Ainda me lembro
daquele tempo...
Um tempo onde o próprio
tempo deixou de passar.
Eu ainda me lembro
daquele lugar.
Um lugar distante,
alto e revigorante – paragens etéreas subindo a serra.
Para se achegar lá, só
de carro, ou de qualquer veículo aí motorizado. De a pé até dá, mas poucos são
os valentes de pés calosos que fazem tamanho esforço. De bicicleta dá sim pra
subir, mas quem aí se aventura nas inúmeras curvas que se apresentarão pra si??
Quem for verá a pista
de asfalto negro posta recentemente.
Quem for verá, logo à
direita de quem sobe, o caminho de terra em tons rochosos (não calculo os
séculos que ele há de ter). É por esse caminho que adentramos no vilarejo. É um
caminho de solavancos, tremedeiras, equilíbrio aqui é fundamental, mas a vista
é certeira e compensa o terreno desigual! Vislumbramos a cidadela bem lá em
baixo, num buraco, lembrando uma célula num microscópio, mas bem mais assustadora.
Neste caminho de tons
terrosos, de manhãzinha, é cheio de alunos sonolentos uniformizados indo para a
escola próxima, esses vão e se deixam ver a pé; os que vão de ônibus ou outro
veículo de gente, aguardam sentados e juntinhos em pequenos grupinhos, na
pracinha central, até que este passe e os carreguem até a escola distante, que
fica no meio da cidade de baixo, horizontalizante.
Todos, porém, só
retornam à tarde, à tardinha, e nesse ínterim, neste lugar, há pouca coisa pra
se ver.
As bodegas ficam
abertas até certo horário. Na hora do almoço fecham, e seus proprietários só
voltam a abri-las depois que a quentinha se esfriou no bucho inchado.
Aqui, criança
pequenina há. Mas poucas, muito poucas, arriscam a pele a brincar debaixo deste
sol de lascar.
Se não vos disse
antes, digo agorinha mesmo, aqui o sol castiga, queima de doer, mas acima da
serra o clima suaviza, torna-se mais ameno e fresquinho, pois cá em cima há
muito verde em volta, a brisa aqui é visita constante.
E ela é dessas visitas
que chega e vai ficando, demorando-se um bocadinho; às vezes é bem rapidinho,
tira mó prosa e vai se embora, de mansinho, satisfeita e sorridente, essa
indecente...
Aliás, todos por aqui
se conhecem.
Fulana que é filha de
beltrana prima de cicrana é muito conhecida!
Fulaninho irmão de
tal que é neto do tal-tal passou por aqui ontem mesmo pela manhã.
Aqui, neste lugar, as
pessoas são bem-vindas.
Se você der as caras
por aqui no finzinho da tarde, verá os vizinhos papeando livres, leves e soltos
à porta de casa. Uns sentam na calçada mesmo, outros ficam de pé, encostados no
portão; têm outros que preferem plantar cadeira, uma ao lado da outra, na
varanda de casa ou bem em frente desta, na calçada mesmo. Fazem isso enquanto
aguardam os filhos, os que não trabalham fora.
O assunto dos papos é
variado; planos, desilusões e frustrações entram em pauta com frequência, mas é
dos outros vizinhos, ou dos parentes próximos, que as línguas e ouvidos torcem
e quebram com mais eloquência.
Mesmo assim, esse lugar,
não deixa de ser aprazível.
Ainda me lembro dos
sorvetes de tapioca sorvidos nesses finzinhos de tarde acalorados, lembro-me
dos pedacinhos de goma em cada bola branca sobre a casquinha crocante e
moreninha desta típica sobremesa. Ainda me lembro da bruaca feita na folha de
bananeira e do gosto marcante, simples e bom, que só ela tem. Lembro dos
pãezinhos franceses, que lá são chamados de carioquinha, ainda quentes com
manteiga derretida no seu miolo ralo e quase oco... Essas coisas eram degustadas
logo de manhã ou no lanche da tarde, jantar comida isso lá a gente não fazia.
Ah! Lembro-me ainda das
menininhas tímidas, mas curiosas da presença masculina em terra invadida. Eu me
lembro dos olhares maliciosos, dos sorrisinhos sapecas e dos segredos
compartilhados num ouvido de conchinha...
Eu me lembro da noite
em que a Igreja do Cristo-Rei estava em festa!
Eu me lembro que fui
forçado a pôr a minha melhor roupa, pois na Igreja de Cristo, e Ele sendo Rei, não
se aceita visitas desleixadas de bermudão e chinelo nem ao pé de sua alta
morada, atapetada por íngremes e traiçoeiros paralelepípedos.
Eu me lembro da
missa, das oferendas; eu me lembro do puxão de orelha!
Padre também dá
bronca. Padre dá toquinhos, umas cutucadas, mas logo em seguida afaga o coração
nosso de sinceros criminosos.
Eu me alembro dos
festejos logo despois. Eu me alembro do leilão de quitutes e de arroz!!
Lembro-me das danças
na pracinha anexa e das meninas lá vistas. Eu me recordo muito bem dos braços
nus avistados, das perninhas finas de amostra, das coxas grossas e dos
rebolados generosos...
Ah!
Eu me lembro de tanta
coisa ainda...
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