segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Gemidos na chuva

ouço gemidos escondidos na chuva que cai... são gemidos tímidos, femininos, sutis a cada milhar de gota pequenina que cai... a noite, esta noite, de verão está fria. vejo gotículas no vidro embasado da janela do meu quarto. o vento sibilante balança a árvore frondosa num ninar tenebroso... suas folhas cintilam prata a todo vai-e-vem... a sombra fantasmagórica desse ser vegetal impregna minha cama; toma todas as paredes brancas do meu quarto solitário. não vejo o luar. só ouço gemidos escondidos na chuva... e esses grunhidos me dilaceram aqui dentro; esses sons incomodam minhas entranhas vazias e desgastadas... não são gemidos de prazer esses que estou ouvindo agora. são mais gemidos de dor. a desgraçada que atirei a pouco pela janela do meu quarto teima em gemer nua e ensanguentada no chão encharcado e lamacento dos fundos da minha morada. lá se vai mais uma ex-namorada.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Anotações de um bebum introvertido (3)


Eu prefiro ouvir as estórias dos outros a contar a minha.





Parece que, para alguns irritadiços aí soltos, a educação é demonstração de fraqueza. E assim as pessoas de boa índole vão sendo massacradas!!





Não adianta, um boêmio como eu sempre carregará uma barriguinha saliente como bichinho de estimação.





ATITUDE É SINÔNIMO DE FELICIDADE!!





Das quatro que vejo ler Cinquenta Tons de Cinza, por que só a gordinha ri?? A loira de óculos lê compenetrada, a senhora chocolate lê balbuciando e a prenha languida não demonstra nenhuma reação!!! E a gordinha no seu cantinho vai rindo, e rindo e rindo...





Não há nada mais sexy numa mulher do que aquela gordurinha tímida que fica sobre a cintura da calça quando ela está sentada!!





- Meu, não dá! Tem vezes que é melhor atender as vontades da carne do que as necessidades do espírito. Assim, um ainda sai satisfeito!





Meu Carnaval é espiritual: penetro tantas carnes, adentro tantos corpos que nenhum tipo de exorcismo me tira da folia orgástica!!





Embriagados dizemos umas verdades. Às vezes umas verdades tão verdadeiras que não deveriam ser levadas tão a sério assim.





quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

21, 22 e 23: três dias de nonsense

- Tá olhando o quê?!, de Mark Bridger (Foto: Grosby Group)


Engradado engraçado

- Ah, essas coisas desagradáveis que deixamos de fazer para não desagradar aqueles que nos desagradam constantemente... Por que nos reprimimos tanto assim, hein? Agradar ou ser agradável é tão importante assim?!




Sapiência

Hoje em dia, o sapo não lava mais o pé porque não quer, mas sim porque ele, o sapo, não tem mais dedo nenhum no pé e na mão pra lavar o que sobrou do pé ou da mão (!); o sapo-martelo ou sapo-ferreiro sem suas indispensáveis ferramentas de sobrevivência, ou seja, sem os seus membros, é só mais um hipster mutilado.




Alpinistas suicidas

galgando as dobras da bota preta, logo deslizamos no jeans azul bem lavado até o quadril largo e redondinho, ali enrolamos por um tempo, nós estávamos sem pressa; depois continuamos subindo rumo ao topo da top, escalamos cada linha horizontal tricotada na blusa quentinha apresentada, balançamos até a cabeça pegando impulso no primeiro brinco longo que avistamos, de lá de cima, no cume do crânio alisado, não tinha mais pra onde irmos, estávamos sem saída, então escorregamos de propósito e caímos certeiro entre os belos seios(.)!(.) morremos felizes:):)




