmo, fumando com gosto, olhando para o nada, concentrada nas baforadas. Ela, às vezes, é lúdica. Tem vezes, não sempre, que ela faz aquelas aureolas com a fumaça do cigarro, sabe? Anéis de fumaça pelo ar. Muito habilidosa essa moça. E sabe mais? Ela gasta mais tempo fumando do que comendo. Se o cigarro é a sobremesa, ela o aprecia como prato principal. Se ela tem uma hora de almoço, não tenho certeza, mas, pelo que reparei, em vinte minutos ela come, nos outros quarenta ela fuma. E sempre só um cigarro, nada mais nada menos. Andei de olho nessa mulher e nesse seu ritual diário por uns bons meses. Quando estava quase fazendo um ano de observação contínua, não resisti mais e fui abordá-la com aquela desculpinha sacana de lhe pedir fogo. Detalhe: eu não fumo. Comprei um maldito maço do mais barato só pra fazer essa descarada abordagem. Acho que ela até desconfiou disso, quando acendi aquela porra e me engasguei horrores quando eu dei as primeiras baforadas... Enfim, puxei papo com ela e, poxa vida, até que foi agradável, viu, apesar daquela fumaça tóxica e mortal nos envolvendo. Falamos sobre o tempo, sobre o transito, sobre os protestos e sobre os cigarros, claro. Aí, aproveitei a deixa e a interpelei sobre esse ritual diário dela e tal – eu confessei que a observava. Ela me disse, na maior simpatia e boa vontade, que sofria de uma doença terminal, tinha câncer na garganta. Assustado, fiz a pergunta idiota do então por que dela ainda fumar todo dia. Ela me confessou que só fumava um, justo aquele um cigarro por dia, e nenhum outro mais. Aquele era o seu único prazer, o seu único momento especial durante todo o dia, nada mais. Ela me disse isso com um sorrisinho triste, fraco e com os olhos meio que marejados de lágrimas. Bem, acho que estavam marejados... Depois disso, ela pôs uns óculos escuros. Consultou as horas em seu celular e me disse adeus, assim, de repente, e com um beijinho seco na minha bochecha direita. Fiquei surpreso com aquele gesto de carinho espontâneo e genuíno e meio que preocupado também, não conseguia entender o porquê. Fiquei com aquela imagem e com uma sensação estranha o resto do dia. Mal dormi à noite. Noutro dia, que era uma sexta-feira, não a vi no restaurante de sempre e nem no lugar aonde ela costumava sempre fumar. Fiquei ainda mais preocupado. Por sorte, ou melhor, por memória, nesse tempo todo em que eu a fiquei observando, eu já sabia onde ela trabalhava. Era bem próximo do meu trampo até, umas três quadras só. Passei lá depois do meu expediente e, chegando lá, a porrada: ela tinha falecido. E naquele mesmo dia em que eu finalmente a abordei, ou seja, ontem! Fiquei em choque, baqueado pra valer. Depois me disseram mais coisas sobre ela. Ela tinha a mesma idade que a minha, morava só, não tinha filhos, os pais já tinham morrido, os parentes, todos, estavam espalhados em outros países e, se tinha amigos, eram muito poucos ou quase que nenhum, desconhecidos. Ela era muito fechada, reservada, não tinha uma turma pra chamar de sua. Tentei saber do enterro, mas ninguém sabia de nada. Passei o fim de semana pensativo. Eu era muito parecido com ela, afinal. Eu também estava sozinho nesta terra, nesta vida. E na segunda-feira seguinte, depois do meu almoço, eu comecei a fumar. Fumo só e unicamente um cigarro por dia, nada mais nada menos que isso.