quarta-feira, 23 de março de 2022

EU POR AÍ ANDANDO...

Imagem: laboratoriodafe.pt

ando

não me arrasto

caminho

não corro

pra que correr

se o mundo é redondo

 

vou

volto

e

aqui

dá no mesmo

tudo é a mesma coisa

só muda o idioma

 

paro

pra descansar

e

quando volto a caminhar

caminho quase parando

pra apreciar

apreciando

a vida que passa

passando

  

segunda-feira, 21 de março de 2022

MODUS OPERANDI

Imagem: vice.com


Congelado ficas

Ao ser abordado

Por um vendedor

Inusitado

Ou

Um ladrãozinho mesmo

Folgado

 

Medo da porra tens

Quando alguém fala com ele

Homem, mulher ou bicho-papão

O sujeito trava

Passa mó aflição

 

A surpresa o assusta

Do inesperado tenta

Em vão

Escapar

Se livrar —

Inútil

 

O que ele ainda não entende

É a coisa que parece simples

Mas que requer dentes:

Quando o indivíduo toma partido de si mesmo,

Quando ele compreende a sua própria natureza

Tudo e todos

A sua volta

Vira presas

  

terça-feira, 15 de março de 2022

CIDADE ABANDONADA

Pintura de Gabriel Bevacqua / deviantart.com


Andando pela cidade,

Vejo só infelicidades:

Gente aos montes passando fome,

Segurança alguma some.

 

Andando ando tombo:

Calçadas malfeitas, rombo.

Parece até uma terra sem lei;

Se celular tem, logo fica sem.

 

Muitos cruzamentos sem sinais,

Roubam direto os cabos, canais.

Até tampa de bueiro tão levando

E se há um morto no chão, passam olhando...

 

Por aqui alaga e falta água.

A ironia é a nossa desgraça!

Todo mundo cobra, mas não faz nada!

Pior é que se acostumaram a viver na merda.

 

quarta-feira, 9 de março de 2022

GUERRA AO FÁLICO

Imagem: pt.vecteezy.com


“Aceita um canudo?”, pergunta o atendente simpático do restaurante pé-sujo daqui do bairro. “Não. Obrigado.”, respondo com a mão espalmada tipo stop. Nunca fui de utilizar essa ferramenta curiosa e prática pra sugar o líquido, geralmente gelado ou frio, da vez. Hoje em dia então, nem morto uso um troço daqueles de papel. Sim! Canudo hoje é só de papel. É mais biodegradável, certo? Ecologicamente correto, aliás. Isso é bom. Mostra uma sincera evolução no mercado capitalista selvagem. E quem aí não se enquadrar no esquema, sofrerá sanções ou coisa pior: linchamento virtual.

Termino o meu refresco e procuro o palito pra palitar os dentes. Cadê? Só saquinhos de sal e adoçante milimetricamente enfileirados numa caixinha sobre a mesa ao lado dos guardanapos de papel tipo celofane. Chamo o mesmo atendente simpático de antes. Faço do meu dedo indicador um exemplo visual, e muito idiota, do que eu estou precisando no momento. Ele me responde: “Ih, chefia! Não trabalhamos mais com isso, não”. Solto um: “Ah, tá! Valeu.” e um joinha meio murcho de decepcionante.

Levanto. Pago a conta. Da porta do estabelecimento, quase na calçada, pego um cigarro inventado no bolso (eh, eu não fumo), procuro o isqueiro igualmente inventado no outro bolso (repito: eu não fumo) e não o encontro. Dou meia volta e peço, por obséquio, à moça do caixa se ela tem fósforos. Ela é jovem e me responde com uma pergunta: “Fósforos? O que é isso?”. Engulo o cigarro imaginário junto com o peso da minha idade e saio para a rua ensolarada.

Na rua, suando feito um porco pururucado de Minas, lembro que tenho que passar na farmácia, ou numa perfumaria qualquer, pra comprar cotonetes de ouvido. Entro em várias e em todas não têm, tá em falta, e todas as atendentes sorridentes que me atendem me lembram que os especialistas no buraco do ouvido não recomendam o uso desse objeto arcaico e vilanesco do nosso meio-ambiente global globalizado.

 Muito traumatizado e triste pra caramba, percebo que a minha bexiga está cheia (eh, bebida diurética é dose, ou é efeito colateral de algum remédio aí renal). Vou num banheiro público e susto, horror: NÃO HÁ NADA ALI PRA PEGAR!!! Sumiu! Cadê? Onde foi parar??

E assim termina mais um dia neste mundo do além da imaginação. 

terça-feira, 8 de março de 2022

PARANOIA PAULISTANA

Imagem: pt.wikipedia.org

Hoje em dia, é muito comum dizer aos quatro ventos que ama ou odeia alguma coisa, certo? Até mesmo pessoas, seres vivos, são alvos fáceis de amor ou ódio, hoje em dia, não é mesmo? Pois então. Eu odeio! Eu odeio pessoas. Peraí. Melhor eu me explicar direito, e esquerdo, antes de ser linchado, ou pior, cancelado.

        Eu odeio pessoas que andam atrás de mim! Sério mesmo. Sabe aquelas pessoas que ficam bem atrás de você quando você está andando na calçada, subindo ou descendo uma rua? Cê tá ali de boas, fazendo a caminhada a pé que você sempre faz, ou só de bobeira mesmo, pondo em prática a caminhada obrigatória que o teu médico recomendou pra baixar o colesterol ruim e elevar a sua absorção de vitamina D e, de repente, você sente aquela sensação estranha, incômoda, que tem alguém bem atrás de você, quase no seu encalço, quase no seu cangote, sabe? Odeio demais isso! Poxa vida! Mantenha a distância, pô! Num sabe respeitar o espaço do outro, não?

        Claro. Você aí vai me dizer que isso aí é paranoia de paulistano. Você aí vai dizer que a gente aqui é paranoico com isso, que a gente aqui tem medo de ser assaltado, roubado, morto, assassinado, não é? POIS SOMOS MESMO!!! A gente aqui é meio de interior, meio do nordeste, tá ligado? A gente aqui desconfia até da sombra. A gente aqui quase nem confiamos na própria mãe, cara! Cê acha que a gente vai confiar num desconhecido que tá bem atrás da gente? Nós aqui não caímos no golpe da fruta, não! De mortadela conhecemos até o tempo de maturação de cada marca aí do mercado. Todo paulistano que se preze, digo, os que podem bater no peito e dizer com orgulho e lágrimas nos olhos que é paulistano de raiz, é desconfiado!

        Trabalhamos pra caramba? Sim! Medo é um sentimento constante pra gente? Sim! Todo mundo aqui usa camisa polo? Eh, veja bem. Um e outro aí sim, mas... Não mude de assunto! Foca em mim! Não me faça perder a mão da crônica aqui, cara.

        Pra resumir, só dar um Google aí e ver a bandeira da nossa cidade. Já deu? Pois então veja lá o braço direito armado. Tá vendo? O que tá escrito logo abaixo? NON DVCOR DVCO, né? Meu latim é péssimo, mas acho que se traduz mais ou menos assim: NÃO SOU CONDUZIDO, CONDUZO. Agora você nos entende, meu amigo?