quinta-feira, 7 de outubro de 2021

BRANCO E VERMELHO

Imagem: terra.com.br

Pálida

A estranha figura caminha

Caminhos de sangue

Descalça

Os pés vermelhos ficam pretos

Com a sujidade da cidade

Centro

Centro velho

Perambulando pela metrópole

Cosmopolita, desigual, bárbara

A civilidade é só fachada

Brutal

Animal

A estranha figura trajada de branco

Ainda caminha

Devagar

Vagando pelo centro

À noite

Madrugada

Somente às sextas

Sexta-feira treze

Meia-noite já é vista

Entre à água-podre

Entre as torres de marfim luxuosas

Entre os mendigos, os ladrões, as prostitutas

Entre as crianças, os desempregados, os estudantes, os baladeiros

A estranha figura caminha

Não pára

Nem no sinal fechado

Abre caminho

Branca

Vermelha

Quem tenta falar com ela

Logo vê

Sua boca

Sangue

Jorrando, vomitando

A sua essência vital

Ancestral

É por ali

Liberdade

Glicério

Cambuci

Bixiga

Bela Vista

A estranha figura

Sempre caminha

E caminhará

Deus algum está com ela

Só demônios

Todos os nossos

Numa estranha figura só

Pandemônio

Branco

E vermelho

Branco

E vermelho

Branco

E vermelho

...

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

EU SOU UM FRACASSADO (ou A Revolta do Tiozinho)

Imagem: icon-icons.com


Eu sou um fracassado

Não tenho conta no Instagram

Nunca tive Facebook

Uso o WhatsApp por obrigação

Mas não mando vídeo,

Foto, figurinha ou o meme do momento

Só escrevo mesmo

 

Não faço curso on-line

Nem vendo um aí no YouTube

Meu celular é até um smartphone

Touch screen e essas porras todas

Mas mais ligo, falo com os outros

Uso a voz

Não só uso os dedos

 

Tenho mais de quarenta

E ainda moro com a minha mãe

Mas trabalho, ajudo em casa

Não fico parado em frente à tela televisão

 

Sou saudável

Tenho convívio social

Real, não virtual

Conheço os meus vizinhos

Amigos e parentes vejo, falo com freqüência

Não alimento treta

Só a minha gata perneta

 

Não sou chefe

Não tenho negócio próprio

De startup alguma sou sócio

Sou um funcionário apenas

E não me venha com esse papo-furado de colaborador!

 

Não sou doutor,

Sou mestre

Em viver com o que dá

Com o que tem

 

Não sou rico

Nem pobre

Mas, segundo vocês,

Eu sou um fracassado!


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Somos Paulistano

Imagem: br.depositphotos.com

Estamos sempre de cara fechada

Amarga

Não dizemos bom dia

Nem boa tarde

Tampouco boa noite

Não somos educados

Mal-encarados

Por favor, nunca falamos

Obrigado então...

Somos medrosos

Covardes

Um medo da porra nos toma

De todo

Quando imaginamos ser assaltados

O bem privado vale mais

Bem mais

Do que um copo d’água grátis

Batemos em mulher

Assassinamos homem todo dia

Somos uns desgraçados

Folgados

Nos achamos superiores

Somos atores

De uma comédia-dramática-pornográfica

Sem-graça

Somos uns trouxa

Bobalhões

Idiotas

Tomamos uma média

E comemos pão na chapa

Prensado

Amassado

Às vezes sem miolo

Desmiolado

Somos de direita

A maioria

Uns puxa-saco da Dorinha

Carochinha

E pra não alongar por demais

Essa merda

Cocaína

Crack

Uma tabacaria a cada esquina

Deixo cá um otimismo:

Apesar dos pesares malditos ditos

Ainda assim evoluímos

Quando enfim tomamos consciência

Do bem coletivo;

O bom senso é lindo!


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

HABOOB

Imagem: Reprodução de vídeo / @ConexaoGeoClima


Do noroeste paulistano,

Ele vem encobrindo tudo!

Assim d’uma vez vasto mundo,

Tornando o céu, noturno.

 

Para os não acostumados, medo:

— Parece até o fim dos tempos, menino!

— Corre! Desembesta! É o castigo divino!

Mas para os cientes: nem credo...

 

Clima seco. Baixa umidade.

Fatores climáticos dão o alarme:

Se o ser humanozinho continuar no disparate,

 

Sua casa, seu mundo todo assim some

Numa nuvem de poeira vai e pode

Extinguir a si próprio, e não por falta de sorte!


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

TRÊS MINICONTOS BOBOS, MAS TÃO REAIS QUE DÃO ATÉ MEDO

Imagem: uol.com.br

Com a espada enriste, o herói vacila: diante de si, uma horda assassina; desejando sangue e espumando vingança. O herói recua, um passo para trás é sinal de fraqueza. A horda então avança, lanças pontiagudas empunham e facas de osso nas bocas. O herói é massacrado. Seu grito é logo abafado, esquartejado. Os antropófagos carregam seus troféus alegres enquanto a menina violada ainda chora.

 

 

Isolado de todo mundo, o pai contempla o filho. Esse, pequenucho, não entende direito o pai ali sozinho, separado de si e dos demais da casa. O pai tá de castigo? Pensa o filho. E o pai, ainda de olho no filho, chora um choro mudo. Eh, o paizinho fez malcriação.

 

 

Sozinha, com a cabeça encostada na parede, a garota espera. Com a tela iluminada na mão direita, ela contabiliza os likes e os dislikes. Seu rosto, lindo, perfeito, fica, a cada segundo, mais pálido; a maquiagem escura borrada dá-lhe um aspecto de máscara mortuária... Seu pulso esquerdo não pára de sangrar.