terça-feira, 29 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_PÉTROS, QUINDJIN E RASTAFANNY_CAPÍTULO XXV

"Aí o desejo individual falou mais alto na pança grotesca de cada um."

Quando se vive com fome, pouca coisa importa além disso. Quem tem fome, quer matá-la logo; quem tem fome, só pensa em se saciar, se empanturrar de vez. Pétros e Rastafanny eram homens desse naipe. Guerreiros que eram, rondavam os desertos de Soberano caçando, torturando e executando pessoas para aplacarem sua fome de carne e sangue humano. Os dois tinham certo parentesco, porém não tocavam muito no assunto. Eles só queriam continuar matando e devorando a carne e os ossos dos coitados que iam encontrando. Esses dois até que eram bem unidos, dividiam igualmente as carcaças e as tralhas que sobravam de suas vítimas. A relação de ambos só se complicou mesmo quando eles souberam da existência de um Quindjin. Aí o desejo individual falou mais alto na pança grotesca de cada um.

sábado, 26 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_OMOTEP_CAPÍTULO XXIV

"Quindjin era uma jóia."

Quindjin era uma jóia. Antes da quase aniquilação humana, tal preciosidade era bastante comum entre as civilizações desenvolvidas, ou não, de Soberano. Quindjin era uma jóia dos desejos. Somente os reis, rainhas, chefes de estado, enfim, somente os líderes tinham a permissão de utilizar o Quindjin para saciar a fome dos seus subordinados. Era esse maioral que determinava quais tipos de comida eram mais ideais para manter uma vida alimentar saudável dessas pessoas de sua responsabilidade. Quindjin era a graça da fartura, da multiplicação em tempos difíceis que cabia na palma da mão. A jóia só poderia ser usada em último caso, em uma situação de extrema urgência. Quem a utilizava para fins egoístas e/ou para prejudicar a saúde alimentar dos que tem fome, perdia a Jóia Amarela da Boa Refeição para sempre. Infelizmente, milhares de Quindjins se perderam. Muitos ditos líderes se corromperam diante da necessidade extrema de muita fome. A fartura e o tempo de barriga sempre cheia tinham chegado ao fim. Omotep caminhava sozinho sobre o deserto com o último Quindjin em seu peito. De repente, tropeçou num troço coberto pela areia, era um trilho antigo de trem.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_OMOTEP_CAPÍTULO XXIII

"Omotep caminhava sozinho pelo deserto."

Há quem coma de tudo e se sinta muito bem, há quem não come de nada e se sinta muito mal e há quem nunca comeu nada de tudo e se sinta inexplicavelmente normal. Omotep caminhava sem fome pelo deserto. Ele também não sentia sede. Omotep era um velho seco sem estômago. Já havia muitos anos que ele vivia. Omotep vinha de antes de tudo. Até antes do nada ele vinha. Seus semelhantes humanos, quando o avistavam passar, avaliavam-no e chegavam a mesma conclusão: “Velho demais. Não deve ter carne de valor ou qualquer coisa que nos sirva de alimento.”. Os demônios da fome o ignoravam. Os anjos com asas e os caídos também. Omotep era o excluído, o destinado a ver o começo, o meio, o fim e o recomeço de tudo, de novo, de novo e de novo, sem descanso. Omotep caminhava sozinho pelo deserto, vendo as ruínas do que antes era o retrato fiel da vida. Omotep só via morte ao seu redor, mas, dentro de si, Omotep carregava em seu coração a última Quindjin.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_OMOTEP_CAPÍTULO XXII

"Omotep não tinha fome."

Omotep era um ancião, era um velho, muito velho, de aspecto abatido, cansado, mas de olhos verdes muito brilhantes. Omotep era nômade, assim como a maioria dos humanos ainda vivos, ele vagava a pé pelo grande deserto que era o planeta Soberano. Ser velho em um mundo de fome é algo louvável e inconveniente. Quem atingia avançada idade, sem dúvidas, lutara e matara adoidado e, justamente por essa quantidade absurda estimada de mortes e assassinatos nas costas, era o que tornava a velhice um estágio desagradável. Ninguém, num planeta de miseráveis, via com bons olhos um velho decrépito perambulando a pé por aí. Omotep caminhava só pelo grande deserto tóxico. Porém, sua saúde era perfeita. Mesmo utilizando um pedaço de pau como bengala, Omotep caminhava firme, sem pressa sobre a areia vermelha. Omotep não tinha fome. Omotep, aliás, nunca tinha sentido fome em toda a sua vida. Omotep era um velho sem estômago.

sábado, 19 de outubro de 2019

SOBERANO: O PLANETA DA FOME_PARTE III_LUCIUS, MAURO E NAHIN_CAPÍTULO XXI

"... e levou, ele mesmo, milhares..."

Nahin era só. Mesmo não passando fome, sentia um grande vazio por dentro. Desde sempre queria sair de Heliópolis. Ainda bebê gigante, tentou fugir de gatinhas da cidadela. Quando Galgameth começou a se materializar próximo dela, Lucius, um rapaz vivaz ainda muito jovem e guerreiro, conseguiu, num instante, puxá-la de volta para dentro da montanha. Príncipe Lucius adorava montar guarda na saída/entrada de Heliópolis. Vira e mexe via Galgameth impondo sua incansável programação. Ele, assim como Nahin, alimentava a mente e o coração com o desejo de ver o mundo de fora. O paraíso interno não era suficiente para eles. Quanto a Mauro, esse gozava muito da fartura alimentar da cidade-abrigo. Mesmo não crescendo em altura, sua barriga era imensa, bem maior do que sua cabeça. Mauro não abriria mão do seu bem-estar facilmente, por isso, selecionou, sentenciou e levou, ele mesmo, milhares de idosos, homens inválidos e mulheres ainda grávidas à execução. Galgameth foi previsível.