quarta-feira, 9 de outubro de 2019

FORA LUMINESCENTE

Imagem: Ulysses Galletti

vaga
vaga-lume
entre nós
vaga

vaga
entre o lume
sobre nós
escuridão

vaga
sem volume
um vazio
preenche a gente

vaga
nossa casa
à noite
ninguém vislumbre


Observação

Poema NÃO selecionado no Concurso Poético Versos & Imagens do Coletivo São Paulo, Escritores Sem Fronteiras de Literatura e Sarau Urbanista.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE II_JARBAS & KETLYN_CAPÍTULO XVI

"Lá do alto, entre as nuvens de poeira e fuligem, os dois assistiram ao nascimento de uma lenda."

Jarbas & Ketlyn testemunharam a cena. Lá do alto, entre as nuvens de poeira e fuligem, os dois assistiram ao nascimento de uma lenda. Jarbas & Ketlyn viram os corpos dos dois titãs se unindo em vaporização; viram as partículas de vida & morte se juntando e formando uma nuvem negra carregada de raios prateados; viram também os humanos, que sobreviveram à batalha, correndo, apavorados, em direção à montanha do vento norte. Por lá, esses, se abrigaram, enquanto que, do lado de fora, uma tempestade caía sobre a montanha. Foi assim que ela ficou com as cores que tem hoje; foi nesse dia, também, que Galgameth surgiu. Os sobreviventes, após a intensa tormenta, tentaram sair de seus abrigos, porém Galgameth os impediu. Algumas dezenas deles foram mortos por Galgameth. Poucos foram os que sobreviveram a ele. Recuados e impedidos de sair, o punhado de humanos cansados e desesperados resolveram se instalar por ali mesmo. Nas primeiras incursões por dentro da montanha, esses primeiros colonos descobriram as dádivas que ela resguardava. Heliópolis foi surgindo aos poucos, enquanto Jarbas & Ketlyn só ficavam de olho.

sábado, 5 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE II_INDIGO_CAPÍTULO XV

"... mas foi repelido pelas pinças de Indigo."

Quem vive um dia morre. Até os deuses morrem. A vida é uma linha que se corta. A morte é o fim dessa linha; é a ponta partida perdida no espaço-tempo. Zaramadan era a morte, era a morte transmutada numa serpente-víbora de fogo negro. Miasmas arroxeados saíam de sua narina reptiliana. Sua língua vermelha comprida e tremula, para fora da boca, parecia zombar da presa recém-avistada. Zaramadan era muito maior que Indigo. O triplo, o quádruplo do seu tamanho. No Planeta da Fome, a morte sempre vence, quem ainda vive é dissidente. O embate dos dois deuses-terrenos foi colossal! Ele durou quarenta dias e quarenta noites, segundo a medida especulativa da época. Zaramadan deu investidas rápidas, mas foi repelido pelas pinças de Indigo. Esse usava o seu ferrão para afastar uma aproximação mais sorrateira de Zaramadan. Porém, Zaramadan era mais rápido, ele conseguia arranhar e queimar, com suas presas e chamas corpóreas, partes do corpo de Indigo. O veneno da morte se alastrava ligeiro pelo seu corpo azul-profundo. Numa investida direta de Zaramadan, Indigo, de guarda-baixa, conseguiu prender seu adversário com suas pinças, enquanto esse lhe abocanhava a face. Indigo cortou-lhe a cabeça, mas morreu em seguida e virou lenda.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE II_INDIGO_CAPÍTULO XIV

"Indigo era um ser feito todo de água."

Indigo era monstruoso! Um ser medonho do tamanho de uma cidade. Com suas oito patas, ele refertilizava o solo estéril por onde caminhava, suas pinças gêmeas esmigalhavam o espaço e criavam planos miméticos de possível autofecundação, eram camadas de possibilidades atrás de mais camadas de possibilidades. Seu ferrão parecia estar em constante combustão. Indigo era um ser feito todo de água, uma fumaça saía incessantemente do seu ferrão fervente. Aquele vapor repurificava o ar a sua volta. Indigo era um deus vivo entre os homens. Esses se amedrontaram logo que o viram. Uns imaginaram que o Dia do Julgamento enfim havia chegado. Contudo, observaram bem o seu trabalho e, assim, tribos inteiras de desgraçados se aglomeraram em seu corpo, feito carrapatos – a fome era maior do que o medo e crença alguma se mantém quando se tem fome. Séculos de aparente prosperidade se seguiram. Até que Zaramadan apareceu no meio do caminho.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE II_INDIGO_CAPÍTULO XIII

"Então, em desespero, medo e dor, choraram."

Indigo não era nada, a princípio. Muito tempo antes da lua de sangue e do sol escaldante ganhar os céus, sequer se imaginava o seu surgimento. Indigo era pura vontade. Quando se deu a quase aniquilação humana, os humanos remanescentes se sentiram perdidos, desprotegidos; eles não se sentiam amparados por nada nem ninguém. Então, em desespero, medo e dor, choraram. Esse choro era a verdade, era a condição humana compactada, límpida e pura numa só gotinha de lágrima. Os humanos ainda vivos que, naquele tempo atrás, ainda chegavam quase aos milhões por todo o planeta, choraram ao mesmo tempo. Bilhões de lágrimas salgadas atingiram o solo infértil e, tamanha foi a vontade desses chorões, que suas gotas penetraram fundo na terra estéril. Essas gotas da condição humana se convergiram em um ponto subterrâneo, atingindo um lençol freático e, lá, uma reação químico-física se sucedeu: nas proximidades da montanha, que hoje abriga Heliópolis, um gigantesco escorpião azul-profundo se ergueu das profundezas da terra. Era Indigo.