sábado, 16 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_UIÓP_CAPÍTULO XXXIII

"Ketlyn lhe sussurrou..."

Uióp estava assustado. Nunca sentira algo parecido de si vindo de Ketlyn. Ele sempre a imaginou igual a todos os outros anjos que viviam em Safir. Uióp foi pego de surpresa. Ketlyn lhe sorriu um sorrisinho sapeca, como se uma ideia faceira e mortal lhe passasse pela virtuosa cabecinha. Ketlyn estendeu os braços e tocou, com suas mãos macias e límpidas, o rosto desfigurado e côncavo de Uióp. Ketlyn aproximou seu rosto ao de Uióp, parecia que ia lhe dar um beijo, mas seus lábios rosados se aproximaram da orelha esquerda de Uióp. Ketlyn lhe sussurrou: “Vá, meu arauto assustado. Vá se saciar. Alimente sua fome assassina pela carne alva de seus semelhantes. Devore a todos com muito gosto. Não deixe que escape nenhum anjo tolo. E, depois que se sentir coberto de sangue celestial, caminhe sobre os restos de suas vítimas; caminhe sobre esses que, mesmo desconfiados de ti, te trataram como igual; caminhe solitário até a borda e se lance de Safir de vez. Caia como meteoro sobre a terra que definha e vá aplacar a sua fome no último reino fértil desse planeta de miseráveis.”.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

VESTIDA DE SOL, de Rodolfo Guimarães Neves

Imagem: Gismonda, 1894-5. Alphonse Mucha / Mucha Museum / Mucha Trust 2017

Numa busca desesperançosa
Pelo mais sombrio pântano
Foi com surpresa e espanto
Que eu percebi a aurora

Entre as copas da vegetação
Entre as mais vis feras
Você me lembrou como era
Valiosa a iluminação

Na escuridão do lamaçal, um farol
Guiava-me como uma estrela
Atraindo e salvando pela beleza
Encontrei você vestida de Sol



Referência

Antologia Poesia Agora -- Edição Inverno. Luis Nogueira, Wellington Souza. São Paulo: Trevo, 2018. Página 107.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_UIÓP_CAPÍTULO XXXII

"Uióp vivia solitário no reino de Safir."

Uióp vivia solitário no reino de Safir. Ele sentia o que ninguém sentia por ali – ele sentia fome de anjo. Desde pequeno fora assim, ele não entendia bem o que era aquilo que ele sentia dentro de si. Uióp comia as plantas-fluorescentes do lugar, ele se alimentava de ar, mas sentia que aquilo não era certo, nem suficiente, seus dentes perolados formigavam por algo mais... Às vezes, ele ficava na borda de Safir, imaginando como era aquela terra desolada abaixo de si, que todos ali, ao seu redor, lhe descreviam tão assustadora e chorosamente. Uióp ouvia essas histórias e ficava maravilhado, ele sentia mais fome a cada relato ouvido. Ketlyn era a criatura celestial que mais lhe agradava ouvir. O papo com ela fluía bem e seguia rumos inesperados. Mesmo recluso, Uióp sempre tinha ouvidos para Ketlyn. Foi no alvorecer da sua maturidade, que Uióp confessou seu gosto profano à Ketlyn. Essa lhe segredou também o mesmo desejo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

QUERO, de Quitilane Pinheiro dos Santos

Imagem: LanceParfum, 'Rodo'. Alphonse Mucha, Litografia

Quero!
Que me possua
Tomando-me vagarosamente com seu lábio
Gesticulando
Breves momentos de êxtase
Alastra-se fogo!
Neste corpo desnudo
E nessa volúpia de gozo
Aguardo-o, ardente e voraz...
O sabor do deleite ejaculado do prazer
Das energias emanadas por nossos corpos
Quero...
Desvendar a libido dos orgasmos.



Referência

Antologia Poesia Agora -- Edição Inverno. Luis Nogueira, Wellington Souza. São Paulo: Trevo, 2018. Página 105.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_UIÓP_CAPÍTULO XXXI

"... um sinal de mau presságio..."

Uióp nascera sem sexo. Os anjos de Safir tinham sexo definido, eles fornicavam com gosto, como todas as criaturas nascidas em Soberano. Uióp nascera sem olhos. Em seu lugar havia dois buracos negros como a noite mais escura. Uióp nascera sem cabelo e, mesmo crescendo de corpo, continuava careca. Aliás, nenhum pêlo crescia em seu corpo, Uióp era todo liso, não tinha sequer sobrancelhas, cílios ou qualquer outro cabelinho no seu esguio corpo. Os anjos de Safir não o viam com bons olhos, uns até pensavam que ele era um sinal de mau presságio, porém, mesmo desconfiados, criaram a criatura incomum como se fosse um deles – em Safir nada se mata, tudo se desenvolve. Mesmo deficiente, Uióp crescera saudável. Carente de olhos para ver, seu olfato se tornara seu guia. Mesmo sem sexo para se reproduzir e se divertir, seu tato era o mais aguçado do reino, Uióp podia sentir muito mais do que simples toques angelicais, Uióp podia sentir o cardápio saboroso ao redor de si.