domingo, 20 de janeiro de 2013

A ciclista escarlate

É domingo. Já passa das três da tarde. E faz um puta sol lá fora, na rua. Eu cá acabei de almoçar; estou só curtindo o movimento da Rua Augusta enquanto dou uns goles na minha cervejinha geladíssima. Domingo é sempre assim: sem nada de estressante, ou que enche o saco, pra se fazer; eu cá só de boa numa mesa de um bar amigo. E que se foda todo mundo! Tô aproveitando, do meu jeito, este dia vagabundo. Fico só dando uns goles na breja e fico vislumbrando as bundas femininas que sobem e descem satisfeitas a minha querida Rua Augusta... Às vezes descem uns skatistas rumo à Praça Roosevelt, às vezes sobem uns ciclistas em direção à Avenida Paulista... Agora a pouco desceu a ciclista escarlate. Se tu, amigo leitor, não sabe quem ela é, fique tranquilo, já lhe digo, deixe-me dar só mais um gole... Pronto! Bem, o causo é o seguinte: cá nas proximidades, no Centrão, a figurinha da ciclista escarlate é sempre visível. Aliás, não tem como não vê-la. Montada naquela bike rubra seu rabo piscante é visto de longe – ela tem uma luzinha vermelha acoplada no selim da magrela, e ela, a luzinha, fica piscando constantemente, isso é uma medida de segurança, tu tá ligado, mas isso não deixa de ser algo parecido com um vaga-lume com o cu avariado, cê não acha? Pois bem, não é só a bicicleta e a luzinha sanguínea que chamam a nossa atenção. A ciclista é escarlate e, como tal, cobre-se toda de vermelho, desde os mimosos tênis até o capacete estiloso. Até suas coxinhas são vermelhinhas – coisa tenra de se ver, rapaz. Seu rostinho é todo coradinho, uma tentação para um velho beberão como eu. E olhe que ela passou agorinha por mim, coisa de segundos; e como eu pude ver esses detalhes, tu, amigo leitor, deve de estar se perguntando, né? Ora, meu caro, sou um observador nato! Não mosco diante do prazer passante, esfuziante de se ver. Enfim, a ciclista escarlate desceu a Augusta a toda. Ela não reparou em mim, mas eu me derrapei nela. Talvez você aí, leitor desconfiado, não esteja me botando fé; talvez ache que eu estou delirando por causa da birita. Digo-te: relaxe, é domingo, se quiser ver a ciclista escarlate um dia desses, não carece d’ocê vir cá onde estou. Não. Basta acompanhar os noticiários, eles sempre anunciam um ciclista acidentado. A ciclista escarlate é toda aquela, ou aquele, que pega a bike e sai pedalando pelas ruas hostis da cidade grande com a cara e a coragem. Isso é fato.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Anotações de um bebum introvertido (2)


Mesmo casados eles não dividem nem a música que cada um curte!!





Enquanto o corpo inerte repousa, seus ditos camaradas tiram mó sarro da carcaça embriagada. Nem a amizade fica sóbria depois de 13 garrafas!!!





A mina que vejo a minha frente se debruça confortavelmente sobre a vitrine iluminada de guloseimas disponíveis. Seu quadril procura calor, calor calórico.





O QUE EU QUERO CUSTA CARO.





Este que vejo limpar o terço na torneira com detergente estará tentando limpar seus pecados ou se apresentar respeitável diante das vadias suicidas??





Não há exemplo melhor: a Rua Augusta é um travesti provocativo; ele sempre deixa à mostra, quando se senta, a calcinha fio-dental vermelha que está usando!





Ela rói as unhas desesperadamente. Não sei se é preocupação ou falta de rola na boca homicida.





A Esperança que reside numa azeitona sem caroço não é a mesma que reside numa ervilha envolta em maionese.





Ela mete os fones nos ouvidos sem dó nem piedade. Depois reclama que eu não sei ouvi-la. E quando saca seu espelhinho sempre disponível, disfarça muito bem seu receio de ser rejeitada. Não adianta mais alisar o cabelo aplicado. Minha filha, você já não é mais desejável!





Este é mais um lembrete pra você mesmo: não encare as mulheres acompanhadas, por mais que elas lhe sejam desejáveis, o perigo vizinho, além de fatal, é passional e banal. Fique esperto, meu filho.